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PROSA

Diacronia

terça-feira 18 de outubro| Edição do dia

Abriu e cavou o teto com suas unhas de curiosidade - que cresciam mais rápidas do que àquelas mais comuns, que ficam nos dedos dos não’s. Fez um buraco rastejante nas ideias e seguiu, com a pressa de alguém que cai e levanta de repente, até chegar num céu de azul-sereia e nuvens simples de algodão queimado. Era uma faixa estreita de areia toda feita com pegadas. Era difícil avistar espaços vazios, com areias não pisadas. Cada uma com um tamanho e formato delimitado, como se contassem histórias de marinheiros sem roupa nos pés e com mapas nas digitais dos metatarsos. Algumas caravelas estavam atracadas nas ondas, mesmo se só fossem carcaças da memória. Do lado oposto, uma mata densa de passos imprevisíveis e trilhas sugeridas, através de cantos de cegos papagaios.

Estes falavam muito bem a língua das tempestades iminentes, eram como sábios oráculos que ouviam além do horizonte óbvio. Coloridos e pontudos. Ela ficava admirada "Como pássaros que não enxegavam coisa alguma poderiam ser uma visão tão bela?". Talvez as coisas mais belas não enxerguem, seja por escolha ou por maldoso destino.

Depois de avistado todo o espectro do espaço, percebeu que já fazia mais de duas horas que estava ali, parada, no mesmo lugar, com medo de mover-se e alterar pegadas de gente desconhecida. Estava encurralada por momentos alheios e sentia que não tinha o direito de alterá-las, assim, como quem é impertinente e invade a privacidade de outros passados. Foi então que, com todo o cuidado, foi agachando até sentar-se no único lugar não pisado daquela praia.

Anoiteceu. Amanheceu. Entardeceu. E desceu sol no seu eu mais céu.

Depois de passado um dia inteiro de contemplação, estrelas carentes, costas escarpadas e doloridas, e ondas atrativas, decidiu arriscar-se ao avanço. Olhou a pegada mais parecida com a dela, mirou bem e, como pedras num riacho, saltou no escorregadio do sem-volta.

(Os instantes de sem-volta são extremamente traiçoeiros, a impotência, inerente à ela, pode tanto acalentar quanto te deixar desesperado.)

Aterrizou como avião desgovernado e foi pedaço de história pra tudo que é canto daquela praia: era primeiro amor pra um lado, era saudade de amizade perdida pro outro, tinha casaco de presente rasgado engolido pelas ondas e decisões-à-tomar sem rumo na mata densa dos papagaios.

Era como se toda aquela areia fossem rastros descascados de vida. Quando tudo ali se misturou, um tanto foi pra dentro dos pulmões, outro tanto virou poeira cósmica. Engasgava, sorria, chorava, tossia. Seu peso variava entre algumas gramas de vida e toneladas de passado vivido. Sua pele enrugava de tanto mergulhar nas frases marinhas. Sua visão embaçava, seus movimentos se perdiam de qualquer lógica. Gritos à acompanhavam e não sabia se era por dor ou contentamento. Lágrimas davam-na banho e ela não tinha certeza se era por tristeza ou encanto. Tocavam-na com mãos delicadas e ela não conseguia se decidir se era por fragilidade ou nojo.

Tudo escureceu. Tudo clareou. O coração voltou a bater e ela recuperou o fôlego. A praia, a mata, a maré, o céu, a areia, tudo revolveu para dentro dela, como se tivesse sido transportada para dentro do seu próprio avesso.

Continuava inerte, parada, contradizendo todo o movimento dentro da menina, jovem mulher, criança crescida: essa velhinha recémnascida que tinha acabado de morrer. Foi quando decidiu dividir-se, como margens de Rosas, em três: os pés do agora, as pegadas dos passados e os passos de afiados bicos e olhos cegos de papagaios.

Ela fechou, devagar, na velocidade exata de cada palavra que acabava de viver. As imagens pareciam não ter fim e uma angústia sobre o Fim a tomou por completo. "Quando termino um livro, ele termina em mim?". Lento como a escrita de um romance, rápido como um relance, ela respondeu como os córregos que saíam do silêncio da própria pergunta:

"Seja até a hora certa, seja até o momento anterior, ou o instante depois, e que seja assim, como for, mas que seja eterno esse começo, que seja início até o fim"




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