GENOCÍDIO INDÍGENA

Dia do índio: COVID-19 é nova ameça de extermínio a vida dos indígenas

Às tradicionais ameaças à vida da população indígena, fruto das sangrentas disputas de terras levadas a cabo pela ganância de ruralistas, garimpeiros, madeireiros, se soma agora o novo risco de contaminação do COVID-19 para uma população em condições de maior vulnerabilidade e com menos assistência.

domingo 19 de abril| Edição do dia

O coronavírus já levou três indígenas a óbito no Brasil. Uma senhora de 87 anos, da etnia Borari, morreu em Alter do Chão (PA), vítima de covid-19, um jovem Yanomami, de 15 anos, residente em Roraima e um homem, de 55 anos, da etnia Mura e que morava na capital amazonense. Os dados são do Instituto Socioambiental (ISA).

No total, cresceu de nove para 26 o registro de contaminados, aumento de 189%. O Amazonas concentra quase a totalidade dos pacientes (96%). O último boletim divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) mostra que há ainda 23 casos suspeitos à espera de confirmação.

A ameaça do COVID-19 em relação às populações indígenas se potencializa pelas suas condições de vulnerabilidade. O isolamento dos territórios indígenas, longe de colocá-los a salvaguardo da doença pela presença de ruralistas, garimpeiros e madereiros, oferecem outros agravantes como a falta de estrutura e de acesso aos territórios.

A maioria dos municípios no Brasil não tem Unidades de Terapia Intensiva (UTI) disponível e não vai dispor de leitos hospitalares caso a epidemia se dissemine no país. Muitas Terras Indígenas estão localizadas em municípios com esse tipo de perfil.

Um exemplo do risco de contaminação para os indígenas está na aldeia ianomâni do rio Uraricoera, rota de garimpeiros na região, e onde já foi registrada a morte de um indígena. A entidade que representa os direitos dos ianomâmi fez no sábado um alerta sobre o iminente aumento de casos entre indígenas contaminados com o coronavírus depois da morte do adolescente Alvanir Xrixana, de 15 anos, em Roraima. A Hutukara Associação Yanomami aponta falhas nos cuidados com o indígena desde o primeiro momento em que ele apresentou sintomas da Covid-19, há três semanas, e chama a atenção das autoridades responsáveis para a presença de garimpeiros na comunidade onde a vítima morava.

"Agora sabemos que existe o risco da comunidade Helepe estar contaminada pela doença e ela pode continuar subindo o rio junto com os garimpeiros. O vírus pode invadir nossa terra, junto com os invasores que buscam o ouro".

Não bastasse a nova pandemia, as tradicionais ameaças à vida dos índios seguem, como mostram os dois recentes assassinatos de indígenas no período de 20 dias. Os sucessivos assassinatos do líder indígena Ari Uru-eu-wau-wau, no município de Jaru (RR), e o militante indígena Zezico Rodrigues, do povo Guajajara.

O assassinato Ari Uru-eu-wau-wau foi comunicado em nota A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em que afirmava: "Não estamos expostos apenas ao coronavírus, os crimes cometidos por madeireiros, garimpeiros e grileiros seguem intensos violando nossos direitos e destruindo nossa natureza."

O descaso do governo Bolsonaro pelas vidas indígenas

A política anti-indígena de Bolsonaro já se manifestou em diferentes declarações e políticas, como a liberação de posse de arma no campo ou seu manifesto desejo de legalizar o garimpo em áreas indígenas. Agora em tempos de pandemia, se manifesta através da negligência pelas vidas indígenas. Dispondo de cerca de R$ 45 milhões em caixa, a pasta chefiada pela fanática religiosa Damares Alves direcionou um valor praticamente simbólico de R$1.059,00 para o combate às consequências da crise sanitária e econômica da pandemia entre as populações mais excluídas e vulneráveis como comunidades indígenas e quilombolas, entre outras. Além de historicamente excluídas e reprimidas, essas populações agora são esquecidas por um governo que prioriza o lucro dos capitalistas acima da vida dos trabalhadores e do povo pobre.

Leia mais:Damares direciona míseros mil reais para combate à COVID-19 entre populações vulneráveis

O impacto das viroses no genocídio da população indígena

Viroses respiratórias foram vetores do genocídio indígena em diversos momentos da história do país, com dezenas de casos provocados por epidemias registrados em documentos oficiais, como o relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014 e o relatório Figueiredo de 1967.

Entre 1987 e 1990, cerca de mil Yanomami morreram em consequência de epidemias trazidas por uma corrida do ouro que tomou conta do território Yanomami.

Em 1977, após ’contato’ com a Funai, a população arawaté foi reduzida quase pela metade pelas epidemias, indo de 200 para 120 pessoas. De várias aldeias na margem direita do Xingu, só sobrou uma.

Durante a construção da Perimetral Norte, entre 1974 e 1975, doenças infecciosas mataram 22% da população de quatro aldeias no caminho das obras (Ramos 1979). Dois anos depois, uma epidemia de sarampo matou metade da população de outras quatro comunidades. No rio Apiaú, leste do território Yanomami, estima-se que cerca de 100 índios teriam morrido na década de 1970, restando apenas 30 sobreviventes.




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