Cultura

CURSO SOBRE DRAMATURGO ODUVALDO VIANNA FILHO

Dez vezes Vianinha: curso online gratuito com professora da USP

O curso online gratuito em dez discussões promovido pela Editoria Cia. Fagulha será ministrado pela Profa. Dra. Maria Silvia Betti, estudiosa da obra do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, e abordará a trajetória e obra do ator e dramaturgo. Publicamos aqui texto da autora sobre o curso.

quinta-feira 4 de fevereiro| Edição do dia

Esta série de encontros propõe-se a apresentar uma visão de conjunto da dramaturgia de Oduvaldo Vianna Filho tomando como balizas históricas os anos de 1965 (que se seguiu ao do golpe civil-militar) e 1974 (ano de sua prematura morte).
Vianna viveu e escreveu em um período de transformações socioeconômicas aceleradas e de grandes desafios para as classes trabalhadoras. Desde o início de seu trabalho como dramaturgo, no Teatro de Arena de São Paulo na segunda metade da década de 1950, o teatro foi tratado por ele como parte inseparável do aparelhamento de percepção, conhecimento e intervenção diante da realidade.
Em 1960, Vianna desligou-se do Arena disposto a transpor a barreira de classe que lá se apresentava quanto ao público, uma vez que operários e trabalhadores de baixa renda acabavam não tendo acesso aos espetáculos. Sua recém escrita peça “A mais valia vai acabar, seu Edgar”, encenada por Chico de Assis com um grupo amador num espaço aberto da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, acabou desencadeando a organização do Centro Popular de Cultura (o CPC), um grande e abrangente projeto voltado à horizontalização da produção cultural, com setores de trabalho voltados não só ao teatro, mas também ao cinema, à música popular, à poesia e à produção e circulação de estudos críticos que analisavam, de forma didática e investigativa, os grandes temas da pauta política do país. Em 1962 o CPC foi encampado pela União Nacional dos Estudantes, tornando-se seu braço cultural: o CPC da UNE.

Dentro do CPC Vianna passou a trabalhar febrilmente no setor de teatro, participando como escritor na criação de autos (esquetes satíricos e críticos de teatro de rua) sobre assuntos candentes das lutas do operariado, e, como ator, da apresentação deles em portas de fábrica, em favelas e em centrais sindicais. Paralelamente ele continuou a escrever peças longas voltadas às questões políticas cruciais do país (petróleo, reforma agrária e problemas inerentes à aliança de classes).

As condições materiais e humanas que caracterizaram esse período de trabalho cultural foram brutalmente abortadas com o golpe de 1964. A UNE foi posta na clandestinidade, e seu prédio, cercado por forças policiais, foi metralhado e destruído. Líderes sindicais, militantes de partidos de esquerda e ativistas do CPC e de outras organizações passaram a ser perseguidos, e muitos tiveram que deixar o país. Todos os principais elos entre o proletariado e os artistas e intelectuais de esquerda foram sumariamente cortados.

Diante dessas circunstâncias, Vianna e alguns companheiros criaram o grupo teatral Opinião, no Rio de Janeiro. Tratava-se da retomada forçada do teatro profissional e, ao mesmo tempo, da tentativa estratégica de realização de um trabalho que expressasse resistência e crítica, ainda que indiretamente, por meio de alusões, em espetáculos com uso de humor, música e metáforas sobre a situação do país.
Em 1968, com a instauração do Ato Institucional número 5, as já difíceis condições de trabalho sob o autoritarismo tornaram-se ainda piores, com a implantação da censura prévia aos meios de comunicação e com a crescente perseguição, prisão, tortura e desaparecimento de militantes de esquerda.

Com a recorrente proibição da maioria de suas peças pela censura, Vianna passou a ter que realizar trabalhos para a televisão, campo em que teve acolhida de público e reconhecimento pela crítica tanto com os textos teledramatúrgicos escritos para o programa “Caso Especial”, da TV Globo, como, principalmente, com os roteiros que criou em conjunto com Armando Costa, amigo e companheiro do CPC, para o seriado “A grande família” na mesma emissora.

Como dramaturgo e como pensador do teatro e da cultura, a perspectiva de Vianna foi sempre a de quem se apoiou na materialidade das condições objetivas da existência:
 
Partir daquilo que existe, que é visível, partir daquilo que compõe o homem no mundo em que vivemos.

 
Parece residir aí, nessa perspectiva materialista de entendimento, o principal desafio que se apresenta, nos tempos atuais, para o estudo e discussão de sua dramaturgia, particularmente a referente a esse período que se estendeu do golpe até sua prematura morte. A universidade atual tem sido um campo formador norteado predominantemente pela necessidade de gerar diagnósticos de análise apoiados em formulações teóricas mais do que no entendimento das condições históricas que se apresentam. Nada poderia ser mais adverso à discussão da dramaturgia de Vianna, e particularmente da dramaturgia produzida por ele nesse período, diante de circunstâncias de tão grande cerceamento.

Na consciência do povo, ao longo da História, de tal modo se imprimem os valores da submissão e da prostração, as condutas de aceitação e omissão, de tal modo a consciência popular é impregnada de ideias sobre a existência natural de “superiores” e “inferiores” que mesmo nos momentos em que o povo desperta, em que o povo toma para si sua força, estes valores permanecem, dificultando sua ação organizada, entravando a luta popular. [1]

 
Tornar mais agudos e complexos os recursos de expressão dramatúrgica e cênica foi sempre o empenho principal envidado por Vianna em tudo o que escreveu, e liga-se a seu esforço no sentido de tornar mais eficaz o mergulho crítico na realidade, por mais adversa que esta seja. Trata-se, portanto, de algo que se coloca a serviço da análise e da reflexão necessárias à luta e que se constitui em elemento inseparável dela. Em breves palavras, esta é a perspectiva a partir da qual foi proposta esta série de conversas.

[1] VIANNA FILHO, Oduvaldo. Uma entrevista sobre “Quatro Quadras de Terra”. In _______. Teatro de Oduvaldo Vianna Filho, v. 1. Organização de Yan Michalski. Rio de Janeiro: Ilha, 1981, p. 289.




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