Internacional

POLÔNIA

“Deus, honra e pátria”, o lema de 200.000 ultradireitistas que marcharam na Polônia

Convocados pelo governo ultranacionalista polonês, 200.000 pessoas do leste da Europa marcharam em Varsóvia neste domingo, nos 100 anos da independência da Polônia.

segunda-feira 12 de novembro| Edição do dia

A extrema direita do leste europeu foi às ruas de Varsóvia neste domingo para celebrar os 100 anos da independência polonesa. Convocados pelo partido do governo nacionalista polonês, milhares de pessoas pertencentes a grupos de extrema direita viajaram para Varsóvia para fazer uma demonstração de forças com o lema “Deus, honra e pátria”.

A mobilização esteve carregada de consignas contra os imigrantes, a esquerda e contra a prefeita de oposição da capital polonesa, a qual chamavam de “judia” de forma depreciativa.

O presidente polonês, Andrzej Duda, encabeçou a marcha que caminhou pelas ruas de Varsóvia.

Ainda que predominaram as bandeiras vermelhas e brancas (cores nacionais polonesas), também puderam ser vistos emblemas do partido Acampamento Radical, uma formação polonesa que tem suas origens no movimento fascista que nasceu nos anos trinta, e do partido político italiano de extrema direita Força Nova.
Também houve alguns grupos que cantaram mensagens supremacistas a favor de uma Europa branca e contra os refugiados, inclusive foram queimadas algumas bandeiras da União Europeia.

O governo polonês organizou e encabeçou a mobilização para evitar que os grupos de extrema direita tirassem seu protagonismo, mas por sua vez selando uma aliança com eles. Por encabeçar, Duda canalizou a marcha para um ato central com eixo exclusivo no centenário da independência, de 11 de novembro de 1918, depois de 123 anos de ser dividido e ocupado pela Prússia, Rússia e o Império Austro-Húngaro.

O ambiente da marcha era tão xenófobo que o presidente polonês teve que insistir que a marcha fosse “inclusiva e aberta a todos”. Um discurso que não condizia com a realidade.

Em outras ocasiões, especialmente em 2012 e 2013, a mobilização acabou com enfrentamentos contra os grupos antifascistas e com a polícia.

Aliança entre o governo nacionalista e os grupos de extrema direita

A oposição ao governo do partido nacionalista Lei e Justiça (PiS), tentou freiar a marcha desde a Câmara Municipal de Varsóvia. A prefeita Hanna Gronkiewicz- Waltz, quis proibir seu caráter radical, e tendo em conta a marcha do ano passado que se organizou sob o tema “Queremos um Deus”, e terminou em incidentes. Finalmente, a justiça (aliada com o partido do governo) passou por cima da decisão municipal e autorizou a mobilização.

O governo polonês convocou então a uma marcha unificada de todas as tendências ultranacionalistas e de extrema direita, dando legitimidade e legalidade a esses grupos.

Opositores do partido liberal disseram que era lamentável que o presidente polonês marche junto a grupos radicais com símbolos fascistas.

Por parte do responsável da organização antirrascista Nigdy Wiecej Rafal Pankowski, disse que o simples fato do governo e grupos de extrema direita puderam se sentar para negociar uma marcha conjunta é, por si só, muito preocupante e reflete um entendimento "perigoso".

O presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk, esteve presente nos atos organizados em Varsóvia, algo que poderia ser entendido como uma atitude eleitoral, já que o político liberal sairá como candidato de oposição à presidência da Polônia nas eleições de 2020.

A mobilização concentrou grupos de extrema direita da Polônia, Hungría, Itália e Eslováquia, sendo uns dos mais destacados os membros do Jobbik, o partido político xenófobo e ultradireitista da Hungría.

A marcha de domingo é uma amostra do círculo vicioso que começou com o ódio antieuropeu, infundido pelos governos nacionalistas com uma expressão das condições de opressão nas quais eles são tratados como o quintal europeu. Isto, por sua vez, é utilizado pela extrema direita para convertê-lo a um patriotismo xenófobo contra os imigrantes e refugiados que são usados como bodes expiatórios da situação social e econômica. Assim como na Alemanha e na França as próprias políticas de segurança e anti-imigrantes de seus governos, fortalecem as reivindicações da extrema direita em ambos países, Polônia aparece com um avanço, a Hugría junto do experimento de unidade entre governos nacionalistas e grupos de extrema direita.

O panorama econômico que anuncia o surgimento de novas “bolhas” no médio prazo pode reforçar essa aliança nefasta.

No entanto, a Polônia também foi nos últimos anos o cenário de uma grande mobilização de mulheres contra a tentativa do governo nacionalista e conservador de atacar seus direitos, começando com o direito ao aborto. Essa mobilização se expressou também na oposição política à uma série de reformas, como a judicial. Esse exercício que vem acontecendo com o movimento das mulheres, deve ser multiplicado por centenas para enfrentar esta aliança que, ainda que não seja hegemônica, polariza profundamente a sociedade com o veneno nacionalista.




Tópicos relacionados

Extrema-direita   /    Europa   /    Internacional

Comentários

Comentar