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SAÚDE E CIÊNCIA

Desmitificando os usos da maconha

A ilegalidade da maconha gera enormes dificuldade para o conhecimento científico acerca dos seus usos recreativos e medicinais. Mas a investigação científica começa a derrubar mitos.

segunda-feira 29 de agosto| Edição do dia

A maconha tem acompanhado a humanidade há milhares de nos, utilizada como parte da alimentação, da medicina, em rituais religiosos ou como droga recreativa. Sua ilegalidade em grande parte do mundo a partir do meio do século XX, assim como a estigmatização e perseguição aos consumidores, representou uma grande barreira no estudo de suas aplicações. Porém, pouco a pouco, aas evidências científicas se acumulam, colocando em cheque mitos e falsidades, e abrindo as portas para uma compreensão melhor sobre a planta “maldita” e suas possíveis aplicações.

Entendendo a maconha
Entender os motivos dos efeitos da maconha, seus possíveis usos e doses não é coisa fácil. Sua composição química é muito complexa, já que contém mais de 400 substratos químicos.

Entre eles, um total de 66 canabinóides (compostos com capacidade de interagir com os neurônios), sendo o delta-9-tetrahidrocannabinol (mais conhecido como THC) o psicoestimulante mais presente. A concentração de THC varia em função da origem da planta, do tipo de cultivo e de sua combinação genética, assim como a dos demais canabinóides, que possuem distintos efeitos.

A via mais comum de administração da maconha é por inalação via oral. Uma vez inalado, o fumo é absorvido de forma rápida, alcançando a circulação pulmonar, a sistêmica, e finalmente o sistema nervoso central, onde exerce seus principais efeitos. Sua lipossolubilidade (capacidade para se dissolver nas gorduras) permite que se distribua amplamente pelo organismo, se acumulando no tecido adiposo e no baço, de onde se desprende gradualmente.

Porém, a inalação não é a única via pela qual se pode utilizar a maconha. Além de vaporizadores, se tem investigado sua administração terapêutica pela via ocular, sublingual, dérmica, digestiva e retal.

Seu uso medicinal
O uso da cannabis como analgésico provavelmente seja o mais conhecido das aplicações terapêuticas. Mas são variados os usos e as formas em que se utilizam a cannabis como medicamento para muitas doenças, tanto crônicas como terminais, e cada vez se acumula mais evidencia sobre sua utilizada.

Inúmeros estudos publicados em importantes revistas científicas (Clinical Pharmacology & Therapeutics, British Journal of Pharmagology, British Journal of Cancer), alem de investigações laboratoriais (Universidad Complutense de Madrid, Instituto nacional de Salud de lós Estados Unidos) afiramm a eficácia da cannabis diante dos efeitos colaterais nos tratamentos de quimioterapia contra o câncer.

Os tratamentos utilizados para combater o câncer podem gerar efeitos colaterais severos, muitas vezes difíceis de controlar. Os medicamentos quimioterápicos podem ocasionar náuseas e vômitos devido à excessiva produção de serotonina das células localizadas no trato intestinal, que irrita a camada superficial do intestino e estimula o “centro do vômito”, provocando a náusea. A ação dos canabinóides bloqueia parcialmente a ação da serotonina, suprimindo o estimulo do vômito e das náuseas.

Além disso, o excesso de serotonina impede a produção de ghrelina (o “hormônio da fome”), que é produzido quando o estômago está vazio. Por isso, o estômago não emite sinais de apetite ao cérebro, levando o paciente a perder a fome. Os canabinóides podem substituir a ação da ghrelina, estimulando no cérebro a sensação da fome.

A ação analgésica dos canabinóides é útil não somente no tratamento do câncer, como também de outras enfermidades. Os estudos demonstram que os canabinóides podem reduzir a hiperalgesia (sensação de dor excessiva) nos tecidos profundos afetados pelo crescimento de um tumor, ao inibir os nociceptores ou “neurônios da dor”.

Por último, em experimentos com ratos se comprovou mecanismos de destruição de células tumorais pela ação dos canabinóides, que geravam um ambiente hostil para o desenvolvimento do câncer. No entanto, estas últimas investigações ainda aguardam confirmação de sua eficácia em humanos.

Além disso, inúmeros estudos tem avaliado seu uso no tratamento de muitas doenças, como o glaucoma (aumento patológico da pressão intraocular), a esclerose múltipla (doença autoimune que afeta o cérebro e a medula espinhal), Alzheimer, crises convulsivas e epilepsia, com resultados animadores. Ela poderia ser útil também no tratamento com dependentes de estimulantes, como cocaína, metanfetamina e tabaco.

A cannabis medicinal pode trazer um enorme leque de possibilidades terapêuticas. Em ultima instância, poderia servir para melhorar a qualidade da vida do paciente e ajudá-lo a enfrentar a doença e o próprio tratamento. Porém, enquanto seguir vigente o proibicionismo e a perseguição contra a maconha e seus consumidores, a possibilidade de que estes tratamentos estejam ao alcance de todos os que necessitem é ainda muito distante.




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