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Desarquivando a Ditadura: documentos comprovam ligação de organizações da direita em atentados para justificar o AI-5

terça-feira 2 de outubro| Edição do dia

Documentos que estavam há meio século guardado nos arquivos Superior Tribunal Militar jogam uma luz para saber o que aconteceu em 1968 no Brasil, período que foi implementado o Ato Institucional No 5. De acordo com os documentos, depoimentos, relatórios oficiais e um montanhas de papéis que somam 10 mil páginas, o AI5 fez parte de um plano para alongar a ditadura militar no Brasil com seguidos atentados a bomba executados até o ano seguinte por uma seita paramilitar e de extrema direita.

O objetivo era legitimar a repressão contra os trabalhadores e demais setores que estavam se levantando contra a ditadura militar e sofriam com perseguições, torturas e assassinatos. Os atentados eram usados como justificava para que a repressão endurecesse através do Ato Institucional Número 5, o chamado "golpe dentro do golpe", que derramou sangue de trabalhadores e estudantes por todo o país.

Isto só reforça que a ditadura militar existiu para acabar com qualquer mobilização dos trabalhadores e demais setores populares da época para poder fazer com que os grandes empresários e a casta militar pudessem enriquecer livremente. Vale lembrar que a versão falaciosa de que a ditadura militar só existiu por conta destes dos "terroristas da esquerda" que "espalhavam o terror na sociedade" existe até hoje.

Estes grupos de extrema direita que praticavam atos terroristas tinham relações espúrias com o governo militar e tiveram o papel fundamental de preparar o Ato Institucional número 5. Um dos principais lideres é Paulo Trajano da Silva, que se dizia amigo pessoal do ditador Costa e Silva, e, na linha de frente Aladino Félix, conhecido como Sabatos Dinoto, líder deste grupo, mentor e também autor de vários ataques.

O grupo era formado por 14 policiais da antiga Força Pública, todos adeptos fanáticos de Aladino Félix e executaram 17 atentados a bombas, a maioria das ações que aconteceram na época.

De acordo com as investigações dos documentos, estes paramilitares começaram furtando dinamites, no final de dezembro de 1967, armas no Quartel General da Força Pública, em janeiro de 1968 e executaram explosões de bombas entre 10 de abril até 19 de agosto, o último deles dois dias antes de o grupo ser desbaratado. O grupo tinha como alvos justamente os órgãos que centralizaram a repressão contra grupos de esquerda. Órgãos como o quartel que funcionava na rua Conselheiro Crispiniano, o prédio do Dops, instalado então no Largo General Osório, e o QG da Força Pública, na praça Júlio Prestes.

Cinicamente, o general Silvio Correia de Andrade, chefe da Policia Federal em São Paulo, chegou a afirmar na época, em entrevistas, que o governo não tinha dúvidas sobre quem estaria por trás dos atentados. ’’Sabemos onde partiu o golpe: foram homens da esquerda. Mas acabaremos por agarra - los’’. Depois, o general demonstrou-se ’’surpreso’’ quando o grupo de Adalino acabou se revelando por meio de uma investigação de rotina, á revelia dos órgãos de informação do governo federal.

Esta revelação só reafirma o que todo mundo já sabe faz tempo, o verdadeiro caráter da ditadura militar brasileira que segue aclamada até hoje por figuras arqui-reacionárias mais que nostalgistas das torturas como General Mourão, vice do ultradireitista Bolsonaro, também pelo General Vilas Boas e por Dias Tofoli, presidente do STF que nesta semana reveladora, defendeu os anos de chumbo como um "movimento político", não uma ditadura militar. Uma ditadura que para poder reprimir os setores de esquerda e trabalhadores que questionava o regime, era capaz de implementar os métodos mais corruptos e sujos para que isto acontecesse.

É preciso desarquivar a ditadura! Uma necessidade fundamental para os parentes das vítimas mas também uma questão de interesse nacional a respeito de um passado que insiste em não ser revelado. É preciso avançarmos no processo de desarquivar o regime militar através da abertura e publicações dos arquivos dos porões da ditadura para combater os setores reacionários que, sem escrúpulos, seguem reivindicando as atrocidades daquele período.




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