Cultura

CENSURA À ARTE

Deputado tucano quer censurar exposição e peça de teatro LGBT em BH

João Leite (PSDB), é deputado estadual de Minas Gerais e candidato derrotado à prefeitura de Belo Horizonte. Nessa semana, decidiu seguir a onda de ataques moralistas a exposições pelo país e impedir estreia de peça e suspender exposição na capital mineira.

quarta-feira 4 de outubro| Edição do dia

Pintura de Pedro Moraleida exposta na Grande Galeria Alberto Veiga Guignard, no Palácio das Artes (foto: Daniel Coury/divulgação)

O deputado estadual João Leite (PSDB), ameaçou acionar o Ministério Público para suspender a realização da exposição ’Faça você mesmo sua Capela Sistina’, parte do projeto "Arteminas - não quis o que estava no ar", em cartaz nas galerias do Palácio das Artes desde o último dia 1º de setembro, e impedir a estreia em BH, prevista para esta quinta-feira (5/10), da peça "O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu". O espetáculo é parte da Ocupação Transarte, em cartaz na Funarte, cujo objetivo é promover o encontro de artistas, ativistas e pesquisadores da cena cultural LGBT+, além de celebrar a diversidade de gênero.

João Leite se manifestou contra a exposição na última terça-feira (3/10), na Assembleia Legislativa, especialmente contra as obras do reconhecido artista mineiro Pedro Moraleida (1977-1999).

A Fundação Clóvis Salgado (FCS) informou que a exposição conta “160 obras entre pinturas, desenhos e objetos no ano em que a obra de Moraleida atinge sua maioridade e o artista completaria 40 anos”. Destaca que se trata de trabalho de nível internacional. "Além das exposições realizadas em Belo Horizonte – no então desativado Hospital São Tarcísio, hoje Centro de Arte Popular Cemig (2002), no Palácio das Artes (2002), no Museu da Pampulha (2003) e na Galeria Mama/Cadela (2015) –, suas obras foram expostas também em Lyon, Dubai, Berlim e no Canadá”, afirma a nota. De acordo com a FCS, os trabalhos selecionados pelo edital Arteminas são produções de vanguarda. “A frase do escritor Guimarães Rosa traduz o conceito que motivou a FCS a convidar os artistas, merecendo destaque o fato de, apesar da passagem do tempo, a obra de Pedro Moraleida continuar como uma das principais referências da arte de vanguarda mineira.”

Em sequência aos diversos escândalos de censura à exposições do QueerMuseu em Porto Alegre (com mãos do MBL e do Santander), inclusive no Rio por parte de Crivella, cujos autores seriam fuzilados po Bolsonaro, que depois se juntou ao estuprador Frota para criticar nú artístico, a direita mais moralista e reacionária abre as asas tucanas em Minas Gerais. João Leite solta as asas tucanas que encobrem projetos policialescos nas escolas, como o Escola sem Partido, elevando o autoritarismo moralista sobre manifestações artísticas com debates de gênero e sexualidade, chamando um debate fundamental (e a ser feito nas escolas), de "resto da esquerda".

Em discurso, postado em seus canais no Facebook e no YouTube, classificou a mostra como um “ataque ao Estatuto da Criança e do Adolescente”. Disse que o Brasil sofre com o que chamou de “resquícios da esquerda no poder”. Seus ataques moralistas a livre manifestação artística a acusa de ferir preceitos religiosos cristãos, do "livro sagrado", e que ele buscaria garantir às pessoas sua religião.

Saiba mais

A peça "O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", é escrita pela dramaturga transexual escocesa Jo Clifford e traduzida, montada e dirigida pela argentina radicada em São Paulo Natalia Mallo. É uma peça que produz uma releitura de Jesus nos dias atuais, incorporado por uma travesti. Ela é interpretada pela atriz Renata Carvalho, travesti e ativista pelos direitos da população transgênero. Clifford já apresentou a peça em BH, na edição 2016 do FIT (Festival Internacional de Teatro).

No mês passado, ela esteve em cartaz em Jundiaí, no interior de São Paulo, onde, devido à pressão de grupos religiosos, foi censurada pela Justiça. No entanto, a liminar que impedia a apresentação do espetáculo foi cassada na última terça-feira (3/10). Em Porto Alegre, também houve uma tentativa judicial de impedir a montagem, negada pela Justiça local.

A diretora Natalia Mallo argumenta que não há desrespeito à religião alguma, e defendeu a peça. “Esse julgamento sem conhecer a peça revela muito da transfobia e do preconceito presentes na sociedade. É um julgamento baseado no fato de termos uma travesti em cena, essa identidade travesti é tão estigmatizada, que, sem conhecer o trabalho, conclui-se que é uma difamação, uma ofensa, uma chacota, ou que é sexualizado. Mas o trabalho não tem nada disso, vem de um estudo profundo dos evangelhos na tentativa ficcional de resgatar uma essência do questionamento sobre nossa capacidade de dar a mão, de amar o próximo, de ser solidário, de olhar para o diferente com empatia e disposição para o diálogo”, afirma Natalia.

Fonte: Portal Uai




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