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ACORDO IRÃ, EUA, UE

EUA e UE dão passo chave para acordo nuclear com o Irã

O Irã e os Estados Unidos, depois de meses de conversações mediadas por outras cinco potências (Alemanha, França, Grã-Bretanha, China e Rússia) deram passo fundamental para um acordo histórico nesta quinta-feira, em Lausanne na Suíça. O acordo prevê o levantamento das sanções nucleares impostas pelos EUA e a União Europeia (UE) contra a República Islâmica.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

sexta-feira 3 de abril de 2015| Edição do dia

Sob os marcos deste acordo, o Irã reduziria em dois terços suas centrifugadoras que produzem urânio enriquecido, material que pode ser usado para fabricar uma bomba nuclear, desmantelaria um reator que serviria à produção de plutônio e aceitaria verificações internacionais em seu território. Este acordo limitaria o enriquecimento de urânio por dez anos no Irã, mas removeria as sanções e imprimiria uma recuperação econômica na república islâmica.

Segundo a responsável de política externa da UE, Federica Mogherini, o pacto, cujos detalhes técnicos e legais serão negociados até 30 de junho, prevê que a usina de enriquecimento de Natanz seja a única do Irã, enquanto a instalação subterrânea de Fordo será transformada em um centro científico civil.

Quanto à usina de Arak, o acordo estipula que uma sociedade internacional a remodelará para que não produza plutônio, outra substância com possíveis fins militares, enquanto o combustível usado ali será exportado a outro país.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se mostrou convencido de que, com este pacto, seus aliados e o mundo ficarão "mais seguros". Obama considerou que o pacto nuclear é "um bom acordo" que "cumpre com os objetivos fundamentais" para impedir que Teerã desenvolva uma bomba atômica. Estas declarações respondem à necessidade de acalmar o rechaço generalizado da Arábia Saudita e de Israel contra este acordo.

Uma declaração conjunta com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Javad Zarif, fala de um "exaustivo levantamento de todas as sanções" no futuro se o Irã cumprir com o pacto. Segundo o que foi apresentado por Mogherini, em inglês, e por Zarif, em farsi, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) poderá usar tecnologia moderna e terá mais acesso às usinas no Irã para esclarecer assuntos pendentes.

Uma mudança histórica com consequências regionais

Este acordo entre os Estados Unidos e o Irã representa uma mudança fundamental na política externa tradicional norte-americana no Oriente Médio. As relações diplomáticas com o Irã estavam suspensas desde a revolução iraniana de 1979, quando a impopularidade da monarquia pró-ocidental comandado pelo xá Mohammad Reza Pahlevi (que tentou afogar na repressão os levantes de massas contra a pobreza e a alta inflação fruto do disparo dos preços do petróleo na década de 70) foi substituída por uma república islâmica teocrática sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini. Entretanto, não se tratava de um movimento tão somente religioso contra o regime dos xás. A classe trabalhadora iraniana organizou uma greve geral na capital Teerã, chegando a construir as shoras (conselhos operários), que tiveram um papel decisivo na derrota de Pahlevi, apesar da direção reacionária dos aiatolás, que finalmente desviou o processo.

Com a oposição dos aiatolás à presença norte-americana no país e na região, os Estados Unidos reforçaram sua aliança com a Arábia Saudita, principal oponente regional do Irã, além de suas relações militares com o Estado de Israel, e acirrou as rivalidades entre as facções xiitas e sunitas do islamismo.

Desde então, os Estados Unidos aprovaram diferentes pacotes de sanções (além do bloqueio econômico com o país) cujo rigor endureceu nos últimos anos, com o argumento de enfrentar o programa nuclear iraniano. Estas medidas, somadas às resoluções da ONU e da União Europeia, além de Japão, Coréia do Sul, Canadá e Austrália, contribuíram para estrangular economicamente o governo iraniano, levando à penúria a população pobre e trabalhadora. Entretanto, não conseguiram o principal objetivo de Washington que era dissuadir o regime dos aiatolás de continuar seu plano de enriquecimento de urânio.

Com a vitória eleitoral de Hassan Rouhani sobre Mahmud Ahmadinajead, abriram-se maiores vias de negociação a partir do abandono da postura “anti-ocidental” de Rouhani. Os protestos populares da “primavera árabe” que desestabilizaram diversos pilares do controle geopolítico norte-americano sobre o norte da África e o Oriente Médio, e as grandes dificuldades em estabilizar os regimes de transição em países deteriorados economicamente e que se enfrentam com ameaças como o Estado Islâmico, obrigaram os EUA a aproveitar a oportunidade de restabelecer relações com o Irã.

Além disso, depois de uma década de derrotas militares no Iraque e no Afeganistão, a Casa Branca enxerga esta aliança com o governo iraniano como uma peça chave para se desvincular militarmente do Oriente Médio e seguir adiante com o plano estratégico de Obama, que é o “pivô” para a Ásia-Pacífico e a contenção da China. Mas as contradições não serão pequenas para a região.

Uma alteração geopolítica em meio a grandes conflitos no Oriente Médio

O sistema de alianças regionais dos EUA, tal como foi construído até hoje, está golpeado pelo fator fundamental de que o Irã volta a ser um candidato a principal força regional sobre a Arábia Saudita.

Esta ameaça a seu papel regional fez com que a monarquia saudita iniciasse um bombardeio sobre o território do Iêmen contra as posições dos rebeldes hutís, um grupo xiita ligado ao Irã, que expulsou da capital Saná o presidente pró-ocidental e aliado da Arábia Saudita Abdo Rabbu Mansour Hadi. Hadi representa a continuidade de seu antecessor Ali Abdullah Saleh, que governou uma ditadura de mais de 33 anos sob comando de Washington. Os hutís se apoderaram de toda a porção ocidental do território do Iêmen, buscando atingir a estratégica cidade portuária de Aden.

Apesar disso, os Estados Unidos declararam que “apoiarão os rebeldes hutís caso se enfrentem com o Estado Islâmico”, todo um símbolo da nova orientação política de Obama frente ao Irã.

Além disso, começa a se definir a batalha por Tikrit no Iraque, na qual 30 mil soldados (dentre os quais 20 mil são parte de milícias xiitas iranianas) estão próximos de expulsar o Estado Islâmico deste importante enclave, que abriria as portas para a recuperação da cidade de Mosul, segunda em importância no Iraque e com imensas reservas em petróleo. A derrota do Estado Islâmico nesta batalha seria um sério retrocesso em seus avanços e significaria um avanço do Irã em seu papel de potência regional e sua reabilitação aos olhos das potências ocidentais (e portanto um revés tanto para a Arábia Saudita e como para o primeiro-ministro israelense Netanyahu, razão pela qual a aliança com Rouhani foi duramente questionada pelos sauditas e pelo governo de Israel).

De qualquer modo, está claro que a opinião de Washington sobre o Irã, apesar da desconfiança, não tem nada a ver com a hostilidade iniciada na administração de Jimmy Carter, no final dos 70, até a administração Bush. Sem abandonar de nenhuma forma as alianças estratégicas com a reacionária monarquia saudita e ou o Estado terrorista de Israel, Obama pretende adicionar o regime iraniano em seu sistema de aliados. Além de reequilibrar o tabuleiro no Oriente Médio, disciplinando os rivais, a aproximação com o Irã detém o avanço da influência chinesa na Ásia central. Mas nada permite prever que esta nova configuração regional pode surgir sem grandes traumas vinculados às rivalidades entre os três países que a Casa Branca quer hoje harmonizar.




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