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Depois da eleição de Maduro a intervenção imperialista avança de mãos dadas com a direita

A ingerência imperialista e da direita continental sobre a Venezuela avança aceleradamente podendo levar a situação à níveis de tensão política inesperados depois da tomada de posse de Maduro, quando se fala inclusive de “governo paralelo”. A isso soma-se o fato do governo de Maduro segue submetendo o povo aos maiores padecimentos.

segunda-feira 14 de janeiro| Edição do dia

Fotografia EFE, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA.

As condições da catastrófica situação econômica em uma dinâmica de colapso que acrescenta cada dia as calamidades de todo um povo, somado ao bonapartismo reacionário e repressivo de Maduro de mãos dadas com as Forças Armadas, estão sendo aproveitadas abertamente pela direita local junto à intervenção do imperialismo e da direita continental. É que esta oposição busca tirar proveito desse descontento para impor no país um plano de maior submissão aos desígnios do capital financeiro e das potências imperialistas.

Nesta situação, a tensão política se agudiza abrindo cenários imprevistos. As recentes declarações dos Estados Unidos falando de reconhecer um “governo paralelo”, assim como toda a direita continental, indicam um salto na situação levando a uma nova escalada na crise. Não é uma crise como qualquer outra que se abre na Venezuela e, neste marco da situação, tem consequências trágicas.

É que o chamado do presidente da Assembleia Nacional nas mãos da oposição, Juan Guaidó do mesmo partido Vontade Popular, de Leopoldo López, pedindo “ajuda dos militares e da comunidade internacional” para assumir o mando do Executivo, teve um rápido eco nos Estados Unidos e na direita continental.

Ainda que, pese os inúmeros chamados, Guaidó ainda não disse abertamente que assume as competências da Presidência, sendo que o mesmo sustentou que o mero decreto do Parlamento “não será suficiente para arrebatar o poder de Maduro”, aludindo à necessidade de uma força real (ou seja, dos militares e/ou do imperialismo). Ainda que tenha declarado que tem “todas as peças do quebra-cabeça” para “desalojar” Maduro do poder, e que “temos o respaldo social e o acompanhamento internacional, agora só falta montar esse quebra-cabeça”.

Para a oposição, com uma baixíssima capacidade de mobilização que, de acordo com as pesquisas, uma porcentagem alta da população não acudiria aos chamados de mobilização se é convocada por eles, e na última assembleia popular de Caracas deste sábado, não superavam 500 pessoas, e também com divisões entre os distintos partidos em relação ao caminho a seguir.

A direita busca o fiel da balança nos militares com constantes chamados para que ponham “ordem” na situação, ou seja, o movimento dos sabres para tirar Maduro, e da mesma forma fazem isso recorrendo a um maior intervencionismo internacional de uma maneira cada vez mais descarada.

Neste domingo ocorreu que Juan Guaidó foi preso por um curto tempo pelo Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), mas foi rapidamente liberado, com o que seguramente desde o governo buscava marcar o terreno, demonstrando que “não podem fazer o que lhes der vontade, aqui existe um governo”, por seu chamado a desconhecer o mandato de Maduro e formar um novo governo, com chamados abertos às Forças Armadas, o que é interpretar como um caminho golpista. Ainda que o ministro de Comunicação Jorge Rodríguez tenha dito que os militares do Sebin atuaram por conta própria e que foram destituídos, não termina de fechar que tal movimento não tenha partido desde o alto escalão governamental.

Ainda que pelo hermetismo que reina nas Forças Armadas e o severo controle que exercem os altos oficiais, pouco se sabe da real situação nos quartéis, a não ser que as declarações de lealdade que o Estado Maior dos cinco componentes das FANB realizaram, incluindo atos com Maduro logo após ele ter assumido seu novo mandato. Tudo isto, mais além de algumas manifestações de militares de baixa categoria que teriam se rebelado roubando alguns fuzis, movimentos que poderiam ser sintomáticos, mas que não implicam, num primeiro momento, grandes fraturas no mundo militar.

Mas a oposição aposta que a pressão da intervenção internacional possa incidir nos militares, mais ainda se desde a principal potência imperialista avançam em reconhecer um governo paralelo auto-decretado por esta própria oposição, ainda que não tenha poder de fato, e sim simbólico, mas que abriria caminho a uma intervenção mais direta, pois os que interviriam, fariam apelando ao chamado de um “governo legítimo".

No sábado, 12, o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, em um comunicado declarou que “os Estudos Unidos não reconhece a tomada de posse ilegítima do ditador Nicolás Maduro”. Em sua nota, Bolton argumentou que a administração de Donald Trump apoia a Assembleia Nacional da Venezuela, “a única parte legítima do governo eleito pelo povo venezuelano”.

Acrescenta ainda que destacam a “valente decisão” do chefe da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que adiantou hoje que tentará, de novo, “desalojar o poder de Maduro”, declarando que “usurpa a Presidência”, e continuarão usando “todo o peso do poder econômico e diplomático dos Estados Unidos para pressionar pelo reestabelecimento de uma democracia venezuelana que reverta a atual crise constitucional”. Declarações que, além do cinismo e hipocrisia recargada, estão implicando em um salto na ingerência imperialista.

De sua parte, Robert Palladino, porta-voz do Departamento de Estado, declarava que

“É hora de começar a transição ordenada a um novo governo. Apoiamos a petição da Assembleia Nacional para que todos os venezuelanos trabalhem unidos, pacificamente, para restaurar um Governo constitucional e criar um melhor futuro”.

Mas para os yankees não lhes faltam cachorros, centralmente os agrupados na jaula do Grupo de Lima. O recém eleito no governo do Brasil, o direitista Jair Bolsonaro, e o conservador argentino, Mauricio Macri, encabeçam esta arremetida. O próprio Juan Guaidó declarou neste sábado que “Conversei com Macri e Bolsonaro. Na terça-feira discutimos uma Lei de Transição e vamos discutir o tema OEA (Organização dos Estados Americanos”, tal como tinha feito com Mike Pompeo.

O governo de Bolsonaro “saudou” Juan Guaidó por estar disposto a “assumir constitucionalmente” a presidência do país diante da “ilegitimidade” da “investidura de Nicolás Maduro”, em um claro caminho a reconhece-lo como governo paralelo. O filho de Bolsonaro, também deputado federal no Brasil, Eduardo Bolsonaro, declarou, em clara alusão intervencionista, que a Venezuela sozinha “não tem forças para se liberar de Maduro, esta situação é tão clara como dois mais dois é igual a quatro”.

Se trata do mesmo caminho traçado por Macri. O chanceler argentino Jorge Faurie declarou que “a Assembleia Legislativa é a única autoridade que a argentina e a maior parte da comunidade internacional reconhece como legítima na Venezuela”. Nesta quarta-feira, 16, Bolsonaro e Macri irão se reunir para seguir suas articulações em relação a Venezuela de mãos dadas com os Estados Unidos.

Em uma situação de debilidade, de não ser pelo´apoio das Forças Armadas, com o imparável colapso econômico, e o povo que já não suporta mais a angustiante situação que se acrescenta com os pacotes capitalistas, Maduro ofereceu neste sábado “diálogos com a oposição e com os países da região”. “A ONU tem que nos ajudar muito no diálogo nacional (...), espero que antes tarde do que nunca, tenham critérios favoráveis que nos conduzam ao diálogo e entendimento superior para o país”, declarou Maduro, explicando que fez esse pedido de ajuda ao secretário geral da ONU, Antonio Guterres.

Mas os chamados de Maduro, na atual situação, podem ir para o saco, a não ser pelo apoio mais direto que lhe dão potências de outras latitudes, como Rússia e China, mas que são países que movem suas peças em função de seus interesses econômicos e geopolíticos no tabuleiro internacional, onde a Venezuela para eles apenas pode ser uma peça no xadrez e dificilmente poderiam ir a uma escalada maior com Washington. Em tal situação, apenas um movimento de peso nas Forças Armadas poderia terminar de desequilibrar seu governo, facilitando o terreno ao golpismo e à intervenção maior.

Como viemos colocando, o governo recorre permanentemente a que os militares lhe declarem lealdade diariamente, e a insistência recorrente da oposição no chamado a que os militares desconheçam o governo de Maduro, mostra como ambos os bandos avalizam o papel de “árbitros” dos militares na definição dos destinos do país, e tentam usá-lo para seus respectivos objetivos. Ainda que a oposição de direita ponha na balança a descarada intervenção internacional a seu favor, sabe que não conta com capacidade de mobilização nas ruas como no passado.

Entretanto, o que a direita faz é um chamado aberto a uma rebelião militar ou golpe, com o respaldo intervencionista do governo imperialista dos Estados Unidos. Enquanto isso o governo de Maduro, esvaziado de apoio popular, assenta sua permanência no poder cada vez mais pela via da força e da fraude, sustentado na repressão e nas Forças Armadas que, como já dissemos, praticamente “co-governa” com Maduro. Assim, diante da falta de intervenção independente da classe trabalhadora, a situação se dirime entre essas duas variantes reacionárias.

A oposição de direita quer levar a despertar o movimento de massas com sua política pró-imperialista que os leve ao poder, sem ter nenhum escrúpulo se isso é pela via da força militar ou pela intervenção estrangeira. Isso é o que está por trás dos chamados que esta oposição de direita realiza para a constituição de um “governo paralelo” de mão dada com todo o direitismo continental e com o imperialismo, como já vimos, que inclusive já reconhecem a essa oposição.

Seu chamado a uma manifestação nas ruas no dia 23 de janeiro, considerando um “primeiro chamado à ação”, quando se comemora os 61 anos do fim da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, não têm outro objetivo que não este.

Os trabalhadores e o povo pobre têm que rechaçar todo tipo de intervenção imperialista, assim como rechaçar esta oposição de direita que busca impor um governo tão ou mais anti-operário e anti-popular do que o atual, de forma dócil aos desígnios de Washington.

Diante disso é necessário insistir que tanto o governo de Maduro, como a oposição de direita buscam colocar o povo em uma armadilha, ambas são opções reacionárias, nenhum pensa em função de nossas necessidades, se tornando urgente lutar por uma política de independência de classe dos trabalhadores. Por isso neste enfrentamento, não devemos dar trégua ao governo, não podemos cair na armadilha da oposição que, aproveitando-se da situação imperante, faz uso de maiores demagogias.

O governo com seu crescente autoritarismo e repressão, pugna por se manter no poder para continuar sua política de atacar as condições de vida dos trabalhadores e do povo pobre, entregar as riquezas minerais, naturais e até agora o petróleo ao capital transnacional, aprofundando o endividamento nacional com o capital financeiro, e preservando os grandes negócios de toda uma casta que fez da administração da renda e a corrupção um verdadeiro modus vivendi.

A direita aspira voltar ao poder de mãos dadas com os militares e com o imperialismo, para aplicar também seu plano de ajuste, que contempla também endividar mais o país com o capital estrangeiro e entregar nossas riquezas, de preferência ao FMI e às potências ocidentais (enquanto que o governo atual o faz com a China, Rússia e outros “aliados”), e um programa “liberal” que inclui liberação total de preços, mais facilidades aos patrões para demitir, uma onda de privatizações de empresas e terras, demissões em massa no setor público, e em geral mais poder para o empresariado na economia nacional, definhando o poder que hoje sustenta a casta governante ao calor do controle estatal em vários âmbitos da economia.

Tal programa, não poderá se impor sem recorrer também a mais dura repressão contra os trabalhadores e o povo. Por isso, a direita não quer um governo com amplas liberdades democráticas para o povo, como disse demagogicamente, e sim um “forte”, com estas mesmas Forças Armadas, para impor seu plano de “recuperação do país”.

Por isso, só a intervenção com força dos trabalhadores, com suas próprias demandas, de maneira totalmente independente de ambos os bandos reacionários, e opondo-se com firmeza a qualquer intervenção imperialista, pode dar um curso progressivo à situação.

Por isso, desde a Liga de Trabalhadores pelo Socialismo (LTS, organização irmã do MRT do Brasil), tal como fizemos em nossa recente declaração, seguimos enfatizando que “Com Maduro e com o regime atual não há saída, mas deve ser o povo trabalhador aquele que expulsará Maduro, com seus próprios métodos de luta, não que o descontento popular sirva de base de manobra para uma operação política da burguesia e do imperialismo. Por isso dizemos categoricamente que só o povo trabalhador deve ser o que tire Maduro de seu posto. Além disso, só um governo operário e do povo pobre, sustentado nas organizações de luta que ocorram nas massas, e aplicando uma saída operária de ruptura com o imperialismo e os capitalistas, pode dar uma resposta favorável para o povo diante da catástrofe imperante que continua afundando a população no pântano da miséria e das calamidades”.




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