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Denúncias anônimas dos rodoviários de Porto Alegre escancaram grave situação do transporte público

São inúmeras e revoltantes denúncias de rodoviários das empresas do transporte público de Porto Alegre. Publicamos anonimamente os relatos para impedir qualquer retaliação aos trabalhadores tendo em vista a crescente perseguição contra quem levanta a cabeça dentro da garagem.

sexta-feira 26 de abril| Edição do dia

Foto: André Ávila

Essas denúncias ocorrem em meio a inúmeros ataques do prefeito Marchezan (PSDB) aos rodoviários e ao transporte público como um todo. Não à toa, recentemente saiu uma pesquisa dizendo que Marchezan é reprovado por 86,5% da população portoalegrense, em grande medida devido aos ataques ao transporte público: frota antiga, aumento da tarifa, ameaça de extinção de cobradores, cortes de linhas, tentativas de privatização da Carris… Enquanto isso os empresários demitem, dão advertências e perseguem os rodoviários que heroicamente colocam esse transporte para funcionar todos os dias enquanto a patronal e o governo sucateiam o serviço, tudo em nome dos lucros milionários. Envie ao Esquerda Diário denúncias sobre a situação na garagem. Veja as denúncias abaixo:

São vários assuntos mas vou deixar uma frase… demitir trabalhador por justa causa (sem motivo para tal) é uma atitude desumana e medíocre, pois afeta a família do trabalhador, bem como sua honra

“Sou contra os ganchos [advertências e suspensões] e as justas causas que ocorre todos os meses muitas vezes por qualquer motivo contra os rodoviários”

“Frota sucateada (inclusive carros novos) devido à diminuição do quadro de manutenção. Tem ônibus com data de vencimento expirada [rodando há 12, 13 anos], compram ônibus ruins (pq são baratos) e sem ar condicionado. Ou seja não estão nem a para as leis (pq isso é lei) alguém ta fazendo vista grossa pra eles.

“Bom vamos começar: férias no verão só p o *nome do delegado sindical pelego ligado ao sindicato* e para o pessoal do Conselho e puxa sacos.

Tomei gancho [advertência] por andar à 61km duas vezes já… tacógrafos todo podre oscilando lá. Ônibus Volkswagem (novo), embreagem e palanca dura pra caramba , compraram porque são baratos (só pode). Não estão nem aí com os motoristas, eu já to com o joelho estourado, demissão por justa causa pra que o funcionário seja obrigado a negociar com o sindicato, que por sua vez fica de bonzinho, e assim deixando dinheiro pros patrões… sem falar dos abusos de autoridades (qualquer coisinha é gancho), médico do trabalho ñ pode mais dar atestado (só chefe que decide se tu ta doente), férias depois de quase dois anos pra tirar e quando te dão é em cima do laço, ñ da tempo de se programar”

“Aqui na Trevo (empresa na zona sul) a indústria da justa causa e do gancho continua funcionando, agora todo mundo tá sendo chamado para uma palestra dada pela psicóloga chamada "código de conduta" ,essa palestra nada mais é do que ameaça do início ao fim, ameaça de demissão e de justa causa, e no final tem que assinar que tá ciente de tudo que foi falado, certamente vão usar essa assinatura contra nós mesmos."

“Tem muitas coisas que não concordo. Mas no momento o que pra mim é uma falta de consideração com todos nós, é quando precisamos falar sobre escala, férias entre outros assuntos, temos que deixar bilhete, Eu nunca tinha visto um subordinado não ter acesso ao chefe, Eu sou do tempo que uma pessoa fala olhando no olho da outra pessoa. Pra saber na hora se será possível ou não, pra poder se programar, porque todos nós temos uma vida fora da empresa e temos família e todos temos nossos compromissos pessoais.”

Os relatos colocados nessa denúncia são apenas parte do desabafo de centenas de trabalhadores da garagem Tinga/Trevo, uma das maiores da cidade, e que certamente refletem a situação da categoria como um todo. Após a heróica greve dos rodoviários, muitos retrocessos foram se acumulando. A reforma trabalhista permitiu que as empresas passassem a abusar das punições e demissões autoritárias, já que judicialmente ficou mais fácil e os trabalhadores pensam duas vezes antes de acionar a justiça por medo de perder a causa.

Adailson Rodrigues, que foi liderança na Trevo, afirma sobre a situação:
"A chegada de Marchezan ao governo municipal piorou ainda mais a vida dos trabalhadores e da população, pois ao mesmo tempo que garantiu aumento da tarifa, isenções fiscais aos empresários, ainda deu carta branca para as empresas reduzirem linhas e tabelas horárias inteiras, o que acarreta mais demissões e punições arbitrárias. O governo de Marchezan, numa clara defesa dos interesses dos empresários do transporte, quer ainda o fim dos cobradores, com um projeto que já está tramitando na Câmara e deixará 4 mil trabalhadores sem emprego, em nome do lucro das empresas de ônibus da cidade.

Esse é o ponto chave. Enquanto o transporte coletivo for tratado como um mecanismo de manutenção de lucro, poder e influência dos empresários, os rodoviários e população que dependem do transporte público, ficarão sempre em segundo plano e amargarão mais sucateamento e perseguições. É preciso organizar e lutar pela estatização do transporte, contra a privatização da Carris e colocar o sistema sob controle da própria categoria, junto dos moradores da cidade, expulsando a patronal parasitária pra bem longe. A situação dos trabalhadores rodoviários é parte de um plano de ataques a nível nacional que Bolsonaro quer impor a toda classe trabalhadora, com o apoio de Eduardo Leite no RS, cuja principal medida é a reforma da previdência para obrigar todos a trabalharem até morrer. A luta contra Marchezan e os empresários do transporte precisa ser parte dessa grande batalha da classe trabalhadora brasileira."




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