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CORONAVÍRUS

Denúncia: condições desumanas das trabalhadoras da empresa Liderança

Abaixo reproduzimos denúncia anônima de uma funcionária demitida da empresa Liderança, que trabalhava nas cabines de recarga do bilhete único do metrô de São Paulo.

segunda-feira 23 de março| Edição do dia

"Em 6 horas eu arrecadava o salário bruto do meu ano inteiro como terceirizada do Metrô, e mesmo assim já cheguei a receber menos de 600 reais de salário com os descontos abusivos da empresa. Enquanto eu acordava às 4 horas da manhã, os patrões dormiam tranquilos faturando milhões em contratos fraudulentos, desrespeitando dezenas de normas básicas trabalhistas e de segurança do trabalho em nome do lucro, com o aval e a vista grossa do Metrô. Em meio a crise do coronavírus, a situação fica ainda pior.

Não deixo de imaginar quem está trabalhando, como eu trabalhei, na cabine de recarga de bilhete único em Tietê, que mais parece um forno (já que o ar condicionado está quebrado há meses e o calor fica retido) e que termina um dia de trabalho com a camisa encharcada de suor como eu terminei. Como não tocar no dinheiro e limpar a testa do suor que escorre nos olhos de tanto calor?

No dia a dia do serviço, em qualquer momento decidido pela empresa dentro dessas seis horas de serviço trancafiados numa cabine sem água, sem banheiro e sem absolutamente nenhum recurso para higienizar as mãos, em 15 minutos deveríamos comer, ir ao banheiro, beber água e retornar para o serviço. Se a “rendição” tivesse qualquer problema no trajeto, ficávamos sem esses míseros 15 minutos. Como higienizar as mãos após movimentar grandes quantias de dinheiro sem equipamento nenhum e sem poder sair da cabine?

Os episódios de humilhação eram constantes. A chefia aparecia “de surpresa” nas cabines para acusar os trabalhadores de roubo sem nenhuma prova. Falavam “Se eu quiser acabar com você agora, eu acabo. Te levo pra delegacia. Deixo você sem um tostão.” Pior ainda com os afastamentos por licença maternidade. Presenciei um chefe falando de uma funcionária bissexual grávida ”Aquilo lá nem mulher é. É mais macho que eu. Não sei nem como uma mulher macho daquelas fica grávida. Nem útero deve ter.” Imagine a humilhação que iria passar se um trabalhador em grupo de risco pedisse afastamento ou entregasse atestado."

Trabalhadores com 3 empregos, que estudam e trabalham, que deixam seus filhos com os avós ou vizinhos para sustentar patrões que nada fazem em troca de meio salário mínimo estão na linha de frente e serão os mais prejudicados com o coronavírus. Trabalhadores de Francisco Morato, Mogi das Cruzes, Guaianases, que passam 2 ou 3 horas no transporte público para adentrar as bilheterias com a mesma roupa possivelmente infectada, com os pertences pessoais possivelmente infectados, que ficam trancados com o(s) colega(s) de cabine por horas são os que sofrem com os efeitos do coronavírus.

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Pior ainda os trabalhadores “volantes”. Quando sobram funcionários sem ocupação, a Liderança os coloca à disposição como volantes, que ficam largados na estação da Sé esperando uma convocação para cobrir faltas ou dispensas dos funcionários que trabalham normalmente nos postos. Os volantes são orientados a sentar somente nas caixas que ficam na frente da exposição “Estação Memória” do Metrô. Se não achar lugar pra sentar tem que ficar em pé por 5 horas seguidas, sem descanso porque a empresa não quer nem que sentem no chão. Não podem mexer no celular, escutar música, jogar, colocar blusa de frio que não seja do uniforme, ou comer. O banheiro e a copa dos funcionários efetivos do Metrô é proibido de se usar. As funcionárias da Guima, empresa terceirizada da limpeza, já advertiram que também não podemos utilizar a copa delas. Não temos nenhum local apropriado para realizar as refeições e só nos resta o banheiro público da estação, que muitas vezes está fechado, quebrado ou sem água e quase sempre sem sabonete. Como ficamos largados na estação, corremos risco de assédio, sempre somos abordadas por pedintes e pessoas alcoolizadas que muitas vezes são agressivos. Numa manhã de domingo, por exemplo, um morador de rua sob efeito de drogas, começou a socar o lugar que eu estava a 10 centímetros do meu rosto porque tinha brigado com um funcionário da segurança. Expostos a todos esses riscos, como os terceirizados farão a correta higienização do corpo e evitarão o contágio pelo coronavírus?

É impossível trabalhar com segurança enquanto o lucro dos empresários for prioridade. Enquanto isso acontecer, a vida dos trabalhadores será vendida para enriquecer quem nada faz pela sociedade. É essencial haver solidariedade entre efetivos e terceirizados nos locais de trabalho, pois os inimigos são os patrões, a precarização e o descaso implementados pelos capitalistas. Terceirizados e efetivos estão no mesmo barco, sujeitos a contaminação pela irresponsabilidade dos patrões.

Pelo afastamento imediato das pessoas em grupos de risco sem desconto nos salários, pelo cumprimento do direito de afastamento dos trabalhadores com atestado sem desconto nos salários, pela testagem em massa da população, higienização adequada dos locais de trabalho e disponibilização de equipamentos para higiene pessoal dos trabalhadores e contra a precarização dos empregos.”




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