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Demissões no Metrô de SP: O macartismo e a privatização de Alckmin

Por trás de qualquer ação existe uma ideologia. A maneira a qual o governo quer que a população interprete isso é “mas é claro que esses vagabundos devem ser demitidos, já são privilegiados por serem funcionários públicos e ainda fazendo greve? Por muito menos eu sou demitido!”. Essa blindagem ideológica Alckmin conquista nos principais meios de comunicação. Semelhante do seu apadrinhado político Dória na cidade de São Paulo. Eles querem vender São Paulo. O que as linhas desse artigo oferecem é um contraponto a essa falsa ideia.

Felipe Guarnieri

Operador de trem da L1 azul do Metro de SP

quarta-feira 16 de agosto| Edição do dia

Macartismo é um termo que tem origem na política repressiva dos Estados Unidos na década de 1950, com o Senador Republicano do Winsconsin Joseph McCarthy, contra o que se considerava a ameaça comunista. Trabalhadores, artistas e sindicalistas eram demitidos, investigados e até presos sem nenhum tipo de evidência fundamentada, simplesmente sob a suspeita de subversão, ou seja, qualquer questionamento sobre alguma injustiça se transformava em risco a segurança do Estado e suas instituições.

Da Guerra Fria para os tempos atuais muitas coisas mudaram, mas a “essência macartista” permanece na alma dos governos e patrões para combater a inevitável luta entre as classes da minoria que explora, e da maioria explorada. O trabalhador conhece a Ditadura cotidiana do “chão de fábrica”, mais ainda se for uma empresa privada e não pública, onde até uma simples reclamação das condições de trabalho ao seu chefe pode representar uma futura demissão. O que os poderosos querem é que o peão trabalhe e não reclame, não reivindique e não lute. Essa é a base da reforma trabalhista e da previdência de Temer para contentar os empresários, assim como o objetivo de Alckmin em privatizar o Metrô de SP.

Na última sexta feira (11/08) três trabalhadores foram demitidos do Metrô. Uma operadora de trem, com vários problemas de saúde, ocasionados parte deles por acidente de trabalho, foi demitida por “baixa produtividade”, o mesmo motivo que outros funcionários esse ano também foram demitidos da empresa. E os outros dois, metroviários que estavam em treinamento na Estação Sé, foram desligados sem motivo algum, a não ser por uma retaliação política, admitida pela chefia do Metrô, pelo fato de terem retirado o uniforme da empresa como todos os outros metroviários fizeram recentemente nas áreas de trabalho do Metro contra os ataques decorrentes da terceirização das bilheterias e da privatização de Alckmin. Essas demissões se somam as 40 da greve da categoria em 2014, onde 37 metroviários permanecem sem poder retornar ao seu local de trabalho, mesmo com a vitória em 2 instâncias na Justiça, o que mostra a interferência do Governador Tucano em impedir que sejam reintegrados.

Por trás de qualquer ação existe uma ideologia. A maneira a qual o governo quer que a população interprete isso é “mas é claro que esses vagabundos devem ser demitidos, já são privilegiados por serem funcionários públicos e ainda fazendo greve? Por muito menos eu sou demitido!”. Essa blindagem ideológica Alckmin conquista nos principais meios de comunicação. Semelhante do seu apadrinhado político Dória na cidade de São Paulo. Eles querem vender São Paulo. O que as linhas desse artigo oferecem é um contraponto a essa falsa ideia.

Imaginem, por exemplo, se o conceito de “baixa produtividade” fosse aplicado para os patrões no seu local de trabalho. Com certeza, não sobraria um para contar história, e consequentemente não teria ninguém para explorar o trabalho alheio. Agora vamos além, imaginem se nas fábricas, nas empresas privadas e em outras áreas os trabalhadores gozassem de fato de plenos direitos políticos e sindicais. Quantas denúncias de péssimas condições de trabalho não seriam feitas? Quantas greves não surgiriam dia a dia? Quantas injustiças não seriam corrigidas? Quanto não se revelaria que o patrão, ao contrário do trabalhador, não é necessário para se produzir? Os metroviários de SP na sua história carregam uma tradição de luta, e uma posição estratégica que possibilitaram uma série de conquistas, que em outros locais a ditadura patronal não permitiu. São esses direitos que Alckmin quer atacar, por isso a Direção do Metrô indicada pelo governador busca uma nova política de retaliações para tentar disciplinar a categoria a não resistir.

O que está por trás disso? Retirar os possíveis obstáculos para a privatização do Metrô. Um negócio bilionário para o governo e os grandes consórcios que controlam o transporte. Pelas investigações, arquivadas pelo Governo, só o conhecido “trensalão tucano” movimentou um rombo mais de 1 bilhão de reais desviados em corrupção para favorecer o pagamento de propina e o financiamento de campanhas eleitorais do PSDB no Estado de São Paulo. Paralelamente, as obras de expansão permanecem atrasadas em décadas, ironicamente ou não por “falta de financiamento”. E a população segue sofrendo cotidianamente com as péssimas condições de transporte, gastando entre 2 e 3 hs em média para ir e voltar do trabalho, com passagens caras e com a falta de funcionários nas estações.

Ao contrário ser a solução para o sistema de transportes, a privatização é o principal problema. Além de acabar com o direito dos trabalhadores, promovendo demissões em massa e colocando um futuro incerto para milhares de famílias, também ataca o direito de transporte público e de qualidade para a população. Um exemplo disso, é só parar e analisar o Metrô no Rio de Janeiro, administrado pelo consórcio MetroRio, com milhares de demissões realizadas nos últimos anos acompanhado simultaneamente pelo encarecimento do custo da passagem e um transporte cada vez mais precário aos usuários. A linha 4 privatizada em São Paulo, também não foge a regra, com um regime de concessão onde nas próximas décadas o consórcio ViaQuatro não terá nenhum custo com reparos e manutenção, mas ao mesmo tempo recebe o lucro liquido da arrecadação das passagens.

As ações anti sindicais de perseguir, retaliar e demitir funcionários do Metrô por trás esconde um grande medo que os poderosos possuem em não conseguir realizar seus planos e interesses. Eles sabem que os metroviários, junto com a população trabalhadora, possuem uma força social capaz de colocar em cheque quem controla os transportes, se é o governo junto com os empresários, ou os trabalhadores e usuários do sistema que são os responsáveis de fato pelo funcionamento cotidiano do sistema, apesar de toda a política de precarização e sucateamento dos atuais gestores. Cabe as centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais, cercar de solidariedade a campanha iniciada pelos metroviários de São Paulo pela readmissão dos trabalhadores, que hoje significa resistir a política de privatizações levada a frente por Alckmin e Dória.




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