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CORONAVÍRUS | DEMISSÕES

Demissões congeladas: fazer os capitalistas pagarem

À medida que a epidemia do coronavírus se prolonga, os trabalhadores enfrentam um colapso econômico, não antes visto desde a Grande Depressão. A organização para lutar pela proibição imediata de todas as demissões deve ser uma parte essencial de qualquer programa para proteger a classe trabalhadora e fazer com que os capitalistas paguem por sua crise.

sexta-feira 27 de março| Edição do dia

Os trabalhadores estão enfrentando o que poderia ser a maior crise de desemprego desde a Grande Depressão. À medida que estados e cidades por todo o país continuam a fechar escolas, bibliotecas, restaurantes, bares e outros serviços não essenciais, a fim de impedir a disseminação do coronavírus, centenas de milhares de trabalhadores já perderam seus empregos e outros milhões perderão em breve.

Embora os trabalhadores de restaurantes, teatros, hotéis e hospitalidade tenham sido os primeiros a ver demissões em massa, grandes perdas nas indústrias de viagem, varejo e perfuração e extração de petróleo também são esperadas, à medida que mais pessoas ficam em quarentena.

Na semana passada, a Oxford Economics divulgou um estudo que projetava 4,6 milhões de empregos perdidos apenas como resultado do declínio de viagens nos próximos meses. Enquanto isso, uma pesquisa recente encomendada pela PBS em 14 de março mostra que 18% dos trabalhadores já perderam o emprego ou tiveram suas horas reduzidas desde o início do surto de Coronavírus. Essas demissões serão devastadoras para a economia dos EUA, mas são apenas a ponta do iceberg. A empresa de serviços financeiros Moody’s estimou que mais da metade de todos os empregos nos EUA estão em risco e 27 milhões estão em alto risco. Essas perdas de emprego significariam uma pobreza extrema para grandes setores da classe trabalhadora.

Infelizmente, apesar dos pedidos de progressistas como Sanders e AOC, o governo dos EUA ainda fez pouco para enfrentar o problema de demissões e desemprego e até propostas limitadas, como licença médica universal paga e pagamentos emergenciais em dinheiro, foram recebidas com obstrução por republicanos e democratas. Embora essas medidas governamentais sejam importantes e necessárias, claramente não são suficientes. Enfrentar essa crise, em última instância, significa confrontar o capitalismo e isso significa resistir diretamente a essas demissões, já que são sempre a primeira arma usada contra os trabalhadores em momentos de crise econômica. As grandes empresas e corporações que se beneficiaram de anos de crescimento econômico (para não mencionar a enorme mais-valia) devem aos funcionários e suas famílias uma dívida enorme e é hora de pagar.

Qualquer empresa que não possa ou não vá atender a essas demandas deve ser nacionalizada sob controle dos trabalhadores ou expropriada diretamente pelos próprios trabalhadores. Na medida do possível, o capital dessas empresas também deve ser imediatamente colocado a serviço da solução da atual crise econômica, da saúde e do suprimento de todas as necessidades da classe trabalhadora. Por outro lado, sentar-se e permitir que as empresas demitam os trabalhadores, esperando que a crise possa ser resolvida com uma expansão da rede de segurança existente ou pagamentos diretos em dinheiro, seria um grande erro: apenas enfraqueceria o poder da classe trabalhadora e, por fim, fortaleceria o poder do capital.

Capitalismo e crise

As perdas econômicas associadas ao coronavírus serão, sem dúvida, ruins para o capital no curto prazo. Desde fevereiro, quando as notícias do surto começaram a alarmar os já cautelosos investidores, todos os principais índices de ações sofreram perdas dramáticas. A NASDAQ despencou quase 3.000 pontos, frente a uma alta de 9.800 no final de fevereiro, o S&P 500 perdeu quase 30% de seu valor e o Dow perdeu todos os ganhos obtidos durante a presidência de Trump e continua a cair. Embora isso certamente signifique perdas de curto prazo para investidores ricos, esses acidentes – sinais de um iminente colapso econômico – fazem parte do processo maior do qual Leon Trotsky chamou de “equilíbrio capitalista” e são um dos principais mecanismos que o capitalismo administra para manter seu poder e se reproduzir novamente. Como Trotsky explicou: o capitalismo “possui um equilíbrio dinâmico, posto que está sempre em processo de rompimento ou restauração”, e é esse equilíbrio dinâmico – não uma maior capacidade de produção ou distribuição das mercadorias necessárias – que permitiu ao capitalismo manter-se por tanto tempo.

Quando os tempos são bons, o capital pode extrair enormes lucros do trabalho com pouco risco. Por exemplo, após a última crise econômica, o S&P 500 (graças, em grande parte, aos resgates do governo) não apenas conseguiu recuperar todas as suas perdas até 2013, como quase dobrou seu valor nos sete anos seguintes – uma velocidade média de crescimento igual a cerca de 14% ao ano. Em oposição, os salários médios por hora dos trabalhadores, que aumentaram menos de três por cento ao ano durante a maior parte do mesmo período, se recuperaram muito mais lentamente e muitos trabalhadores viram de fato seus salários caírem ou permanecerem baixos quando ajustados pela inflação.

Quando os tempos são ruins, contudo, em momentos de crise, quando os lucros são baixos, quando há pouca ou nenhuma demanda – como estamos vendo hoje em muitos setores da indústria –, as corporações e empresas podem proteger a si mesmas e seu valor de mercado, simplesmente deixando trabalhadores irem embora. Os trabalhadores, por outro lado, geralmente precisam continuar pagando por comida, aluguel, assistência médica e serviços básicos para sobreviver. Como consequência, embora o capital frequentemente suporte a tempestade de tais crises econômicas, o poder da classe trabalhadora é severamente enfraquecido, criando o que Marx chamou de um vasto exército de mão-de-obra reserva. E como as compensações do seguro-desemprego raramente estão disponíveis para todos e sempre apenas por um curto período de tempo, os trabalhadores – se demitidos ou ameaçados apenas com a perspectiva de demissões – serão definitivamente pressionados a trabalhar muito mais por menos salários. E é exatamente por isso que o futuro do poder do trabalhador depende de como reagimos a essa crise agora.

Sem mais demissões

Enquanto os capitalistas e seus políticos pagos zombam dessas demandas, alegando que são economicamente inviáveis ou impossíveis, isso ocorre porque eles só entendem a linguagem do lucro e não conseguem imaginar um mundo funcionando para o benefício de todos. Entretanto, permanece o fato de que o capital possui recursos significativos que podem e devem ser disponibilizados a todas as pessoas que trabalham. A maioria das grandes corporações como Amazon, Walmart, Disney, Delta, GM etc. têm reservas e crédito mais do que suficiente para continuar pagando seus funcionários o valor total de seus salários pelo período da crise de saúde. Portanto, no caso de empresas privadas, os trabalhadores devem exigir que o governo federal sujeite qualquer ajuda futura ao mercado a uma proibição de todas as demissões, com salários completos e benefícios contínuos para todos os empregados, estejam eles trabalhando ou não. Os Estados devem, do mesmo modo, tornar todas as licenças de operação para empresas e corporações privadas condicionadas à mesma demanda. As indústrias que se recusarem, principalmente as indústrias de saúde, transporte e manufatura, devem ser imediatamente sujeitas à nacionalização sob controle dos trabalhadores.

Embora as grandes corporações e indústrias já tenham os recursos necessários para proteger seus funcionários, é verdade que muitas pequenas empresas não. Portanto, as reivindicações para encerramento das demissões também devem incluir demandas por uma moratória em todos os aluguéis residenciais e comerciais, falências, contas de serviços públicos e pagamentos de dívidas. Essas ações permitiriam que até pequenas empresas pagassem a seus empregados suas remunerações totais pela duração da crise da saúde.

É claro que, em última análise, os trabalhadores não podem confiar no governo federal ou nos governos estaduais (cujo objetivo é manter a hegemonia dos mercados e o domínio do capital) para consertar essa crise de maneira equitativa. Somente a classe trabalhadora tem o poder de fazer isso acontecer através de greves em massa e ações de trabalho. A fim de agir rapidamente em caso de demissões, bloqueios ou paralisações, os trabalhadores devem, em última instância, se organizar em seus locais de trabalho e nas ruas, estando ou não em um sindicato, e estar preparados para usar seu poder coletivo para exigir que todos os recursos necessários sejam empregados para o bem-estar de toda a classe, com remuneração e benefícios completos, que remuneração integral seja fornecida a todos os trabalhadores ao retornar para o trabalho e que todos tenham acesso a empregos bem remunerados.




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