Cultura

Deixa eu te contar, o Gilmar morreu

Mais uma crônica da vida real

Leticia Parks

São Paulo

quinta-feira 14 de dezembro de 2017| Edição do dia

Filha, fiquei sabendo de uma coisa, queria contar pra você.
Não faz drama mãe, conta logo, vc sabe que eu fico nervosa.
A Neide me contou que o Gilmar foi assassinado.

Uma bomba direto no cérebro. A notícia de que ele sequestrava coreanos. O boato de que ele roubou gente no prédio. Os anos sem se ver. A falta de notícia por completo. A lembrança do meu jogo que ficou com ele e a minha dor infantil de ter perdido o jogo. A dor de lembrar que pensei mais no jogo naquele dia do que nele, que não tinha jogo em casa.

Mas foi pela polícia?
Não sei... Dizem que apareceu morto, ali perto do Glicério.

Morto? Caralho... Uma bomba no peito. Na COHAB chamavam ele de criminoso. Eu lembro dele menino. Meio estranho, calado. Lembro do dia que entrei na casa dele pela primeira vez, no 4º andar. Não tinha sofá nem TV. Sentamos no chão, cadeira dava essa sensação de que a gente era velho, mas a gente era criança e criança senta no chão. Foi o dia que eu emprestei meu jogo pra ele. Jogamos juntos, ele não falou muito. Achamos uns fósforos e brincamos de acender. A Marília tinha medo mas depois foi quem mais acendeu. A luz era pouca, então cada um que acendia rolava um mistério junto, o rosto da Marília ficava cheio de luz. O apartamento ficou com cheiro de fósforo queimado. Passou o cheiro e eu percebi que tinha outro cheiro por lá. Cheiro de vazio.

A Neide soube disso por quem, mãe?
Parece que por alguém aí que ela faz faxina.
E alguém sabe da mãe dele? Nossa... ela deve tá arrasada.

A mãe. Uma bomba de lágrimas. Auxiliar de enfermagem, igual a minha mãe. Dois empregos, igual a minha mãe. Sem marido, igual várias mães. Ela chorava muito, disso eu lembro. Via ela pouco, mas sempre tinha uma cara meio triste. Sumiu mesmo quando o Gilmar foi preso. Ela ainda morava lá, mas ninguém nunca via ela.

Deve mesmo, filha... Perder um filho assim deve ser uma merda.
Nossa mãe... nem fala... E o irmão dele, lembra? O Guinha?

O Guinha. Uma bomba nem sei de quê. Eu lembro do Guinha. Lembro dele todos os dias. Lembro dele quando sinto medo, porque eu aprendi medo com ele. Ele morria de medo. Lembro de subir a escada com ele até o 4º andar porque precisava ajudar ele a se limpar. Cocô na calça. Eu tinha 8, ele tinha 5. Lembro de subir elevador e pedir pro moço que tava esperando não entrar. O Guinha tava muito fedido, eu sorria mas estava triste. Cocô na calça. Eu tinha 10 ele tinha 7.

Não sei do Guinha não, mas notícia ruim chega rápido né filha... Ele deve tá bem.

Chaves na porta.

Oi pai.
Oi filha.
Que foi?
Soube do Gilmar?
Triste, né?
Muito triste.

Vejo meu pai e choro. Minha mãe entende, mas ele entende melhor. Sabe o que é ser marcado pela cor. Trocamos esse olhar, de quem se sabe negro.

Quantos anos ele tinha?
A minha idade. 27.

Que angústia. Podia ser eu. Podia ser meu pai. Podia ser meu irmão. Meu primo. Meu tio, qualquer um deles. Mas foi o Gilmar.

Vocês brincavam juntos?

Silêncio. Lágrima. Engulo o choro.

Um pouco.




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