Sociedade

FUTEBOL E RESISTÊNCIA

Defensor: 40 anos do título que simboliza resistência à ditadura no Uruguai

quarta-feira 27 de julho| Edição do dia

Hoje, 25 de julho, completam-se 40 anos da conquista histórica do campeonato uruguaio de 1976 pelo Defensor S.C. (na época, Club Atlético Defensor). Não foi apenas um título de um clube considerado pequeno até aquele momento, diante dos consagrados e privilegiados Nacional e Peñarol (que haviam monopolizado as conquistas desde 1932, ano da efetivação do profissionalismo em terras uruguaias). A estreita relação entre futebol e política entra em campo nessa façanha protagonizada pelo Defensor. O caminho percorrido pelo clube até a consagração mostra como o futebol pode representar / simbolizar formas de resistência aos regimes políticos autoritários, demarcando no território uma corajosa oposição a ditadura civil-militar instalada no Uruguai em 1973.

A origem do clube está diretamente ligada ao movimento operário do início do século XX e ao bairro de Punta Carretas (Montevidéu). Um dos poucos empreendimentos industriais daquela área era a fábrica de vidros. A extensa jornada de trabalho, acompanhada do calor dos fornos, não impediu o surgimento da amizade entre os trabalhadores. Sem dúvida, a principal diversão daqueles operários era o futebol. Os campos ao redor da fábrica era um convite à prática do esporte. Sobre a origem do nome do clube, fundado em 1913, é muito interessante a versão explicada pela tradição oral. O nome pode ter surgido em referência a um conflito (greve) que os operários da fábrica mantiveram um pouco antes da fundação do clube. Inicialmente decidiram que a equipe iria se chamar “Defensores de la Huelga” (Defensores da Greve) e, meses depois, reduziram para Defensor. Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, o clube consegue ter um time competitivo, conquista alguns torneios, termina vários campeonatos nacionais em uma boa colocação, mas um título contra as forças hegemônicas parecia algo muito distante.

A Ditadura Uruguaia

Dia 27 de junho de 1973 é o marco inicial da ditadura civil-militar no Uruguai (1973-1985). Com a tradicional justificativa, utilizada em todas as nações latino-americanas que passaram pela experiência traumática de golpes militares, de que se fazia necessária uma intervenção militar para barrar o avanço do comunismo (da esquerda de um modo geral) e prometendo resolver a crise econômica que crescia desde a década de 1960, o até então presidente da república Juan María Bordaberry, do Partido Colorado (Conservador), declara em cadeia nacional (rádio e tv) o fechamento do Senado e da Câmara dos Deputados, criando um Conselho de Estado, com forte presença das Forças Armadas, para substituir as funções legislativas. A perseguição aos partidos políticos de esquerda, principalmente o Partido Comunista, se transforma em proibição (destituição) de todos os partidos políticos, ato sacramentado pelo regime em 1976. Sindicatos, federações, movimentos sociais, artistas questionadores da ordem, todos serão perseguidos e criminalizados (considerados inimigos internos). A proibição de manifestações populares, a censura e a repressão cotidiana não causou surpresa naqueles que já acompanhavam os rumos da política internacional ainda sobre o impacto da guerra fria e do imperialismo. Depois do golpe, houve uma escalada brutal do terrorismo de Estado, utilizando meios consagrados dos regimes ditatoriais (tortura, sequestros, desaparecimentos, assassinatos, repressão aos estudantes e trabalhadores).

A Resistência do Defensor

No caso específico do futebol, a ditadura vai perseguir e intimidar atletas e pessoas ligadas ao esporte que tem algum vínculo com a oposição ao governo. Um exemplo clássico é o do técnico do Defensor, José Ricardo De Léon, assumidamente comunista, diante do sombrio ambiente que se instalou no Uruguai após o golpe, ele decide sair do país para evitar problemas que afetariam, inclusive, sua família. De Léon vai para o México trabalhar no Deportivo Español. No primeiro semestre de 1975 se consagra campeão por outro clube mexicano (Toluca) e parte para a argentina, sendo contratado pelo Rosário Central. Mas, no primeiro semestre de 1976, De Léon decide arriscar, e aceita uma proposta para voltar ao Defensor. Consagra-se campeão com um estilo de jogo já praticado na sua primeira passagem pelo clube (1972/73), mas agora aperfeiçoado, um futebol moderno com a famosa marcação sob pressão no campo do adversário. Após a conquista histórica do dia 25 de julho, De Léon resolve partir e seu destino novamente é o México. Ele escreve uma carta ao presidente do clube, Júlio César Franzini, dizendo que esse já conhecia as razões de sua viagem. O jornal El País reproduziu está carta no mesmo ano de 1976. Muitos haviam notado que De Léon perdeu a esperança de que a ditadura não interferisse no futebol. Isso se deve ao fato de que havia rumores de um possível convite para ele dirigir a seleção uruguaia. Convite que nunca foi efetivado devido a sua posição política de esquerda. Vale destacar que a Associação Uruguaia de Futebol estava nas mãos de um sujeito ligado a ditadura, o engenheiro Hector Del Campo. O temor de que sua presença no Uruguai acarreta-se em perseguição aos seus familiares também volta a rondar a cabeça de De Léon, e isso também é determinante em sua decisão de sair do país.

Também ocorreu perseguição a dirigentes contrários a ditadura. Um exemplo é o do vice-presidente do Defensor na gestão que culminou no título de 1976, Eduardo Arsuaga. No ano seguinte, 1977, ele foi impedido de concorrer nas eleições do clube. O motivo foi seu vínculo com a Frente Ampla e os Tupamaros (guerrilha). Lembrando que as eleições nos clubes de futebol eram controladas pela polícia, que determinava o envio da lista de candidatos para ser aprovada.

As coisas mudam de tom quando analisamos a relação da ditadura com os jogadores de futebol. Em casos pontuais houve intimidação e perseguição, mas nada comparável ao que sofreram outros setores da sociedade. Parecia que os jogadores eram intocáveis, talvez devido a popularidade do futebol no Uruguai e o “pensamento” estreito / limitado da ditadura que encarava esse esporte como mero entretenimento. Essa condição de “intocáveis” pode ter salvado a vida do meio-campista Pedro Graffigna, campeão com o Defensor em 1976. Simpatizante do comunismo, Graffigna sofreu pequenas retaliações da ditadura por conta de seu posicionamento político. Várias vezes ele escutou rumores de que a polícia ou o exército estavam planejando sua prisão. Ele se sentia controlado, mas o encarceramento nunca aconteceu. Em 1974, encontraram papéis da central operária (CNT) em sua casa, mas por ser jogador de futebol, com algumas horas de depoimento as coisas estavam resolvidas. Quando integrou a seleção uruguaia em 1976, teve seu passaporte retido para uma série de amistosos no exterior. Para os jogos do Defensor pela Libertadores de 1977 aconteceu a mesma coisa, ele foi impedido de viajar para a argentina (para os jogos contra Boca Juniors e River Plate).

Outro exemplo de retaliação aconteceu após uma entrevista concedida pelo jovem atacante do Defensor, Julio Filippini, depois do empate diante do Nacional, única partida que ele jogou no campeonato de 1976, onde se destacou por ter convertido um gol e ter sofrido o pênalti que determinou o resultado final em 2-2. A entrevista foi para o jornalista Víctor Hugo Morales, na época trabalhando para a Rádio Oriental. No final da entrevista o repórter pergunta a quem Filippini dedicava àquela atuação e ele responde “A mi hermano y a los compañeros del Penal de Libertad“. Dedicou ao irmão, preso político, e seus companheiros da penitenciária de Libertad. Seu irmão era militante do Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros). Filippini não voltou a jogar profissionalmente após esse episódio.

A partida que sacramentou o título do Defensor (2-1 diante do Club Atlético Rentistas, na última rodada do campeonato, gols de Santelli e Cubilla) terminou de maneira emblemática. Os jogadores do clube após o apito final deram a volta olímpica ao contrário (pela esquerda). Ato que simbolizou resistência ao autoritarismo vigente naquela sociedade. O jogador que vinha pensando, alguns dias antes, em como comemorar aquele possível título histórico foi o lateral Beethoven Javier. Ele seguiu uma sugestão do técnico De Léon, que havia conversado em particular sobre a importância do ato. Javier teve duas ideias sobre a volta olímpica. A primeira seria fazê-la com camisetas pretas, para representar os anos sombrios que se vivia em plena ditadura, mas era alto o risco de ter outras interpretações. A segunda ideia foi a volta olímpica pela esquerda, mas ele não decidiu nada até o início da partida. Segundo Javier, a proposta inicial era buscar o técnico De Léon para dar a volta com todo o elenco. Mas ele havia ido ao vestiário antes do final do jogo. No último lance da partida houve um escanteio para o Defensor no gol da praia Ramírez (Estádio Luis Franzini). A bola veio na direção de Javier e, ao dominá-la, ouviu o apito do árbitro. Daí ele disse à dois jogadores que estavam próximos para dar a volta olímpica ao contrário, e todos os outros atletas acompanharam. E se tornou um ato histórico e de representação legítima da resistência de pessoas ligadas ao futebol uruguaio diante da violência institucional da nefasta ditadura, instalada naquele pequeno país do nosso continente em 1973.




Tópicos relacionados

Futebol   /    Ditadura militar   /    Sociedade

Comentários

Comentar