QUILOMBO VERMELHO

Declaração: Basta de morrer pelas balas da polícia, pela COVID e pelos lucros capitalistas

Somos negros e negras, trabalhadoras e trabalhadores, estudantes universitários e secundaristas, terceirizados e precarizados. Somos parte das negras e negros que não podem parar de trabalhar porque a perspectiva é a fome e o desemprego. Estamos nos serviços precários, invisíveis, e com a pandemia mostramos mais do que nunca como somos essenciais. Temos medo de nos contaminar com a COVID-19 e contaminar as nossas famílias, porque o Estado e as empresas não oferecem proteção mínima.

quinta-feira 4 de junho| Edição do dia

Vivemos ameaçados pelas balas da polícia, pela invasão das nossas casas, mesmo quando fazemos quarentena. Somos todos João Pedro, Rodrigo Cerqueira, Juan de Oliveira e todos os mortos pela polícia racista. Queremos justiça para João Miguel. Nos sentimos sufocados pelos joelhos do policial que tirou a vida do George Floyd, lá nos Estados Unidos. Por não saber até hoje quem mandou matar Marielle. E mais do que medo, sentimos ódio, e queremos nos organizar, fazer da nossa revolta uma luta contra o racismo e o capitalismo. Estivemos reunidos mais de 500 no dia 31/05, numa plenária do Quilombo Vermelho, juntamente com a militante negra socialista Júlia Wallace e os companheiros do Left Voice dos EUA, porque não vamos mais aceitar humilhação e morte.

A COVID-19 está expondo as contradições profundas do capitalismo e sua cara mais racista. Não é à toa que a situação dos negros e a luta contra o racismo se tornou um fenômeno internacional com centro no EUA, a fúria negra contra o brutal assassinato de George Floyd que se espalhou pelo país e tem atos em vários lugares do mundo. Esse sistema que usa do preconceito contra a gente e contra muitos outros trabalhadores - bolivianos, peruanos, colombianos, venezuelanos, árabes - pra ganhar mais dinheiro, pagando pra gente salários menores. Esse sistema que mantém esse preconceito vivo garantindo que a gente viva pior, more pior, coma pior e morra pelas mãos do Estado, esse Estado que comanda o tiro da polícia e que faz dos nossos hospitais os que não conseguem atender a gente e terminam de acabar com as nossas vidas. Nossas vidas só falem, no limite do que podem nos explorar ao máximo nossa força de trabalho, é isso que faz por exemplo, que as mulheres negras recebam 60% a menos que um homem branco. Por isso, não é à toa que são os trabalhadores negros que protagonizam esse levante. Batalhamos pela unidade entre negros e brancos, porque sabemos que nosso inimigo são os empresários e políticos capitalistas.

No Brasil, a partir do exemplo da fúria negra que estourou nos EUA, a possibilidade de retorno da luta de classes se coloca novamente com os atos antifascistas. A combinação entre essas duas lutas é bastante natural num país que tem Bolsonaro, um racista declarado, assim como Trump. O antirrascismo deve caminhar lado a lado com o antifascismo. Bolsonaro avança com o autoritarismo apoiado nos militares reacionários para impor mortes aos milhares pela COVID, desemprego, suspensão de contratos com diminuição salarial, um auxílio emergencial insuficiente que não atende a todos que precisam. A preocupação dele, Guedes e seus ministros são os capitalistas, os patrões que não se importam que vamos morrer.

Mas os avanços autoritários e absurdos de Bolsonaro não pode nos levar a ampla unidade sem critérios no combate a eles. O STF vem cada vez mais se contrapondo a Bolsonaro e os militares, mas nós negros não podemos ter nenhuma ilusão, numa instituição que é responsável por sermos o país com a terceira maior população carcerária do mundo, que mantém 40 % dos presos sem julgamentos. São parte fundamental da impunidade que permite policiais matarem diariamente nas favelas e periferias. Tão pouco podemos achar que nossos inimigos de classe, como Rodrigo Maia, ampla maioria dos políticos na câmara e no senado, que aprovaram a reforma trabalhista e a reforma da previdência, duros ataques a classe trabalhadora, que é majoritariamente negra. Vimos grandes empresas como Globo, Netflix, Apple, buscando se localizar como parte do movimento, apresentando formas suavizadas de protesto que tentam extrair os conteúdos mais radicais da nossa luta, tentando mascarar que se apoiam no racismo estrutural para manter seus lucros.

Dá ódio ver governadores responsável pelos maiores índices de mortes por COVID-19 como Doria e Witzel, querendo dizer que são oposição a Bolsonaro. São inimigos dos negros, Witzel tem um recorde de 2 mil mortos no seu primeiro ano de governo. Não podemos aceitar que esses reacionários que possuem suas mãos sujas do sangue negro possam se colocar como alternativas a Bolsonaro.

Nos últimos dias temos acompanhando amplos setores se autodeclarando antifascistas, setores de todos os tipos, de todas as classes, agora por conveniência eleitoral querem se colocar como oposição ao Bolsonaro. Ao mesmo tempo uma movimentação para se constituir uma Frente Ampla que englobe até setores burgueses, inimigos de classe dos trabalhadores e do povo negro. A unidade que necessitamos para derrubar Bolsonaro e Mourão precisa ser de independência de classe, unindo todos os trabalhadores junto dos setores oprimidos, negros, mulheres, LGBT’s, imigrantes, essa sim é muito maior e mais forte. Saídas como o impeachment, canalizam nosso ódio contra Bolsonaro para colocar no seu lugar um general defensor da ditadura militar, como é Mourão.

Tão pouco são uma saída para nós negros setores como o PT, que também apostam nessas saídas pelo alto, nas quais os trabalhadores e os negros não são sujeitos. Por isso, nas centrais que dirigem CUT e o PCdoB a CTB, ficam na quarentena enquanto nossos direitos estão sendo atacados. Além de que foram os governos do PT que instauraram as UPP’s, modelo de repressão aos negros nas favelas, a ocupação militar na favela da Maré, a ocupação militar no Haiti, contra nossos irmãos de lá. E como eles mesmo dizem, um governo, no qual os empresários e banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro. Não foram e não serão uma saída radical para os negros e a classe trabalhadora brasileira.

Queremos colocar fora esse governo racista do Bolsonaro, não para que em seu lugar entre Mourão, o general que reivindica a ditadura militar. Por isso, também dizemos Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, sem nenhuma confiança nos STF e nos golpistas que aprovaram as reformas para nos fazer trabalhar até morrer e sem nenhum direito. Essa campanha precisa estar em todos os lugares e ser convocada por toda a esquerda e os sindicatos. Assim como a luta por justiça para punir todos os responsáveis pelas mortes de João Pedro e todos os assassinatos pela polícia e pelo Estado.

E avançar para que a gente tome nas nossas mãos os rumos políticos do país com uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que mude não só os jogadores, mas esse jogo podre que nos oprime e explora cotidianamente. Na qual possamos avançar para acabar com a repressão policial e por justiça para todos negros assassinados, acabando com os autos de resistência e com os tribunais militares e acabar com essa política de morte contra os negros. A luta antirracista e antifascista contra Bolsonaro não é pra sermos dirigidos por nenhum dos de cima, que não vivem como nós, mas sim pra ser tomadas por nós negros, a maioria da classe trabalhadora.

Basta de morrer pelas balas da polícia, pela COVID e pelos lucros capitalistas. Justiça para George Floyd, João Pedro, Marielle e todas as vitimas da violência do Estado. Vem você também fazer parte dessa campanha com a gente, baixe nossos materiais aqui na página do Esquerda Diário, publica no insta, no face, no zap, no Twitter e marca a gente. Leva essa luta pro trampo, organiza os que são como nós, da sua família até os seus amigos do bairro. Vamos fazer crescer esse movimento. Basta!




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