Política

ELEIÇÕES ARGENTINAS

Debate presidencial na Argentina: o candidato da Frente de Esquerda enfrentou Macri e o candidato do peronismo

Com muita expectativa prévia, aconteceu o primeiro debate presidencial obrigatório no marco da grande crise que vive o país.

segunda-feira 14 de outubro| Edição do dia

Nas prévias, na Universidade do Litoral, na Cidade de Santa Fé, se encontravam muitas personalidades que simbolizariam de alguma maneira o tom do debate.

Junto ao atual presidente, Mauricio Macri, o acompanharam seu candidato a vice Miguel ÁngelPichetto, o chefe de Gabinete Marcos Peña, o chefe de comunicação Hernán Lombardi e a ministra de Segurança Patricia Bullrich, entre outros.

Ao lado de Alberto Fernandéz, o mais significativo e “surpreendente” foi a presença de Daniel Scioli, candidato do kirchnerismo derrotado por Macri nas eleições de 2015, a quem o candidato peronista pela Frente de Todos fez referência na sua primeira intervenção. Também o acompanharam outros referentes do peronismo conservador como o ex-governador da província de Buenos Aires, Felipe Solá e o governador “sojeiro” (pró-latifúndio) de Santa Fé Omar Perotti, além de membros de sua equipe como Matías Kulfas e Santiago Cafiero, entre muitos outros.

Junto a Nicolás del Caño estiveram presentes lutadores e dirigentes socialistas como sua companheira de fórmula eleitoral Romina del Plá, o ex-legislador Christian Castillo, o dirigente da oposição da esquerda no sindicato dos trabalhadores do metrô Claudio Dellecarbonara e o deputado nacional Juan Carlos Giordano, entre outros.

Ao longo do debate, estas presenças teriam seu correlato: nas intervenções, Nicolás del Caño foi o único que propôs uma saída clara à crise que deixa Macri, para que sejam os capitalistas que paguem a crise que eles mesmo geraram, mas que deve ser também sem os que durante todos esses anos foram os cúmplices do atual presidente, da Igreja e dos lambe botas que atacam os povos venezuelano e equatoriano.

Apresentações

O primeiro bloco de discursos esteve dedicado às apresentações, onde cada um deixou claro quais seriam seus eixos principais.

Maurício Macri, depois de ser fortemente derrotado nas eleições primárias (as PASO) e com milhões de pessoas opositoras a ele depois desses quatro anos, suplicou que deem seu voto, desculpando a si mesmo alegando que necessita de mais tempo para “resolver” os problemas.

Por sua vez, Alberto Fernandéz, adiantou desde o começo o central de sua estratégia: apresentar-se como o candidato articulador de uma unidade peronista capaz de derrotar Macri, buscando capitalizar o descontentamento contra um governo odiado. Por isso começou reivindicando Daniel Scioli, ao fazer referência a ele no debate falando que há quatro anos “alguém disse a verdade” e “alguém mentiu”. Foi toda uma maneira de começar resgatando alguém que em quatro anos não existiu como opositor a Macri, e até se ausentou como deputado nacional no dia que se votou o saque dos aposentados com a reforma da previdência em dezembro de 2017.

Nicolás del Caño se apresentou começando pela sua vida pessoal, dizendo que pertence a uma família de trabalhadores que atravessou crises como a hiperinflação dos anos 80, o alto nível de desemprego dos anos 90 e de 2001, chegando agora até o desastre atual de Macri. Del Caño denunciou logo no começo de sua intervenção que nessa crise há ganhadores como os bancos, os grandes grupos empresariais e os latifundiários, e que a Frente de Esquerda propõe claramente que são eles os que devem pagar a crise, e não o povo trabalhador.

Juan José Gómez Centurión, José Luis Espert e Roberto Lavagna tiveram uma atuação no debate que os fizeram passar bastante desapercebidos. O primeiro se apresentou com valores básicos da direita como a oposição ao direito ao aborto, a mão dura da repressão e a defesa da propriedade privada. Espert se postulou como um grande defensor do livre mercado e Lavagna chamou a distribuir “de maneira equitativa” os custos da crise, como se não houvesse alguns poucos que ganharam muito e milhões que foram os grandes perdedores.

Relações internacionais

No ponto sobre relações internacionais, os três principais presidenciáveis do debate se organizariam ao redor do seguinte esquema: Macri insistindo com a necessidade de “voltar a se integrar ao mundo”, Alberto Fernandéz tentando mostrar uma moderação “razoável” e Nicolás del Caño solidário com as lutas dos trabalhadores e povos oprimidos como a que está acontecendo no Equador nesses últimos dias.

Em relação a esse tema, o candidato da Frente de Todos reivindicou a necessidade de unificar a América Latina sem ter medo da abertura econômica, porém para “negociar” com o mundo as condições, em contraposição à política de Macri que levou o país à crise.

O candidato de Juntos Pela Mudança, ao contrário, reivindicou a globalização e a “inserção no mundo”, destacando a potencialidade que tem a Argentina de seguir por esse caminho, como se a abertura indiscriminada ao capital financeiro não houvesse aberto caminho a um novo saque do país nesses anos. Também voltou com seu clássico ataque contra Maduro, o qualificando como “ditador”.

Por sua vez, Nicolás del Caño, foi o único que fez questão em saudar “o povo irmão do Equador, que com seu levante nos está dando um exemplo de dignidade e de luta”. Del Caño resgatou as lições que saem desse país e sua relação com o FMI: contra as promessas demagógicas da campanha de Alberto Fernandéz disse que “é impossível estar ao lado das grandes maiorias e aplicar as políticas do Fundo (FMI). A Frente de Esquerda já fez sua escolha, o capitalismo não é mais o único horizonte possível” e saudou também à juventude que se mobiliza no mundo pelo meio ambiente, aos movimentos de mulheres, aos que no Chile lutam por reduzir a jornada de trabalho e aqueles que nos EUA simpatizam com as ideias do socialismo.

Um emocionante momento aconteceu quando ele pediu um momento de silêncio em homenagem aos trabalhadores indígenas e camponeses que morreram em luta no Equador.

Também soou forte sua denúncia quando se referiu a Macri como um “lambe botas” dos Estados Unidos para a intervenção na América Latina, pondo em evidência que o peronista Sergio Massa, do Frente de Todos, também se subordina ao imperialismo ao ser funcional à direita da região se referindo à “ditadura” da Venezuela. Del Caño fez estas denúncias se delimitando do autoritarismo de Maduro, porém desde uma posição operária e socialista.

Economia

O debate sobre a economia seguiu um caminho parecido ao das relações internacionais. Enquanto que Macri seguiu colocando culpa na “herança recebida” do kirchnerismo e pedindo mais tempo, Alberto Fernandéz chamou todos a fazer um Pacto Social com os cúmplices que ajudaram Macri a governar todos esses anos, enquanto Del Caño fez fortes denúncias demonstrando porque a crise deve ser paga pelos capitalistas.

De início, Del Caño assinalou que Macri já gerou quatro milhões de novos pobres, e que isso se contrapõe aos grandes ganhadores da crise, como os bancos que ganham por mês mais que 600.000 trabalhadores, ou as empresas privatizadas que só no ano passado ganharam seis milhões de dólares por dia. Del Caño denunciou que “o povo trabalhador não tem por que pagar essa festa” e propôs medidas importantes como a necessidade de um banco estatal único, anular todas as leis e decretos que se fizeram contra os trabalhadores aposentados, nacionalizar os recursos estratégicos e anular o aumento aplicado nas tarifas (interpelando a oposição peronista atual se está disposta a fazer isso) e deixar de pagar a ilegal, ilegítima e fraudulenta dívida pública.

Nesse ponto do debate foi muito importante a denúncia de Del Caño a Macri, afirmando que ele “não fez este desastre sozinho, aqui houve cúmplices, legisladores e governadores que hoje estão na Frente de Todos e que quando houve que escolher, escolheram os bancos contra os aposentados, e votaram todas as leis que Macri precisou contra o povo trabalhador”.

Sobre essa mesma argumentação, Del Caño pronunciou contra o acordo social convocado por Alberto Fernandéz. “Nessa mesa vão se sentar os mesmos que nos vem roubando e os dirigentes da CGT (intersindical peronista). Nosso único compromisso tem que ser lutar por salários, pelos aposentados, contra o trabalho precário”.

Por sua vez, Alberto Fernandéz escolheu o caminho fácil de bater em Macri pela crise econômica que deixa, e fez promessas impossíveis de cumprir, como a reativação do consumo, da produção e a geração de dólares para pagar a dívida sem romper com o FMI e mediante um Pacto Social com os que ajudaram Macri governar. Quando a realidade é que o Equador adianta um futuro argentino se não se rompe com o FMI e se segue atado a uma dívida impagável.

Por último, Macri se “autocriticou”, dizendo que pensou que o caminho iria ser mais fácil, mas insistiu insolitamente em que agora “estamos melhor, num ponto de partida para começar a crescer”, e aproveitou para atacar Alberto Fernandéz, denunciando que foi Cristina Kirchner quem havia destruído a economia.

Direitos humanos, diversidade e gênero

Nessa parte do debate, Mauricio Macri se referiu a um suposto liberalismo e pluralidade que não pratica; Alberto Fernandéz se proclamou como progressista ocultando seus aliados obscurantistas, enquanto Del Caño protagonizou reivindicando as lutas do movimento de mulheres.

O atual presidente, cinicamente, disse que “é feliz ser presidente de um país onde se vive em liberdade, plural, diverso. Acredito na liberdade.”. Disse o mandatário de um governo repressor que tem na mão dura de Patricia Bullrich uma de suas principais bandeiras, em Santiago Maldonado (ativista morto pelas forças de repressão) uma de suas grandes manchas, e no xenófobo Miguel Ángel Pichetto uma de suas recentes incorporações.

Por sua vez, Alberto Fernandéz falou a favor dos direitos humanos, especialmente dos direitos das mulheres e do direito ao aborto, ocultando que as listas eleitorais da Frente de Todos estão cheias de obscurantistas do próprio peronismo que serão um grande obstáculo para as conquistas desses direitos. Sem ir mais longe, o reacionário Juan Manzur é um dos principais aliados do candidato a presidente do Frente de Todos.

Ao contrário destes, Nicolás Del Caño saudou o Encontro Plurinacional de Mulheres e Dissidências que está ocorrendo de forma multitudinária na cidade de La Plata, reivindicando “as milhões de mulheres que saíram às ruas e fizeram escutarem o grito de Nem Uma a Menos, contra a desigualdade salarial, trabalhista e o trabalho doméstico não remunerado. A dívida não é com o FMI, é com as mulheres”.

Del Caño também denunciou que houve senadores tanto de Cambiemos (lista eleitoral de Macri) quanto da Frente de Todos (peronistas e kirchneristas), pois votaram contra o direito ao aborto, por sua cumplicidade com as igrejas. Contra isso reivindicou que a Frente de Esquerda tem listas eleitorais 100% verdes e disse com confiança que “as mulheres voltarão a sair às ruas e o direito ao aborto será lei”, com o pano verde característico da luta pelo aborto amarrado na sua mão. Também denunciou os governadores que impedem o direito ao aborto e reclamou pela separação da Igreja do Estado.

Educação e saúde

A respeito desse tema, o debate girou sobre a mesma lógica.

Mauricio Macri falou de forma ridícula sobre a revolução tecnológica e científica, como se o grande empobrecimento sob seu mandato não tornasse cada vez menos pessoas capazes de acessar esses avanços, em deixar milhares de crianças sem irem à escola, e por deteriorar os salários dos professores com escolas caindo aos pedaços.

Por sua vez, Alberto Fernandéz cresceu sobre essa denúncia evidente e prometeu “prestar muita atenção à educação”, mas sem dizer de onde tirará os recursos, já que ele se propôs a “honrar” as dívidas com os abutres do capital financeiro.
Del Caño denunciou que “Macri é um inimigo da educação pública e Vidal também, contra os professores que reivindicam salários mais dignos”.

O candidato da esquerda também denunciou o crime social da escola de Moreno (onde morreram dois trabalhadores da educação) e disse que “todos os governos se dedicaram a culpabilizar os professores, porém são eles os que dão seu suor todos os dias”.

Del Caño propôs reverter tudo o que fez o ex-presidente Menem durante os anos 90, referindo-se à transferência da educação às províncias sem investir. Propôs uma educação nacional em que o Estado garanta os salários, a infraestrutura e os recursos tecnológicos necessários. Deve-se escolher pelo pagamento da dívida ou pela educação.

Nicolás também denunciou o duplo discurso de Alberto Fernandéz, quem tem como aliado em Chubut o governador Arcioni, que há meses ataca os salários dos professores dessa província com repressão.

Por último, Del Canõ assinalou que a saúde não deve ser um negócio e denunciou os lucros milionários das empresas privadas.

Encerramento

No fim do debate, Nicolás Del Caño se dirigiu especialmente à juventude, aos que têm trabalhos precários e aqueles que veem seu direito a estudar ameaçado. Disse que o avanço da técnica e do conhecimento permitiriam não apenas acabar com a fome ou com o desemprego, mas também reduzir a jornada de trabalho. Por último destacou a campanha da Frente de Esquerda, com o esforço de milhares para lutar por um futuro em que a vida mereça ser vivida, chamando todos a lutar por uma esquerda mais forte no país e no Congresso.




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