Internacional

MOBILIZAÇÕES MASSIVAS

Debate no Chile: Como seguir a luta depois da maior manifestação da história?

Foram as maiores manifestações desde o final da ditadura. Em Santiago 1,2 milhões se mobilizaram, e centenas de milhares em todo o país. Cada vez somos mais. Devemos transformar esta força em uma alavanca para impulsionar a greve geral ativa e de luta até derrubar Piñera, tirar os militares e impor uma Assembleia Constituinte que acabe com esse regime e todas as heranças da ditadura.

sábado 26 de outubro| Edição do dia

Milhões se mobilizaram ontem. Em Santiago aconteceu a maior manifestação em quase 30 anos de democracia, foram cerca de 1,2 milhões de pessoas nas ruas. Também foi assim desde o norte ao sul do país, com massivas ondas de gente tomando as ruas. Em todo o país se falava da “maior manifestação do Chile”, convocada pelas redes e à qual foram se somando centenas de organizações sociais.

As massivas mobilizações expressaram diferentes setores sociais, com protagonismo da juventude e das classes médias. Também intervieram os trabalhadores, ainda que delimitados com suas organizações somente em alguns lugares como em Antofagasta. Também afluíram às manifestações povo pobres e jovens precários de vários locais do país. O tom da manifestação foi pacífico, quase sem enfrentamentos e com um festivo e de carnaval, diferente das revoltas que começaram há exatamente uma semana, quando tanto na capital como em todos bairros pobres e municípios mais periféricos do país explodiu o ódio social de milhões de pobres e setores marginalizados junto da juventude. Se desenvolveu uma rebelião que teve resposta militar e com o estado de emergência por parte do governo, que conseguiu controlar a explosão do ódio social dos bairros mais marginais do país à ponta de bala e espancamentos.

Os cantos nas manifestações expressaram o amplo repúdio ao governo, com o “Fora Piñera” como um sentimento massivo assim como o repúdio ao estado de emergência e os fatos da repressão que vimos em quase toda a semana. Também se expressava a denúncia das condições herdadas da ditadura, nas aposentadorias e nos salários de miséria, na saúde pública precários e diversos sintomas de mal-estar com as heranças do “modelo” que Pinochet deixou. Em Valparaíso [capital legislativa do país – nota da tradução] a dinâmica foi diferente, na manhã mais de 20.000 pessoas avançaram ao Congresso, enfrentando uma fortíssima repressão policial, e alguns milhares chegaram às portas do Congresso. Frente a essa mobilização os congressistas foram obrigados a abandonar o edifício.

O governo assassino e criminoso de Piñera e da direita, de forma completamente hipócrita tentou dialogar com a manifestação para armar suas armadilhas. Piñera disse em um tweet: “A multitudinária, alegre e pacífica manifestação de hoje, onde os chilenos pedem um Chile mais justo e solidário, abre grandes caminhos de futuro e esperança. Todos escutamos a mensagem. Todos mudamos. Com unidade e ajuda de Deus, seguiremos o caminho rumo a esse Chile melhor para todos.” Enquanto isso ele colocava os militares para aterrorizar e à ponta de bala mirar os mais pobres do país, o que lhe permitiu controlar os elementos mais revulsivos e explosivos que colocaram em xeque seu governo. Agora ele busca dialogar como uma manifestação cidadã para desviá-la aos marcos de suas enganações e armadilhas institucionais.

Esta mesma hipocrisia se reflete nos partidos do regime e nos grandes meios de comunicação de massas, enquanto acontecia a revolta, criminalizaram furiosamente a mesma e à juventude, e agora buscam dialogar com as manifestações pacíficas para ajuíza-las nos marcos do velho regime herdeiros de Pinochet, lhe conceder migalhas que não mudem realmente a nada e assim, com suas enganações, manter as heranças da ditadura e do “modelo”.

Fazendo isso estão preparando novas armadilhas e enganações. Nos círculos de pode se preparam várias saída: na direita se discute uma mudança nos ministérios, até mesmo se discute a formação de um ministério de “unidade” com a oposição. Outros assinalam que o caminho é redobrar a aposta, com mais medidas sociais, pois teriam sido insuficientes as propostas. Entretanto, como bem afirmou o porta-voz dos grandes empresários, o jornal Diario Financiero, estão dispostos a novas medidas sociais sem colocar em risco o “modelo”. Ou seja, sem tocar os pilares da herança da ditadura, permitir desativas as manifestações com concessões que não toquem um fio de cabelo do sistema que a ditadura instalou.

Outra armadilha do diálogo social de Piñera, bem como as negociações parlamentares com os partidos da Ex-Concertación vão nesse mesmo sentido: conceder algo para não perder seus privilégios e interesses garantidos pelo “modelo”.

Entretanto, são armadilhas e enganações que buscam nos desviar rumo às velhas instituições para que tudo fique como está. Se não derrubamos Piñera com a forças das ruas, com a greve geral e a mobilização, as heranças malditas da ditadura serão mantidas. Os sofrimentos da grande maioria da população seguirão. Os salários e aposentadorias de fome, o endividamento, a educação e a saúde privatizadas. Com Piñera no governo teremos somente armadilhas. Com o diálogo social e as negociações parlamentares farão algumas mudanças e será mantido o velho regime.

Outra saída é que se massivas mobilizações continuem nos próximos dias, nos salões do Palácio seja forçada a renúncia de Piñera e até mesmo sejam colocados plebiscitos e fórmulas de uma Assembleia Constituinte, que, em mãos de um governo direitista e um parlamento com maior de ladrões e políticos milionários à serviço dos grandes empresários, seja enganosa e não resolva os sofrimentos da grande maioria do povo. Ou seja, que deixe intacto o Chile à serviço dos grandes milionários e suas fortunas. Hoje eles estão dispostos a ceder migalhas, desde que elas não questionem os pilares de seus interesses.

Junto a milhares de lutadores, a partir do La Izquierda Diario e do Partido de Trabalhadores Revolucionários (PTR – organização irmã do MRT brasil – nota da tradução) acreditamos que temos que tirar Piñera e convocar uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana mediante uma greve geral ativa e de luta, que derrube Piñera e todo o velho regime.

O Partido Comunista e a Frente Ampla alimentam ilusões que mediante o “diálogo sem exclusões”, mediante a negociação parlamentar com a “oposição”, bem como com “plebiscitos”, ou mesmo nas próximas eleições podemos conseguir uma saída favorável ao povo trabalhador. Porém, esta política que hoje ajuda a salvar Piñera, ao não se propor derrubá-lo com a força das ruas, contribui ao desvio que o regime e os grandes poderes empresariais buscam: mudar algo para que nada mude. E assim postergar a resolução de nossas aspirações sociais e democráticas.

A enorme força que se liberou essa semana, colocando virtualmente em xeque o governo e as velhas instituições, questionando as heranças da ditadura que são sofridas pelas grande maioria da população, é um motor que devemos desenvolver para impor uma saída que seja favorável aos trabalhadores e ao povo. A luta para construir assembleias, coordenações e comitês de luta, um caminho que as burocracias não querem está colocada, para assim organizar e desenvolver as forças que entraram em ação e impor um caminho favorável aos exploradores e oprimidos, permitindo avançar à organização da greve geral para derrubar Piñera e impor uma Constituinte verdadeiramente Livre e Soberana, para que seja o povo quem realmente decida, e não os mesmos de sempre nas velhas instituições. Eles buscarão fazer de tudo para manter seus privilégios e seus negócios.




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