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ELEIÇÕES RIO DE JANEIRO

Debate eleitoral do Rio: mata-mata cheio de ex-aliados do PMDB brigando pelo segundo turno

Sem toda a esquerda representada, o debate da Globo com os candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro teve momentos bastante quentes, expressando o impasse das pesquisas para definir quem vai para o segundo turno enfrentar o Bispo Marcello Crivella (PRB).

sexta-feira 30 de setembro| Edição do dia

O clima esquentou ontem nos estúdios da Rede Globo de Televisão em Jacarepaguá. Sem toda a esquerda representada, ontem foi o último debate entre os candidatos a prefeito para a cidade do Rio de Janeiro. O debate teve momentos acirrados pela indefinição nas pesquisas de opinião, sobre quem irá ao segundo turno. Marcelo Freixo e o agressor de mulheres Pedro Paulo estavam empatados com 10% na última pesquisa do Ibope, enquanto Indio da Costa conseguiu 8% das intenções, e Jandira Feghali empata com Flávio Bolsonaro em 7%. Uma indefinição de quem irá enfrentar o Bispo Marcelo Crivella, que segue com esmagadores 34%.

A luta por esta vaga foi o que tornou o debate muito mais acirrado do que os anteriores. Jandira abriu o debate mostrando esta tendência, denunciando o papel da Rede Globo de Televisão como parte dos arquitetos do golpe institucional que seqüestrou o voto de milhões de pessoas para colocar Michel Temer. Ela fez isso logo em sua primeira pergunta feita a Pedro Paulo. A munição entre os candidatos era tanta, que além do tempo de resposta e réplica, foram dois direitos de resposta concedidos para que se continuasse a discussão.

Jandira denunciou o golpismo da Rede Globo, Pedro Paulo respondeu acusou Jandira de receber propina, lembrando a delação premiada de Sérgio Machado, ao qual ela responde que foram doações de campanha e que nada a incriminaria, ao contrário de Pedro Paulo que tem sobre suas costas a culpa de ter agredido sua mulher. Pedro Paulo respondeu que foi inocentado pela Procuradoria Geral da República (Rodrigo Janot), pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal. (Apesar de sua confissão nesta entrevista para a Folha.)

Aliás, no país em que um mesmo juiz inocenta os policiais responsáveis assassinato de 111 presos no Carandiru também é o juiz que sentenciou um preso por roubar salame no supermercado, nada de melhor deveria se esperar do judiciário golpista, do que limpar a barra para o candidato do PMDB.

A denúncia de Jandira contra o golpe, parte mais interessante da troca de farpas entre políticos burgueses, no entanto, não era nada combativa e expressava toda a passividade com que o PCdoB, dirigindo a terceira maior centra sindical do país (a CTB), aceitou pacificamente o golpe institucional da direita com quem havia se aliado até então (inclusive na prefeitura do RJ, aonde onde estavam na campanha de Pedro Paulo até fevereiro deste ano e a mesmíssima Jandira ocupou cargo de secretaria).

Impasse nas pesquisas e impasse da crise no regime: vale tudo pela vaga de segundo no Rio

Outro momento quente foi a troca de acusações entre Pedro Paulo e Freixo. Freixo chamou Pedro Paulo para responder sobre um dos legados do PMDB no Rio, a Ciclovia que desabou matando duas pessoas. Munido da benção do judiciário golpista para mentir que não agrediu sua ex-mulher, Pedro Paulo centrou fogo em Freixo, levantando o caso de agressão cometido por um assessor de Freixo e que em 2012 este teria recebido financiamento de uma construtora, jogando para Freixo (a mesma responsável pela Ciclovia Tim Maia e pelas remoções da Vila Autódromo. Tentando dar entender na realidade, que todos políticos seriam iguais, e que Freixo seria hipócrita por pregar alguma moralidade na política.

Um verdadeiro vale-tudo, aonde o candidato da continuidade de Paes, empatado nas pesquisas, tem que se esforçar para ganhar de Freixo. O PSOL do Rio não recebe doações de empresas desde a campanha de 2014, enquanto que o assessor de Freixo foi exonerado. Ainda assim, foram debilidades e contradições do PSOL que o PMDB soube explorar pela direita. A falta de proporção na comparação veio logo à tona quando Freixo respondeu denunciando as propinas recebidas por Eduardo Cunha relacionadas às obras do porto maravilha.

Candidaturas pulverizadas pela crise política e de representatividade

Os fatores que envolvem o desespero de Pedro Paulo estão para além de uma oposição forte de Freixo. Se, de um lado o candidato da continuidade quer garantir sua vaga no segundo turno, de outro o faz sufocado pela quantidade de candidaturas, algumas que conseguem aparecer mais limpas. Por exemplo, o eleitorado de direita que não engole facilmente Eduardo Cunha ou os esquemas com as empreiteiras formam uma base para Índio da Costa, candidato conservador que aparece como figura “mais limpa”, uma direita com “cheiro de novidades”. Por outro lado, Flávio Bolsonaro arranca de Pedro Paulo uma parcela do eleitorado anti-Petista, junto com Osório do PSDB.

Nesta dinâmica em que as candidaturas não expressam questionamento do regime, o que prezou no debate na realidade, é “quem é o menos sujo”, e por isso essa tentativa de Pedro Paulo de arrastar Freixo para a vala comum dos candidatos da Burguesia.

O grande vencedor nesta dinâmica foi o candidato que tem eleitorado cativo. Marcello Crivella concentra várias qualidades que atraem o voto conservador. Por ser mais velho e posar de “experiente”, por ter posição conservadora que apareceu mais abertamente defendendo o reacionário projeto “escola sem partido”. Por ser ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, ou seja, todo um aparato político que recebe isenção de imposto pelo estado, usado para elegê-lo, de TVs, Rádios, cultos religiosos, para elegê-lo.

Um conjunto de fatores agrega os votos conservadores em Crivella, e por outro lado, a descrença nos políticos burgueses mantém impasse sobre o segundo lugar.

Os outros candidatos estabeleceram desde o início que as “regras do jogo” do debate eram rechaçar Pedro Paulo identificando-o com tudo que há de ruim. Não havia nenhum cenário melhor para Crivella do que este, que surfou na onda, conseguindo atingir este objetivo melhor do que os outros, inclusive fazendo Pedro Paulo gaguejar para responder suas perguntas.

Porém, como temos denunciado Crivella está muito longe de ser uma alternativa a política do PMDB e sua máquina eleitoral. Ele mesmo admitiu que ele “só conta com a igreja” se opondo a Pedro Paulo e sua máquina azeitada com milionárias doações de empreiteiros. Crivella, tal como Osório, tal como Bolsonaro, Pedro Paulo e Ìndio da Costa todos apoiaram o golpe institucional, e não lhes falta escândalos de corrupção para competirem entre si pelo pódio.

Frente a tantos “Cabrais” e herdeiros de Eduardo Paes mas também de Eduardo Cunha precisamos mostrar mais uma vez como a eloqüência de Jandira contra o golpe não anda junto com uma mesma combatividade da central sindical dirigida por seu partido, nem mesmo com a trajetória de seu PCdoB coligado ao PSDB no governo do Maranhão e que tantos anos participou de governos aqui no Rio com boa parte dos presentes no debate televisivo.

Uma notável ausência de todo o debate foi a crise que atravessa nosso estado, com aumento do desemprego e cortes e atrasos nos salários do funcionalismo e aposentados. Precisamos erguer uma voz anticapitalista contra todos políticos da direita mas também de forma independente daqueles que abriram caminho para a direita como foi o caso do PCdoB e do PT.




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