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Debate com o Feminismo para os 99%: o trabalho e a estratégia para um feminismo marxista revolucionário

Fernanda Inês

Debate com o Feminismo para os 99%: o trabalho e a estratégia para um feminismo marxista revolucionário

Fernanda Inês

Foi lançado no Brasil o livro “Feminismo para os 99%: um manifesto” escrito pelas intelectuais e idealizadoras da Greve Internacional das Mulheres, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser. Esse manifesto foi lançado também em outros 7 países. Pretendemos, nesse artigo, debater com algumas de suas definições, partindo de um ponto central, que é a volta do marxismo como interlocutor teórico para o movimento de mulheres.

O movimento de mulheres, desde aproximadamente os últimos cinco anos, é um dos principais atores de massas que expressa o descontentamento social com o neoliberalismo. O avanço no debate e reflexões teóricas sobre o movimento de mulheres é justamente reflexo das experiências vindas desses processos de luta. Indissociável do momento de crise orgânica em importantes democracias burguesas pelo mundo, da volta do interesses da juventude pelo socialismo e da nova localização objetiva e subjetiva da mulher em uma classe trabalhadora feminizada e influenciada por esse “feminismo cultural”.

Para as feministas dos 99% hoje a luta das mulheres passa por uma encruzilhada, ante a qual é possível construir uma alternativa política que não conflua com o feminismo liberal nem caia no populismo de direita. Denunciando a crise capitalista, segundo elas “o tempo de ficar em cima do muro passou, e as feministas devem assumir uma posição: continuaremos a buscar “oportunidades iguais de dominação” enquanto o planeta queima? Ou vamos voltar a imaginar a justiça de gênero em um modelo anticapitalista – aquele que conduz para além da crise atual, para uma nova sociedade?”[1]

Nesse sentido se reivindicam anticapitalistas, o que representa um importante avanço ao movimento de mulheres que por anos sofreu e ainda sofre com as políticas de cooptação de diversos setores burgueses. Partindo da compreensão de que é impossível acabar com o patriarcado sem questionar o capitalismo. Nesse artigo queremos desenvolver esse importante debate sobre o anticapitalismo, as contradições relacionadas a produção e reprodução social e quais saídas políticas e estratégicas que envolvem a dinâmica tipo movimentos que tomou as lutas sociais e democráticas.

A importância do Manifesto Comunista e os novos movimentos do século XXI

Logo no inicio o manifesto das 99% toma o Manifesto do Partido Comunista, escrito por K. Marx e F. Engels, como interlocutor, reivindicando este por entender o capitalismo “como base fundamental da opressão na sociedade moderna”.[2] Um êxito para o feminismo que após anos de neoliberalismo assimilou das concepções pós-modernas e opostas à luta de classes, que ignorava o sistema econômico como a base da manutenção e perpetuação da opressão, restringiam a critica à opressão ao problema de maior integração social, à arena discursiva e às questões culturais.

Da visão marxista de um mundo dividido em classes antagônicas se deriva a necessidade de um feminismo que sabe quais são seus inimigos. Essa concepção se contrapõe com a velha ideia difundida pelo feminismo liberal e pós-moderno de sororidade, na qual as mulheres deveriam se unir pelo seu gênero independente de sua classe. Como expresso no manifesto das 99%, “Sandberg – alta executiva americana – e sua laia vêem o feminismo como serviçal do capitalismo. Querem um mundo onde a tarefa de administrar a exploração no local de trabalho e a opressão no todo social seja compartilhada igualmente por homens e mulheres da classe dominante. Esta é uma visão notável da dominação com oportunidades iguais: aquela que pede que pessoas comuns, em nome do feminismo, sejam gratas por ser uma mulher, não um homem, a desmantelar seu sindicato, a ordenar que um Drone mate seu pai ou sua mãe ou a trancar seus filhos em uma jaula na fronteira.” [3]

Contudo, apesar de identificarem o capitalismo como as bases da opressão criticam o Manifesto Comunista justamente onde precisamos resgatá-lo e mostrar sua atualidade. “1848 não é 2018, […] O mundo de hoje, porém, é muito mais globalizado do que aquele de Marx e Engels, e as revoltas que o atravessam não estão, de forma alguma, restritas à Europa”[4]. Transformam assim em uma debilidade o que é uma força em potencial.

A classe trabalhadora nunca foi tão numerosa, o capitalismo criou uma massa operária de bilhões, estendida por todo o globo e cada vez mais interconectada devido a cadeia produtiva, os grandes monopólios, e as redes sociais. Essa é uma potencialidade objetiva instalada, que não havia na época de Marx e Engels, e por isso mesmo a luta de classe era restrita ao território europeu, sendo um fator objetivo que colocava obstáculos a uma revolução a nível internacional. Esse momento foi considerado como uma época “hibrida” em que o período das revoluções burguesas havia terminado, mas ainda não havia chegado a época das revoluções proletárias. Hoje, pelo contrário, vivemos a continuidade da época imperialista iniciada no século XX, ou seja, a época das revoluções proletárias.

Também é a primeira vez na história da humanidade que a população urbana é maior do que a rural: o capitalismo assim concentrou a produção e exacerbou suas contradições. “A urbanização se chocou com a limitada capacidade do capitalismo de proletarizar os contingentes massivos que afluíram para elas. Não obstante, aproximou das cidades os aliados da classe trabalhadora, tornou suas fronteiras muito mais permeáveis, com duplo efeito de colocar a classe trabalhadora sob uma maior influencia de outros setores de classe, mas também, dando-lhe uma potencial capacidade hegemônica como nunca havia tido. Multiplicou os ‘movimentos’ em detrimento do movimento operário tradicional, mas ampliou, também potencialmente, a riqueza de formas do próprio movimento operário”.[5]

Com a ofensiva neoliberal e a restauração nos ex Estados operários, a classe trabalhadora ficou cada vez mais heterogênea e fragmentada, e entrecruzada por lutas sociais e democráticas. Segundo o manifesto “para os 99%”: “Nós encontramos conflitos em torno de nacionalidade, raça/etnicidade e religião, além daqueles de classe. Ao mesmo tempo, nosso mundo abrange discrepâncias desconhecidas para eles [Marx e Engels]: sexualidade, deficiências e ecologia; e suas lutas de gênero têm uma amplitude e uma intensidade que Marx e Engels dificilmente teriam imaginado. Confrontadas, como estamos, com um cenário político fraturado e heterogêneo, não é tão fácil para nós imaginar uma força revolucionária unificada”.[6]

Essa ultima questão levantada de forma cética pelo manifesto dos 99%, é na realidade um dos principais problemas contemporâneos para o movimento de mulheres, para os partidos revolucionários e toda luta que se pretenda anticapitalista: como construir uma força unificada que, integrando a série de temas sociais e democráticos sob a direção dos trabalhadores, consiga dar uma alternativa revolucionária que resolva esses problemas pela raiz, ou seja, derrote o capitalismo. Nesse sentido, o Manifesto do Partido Comunista tem total atualidade em demarcar que a luta de duas classes irreconciliáveis é o motor da história. Isso porque todos os movimentos sociais sofreram com a ofensiva ideológica do neoliberalismo, quando dizia que a classe operaria havia acabado junto com a ideia de revolução, apoiado na nova heterogeneidade e fragmentação da classe e no atraso subjetivo fruto da derrota do ascenso revolucionário de 1968-81 e da traição das lutas operárias pelas direções socialdemocratas e stalinistas.

Com isso, os movimentos sociais e democráticos foram sendo incorporados e cooptados pelo Estado sob uma lógica gradualismo e institucionalização se afastando da revolução como um norte estratégico e da classe trabalhadora como seu sujeito. Como aponta o manifesto das 99%, os “movimentos emancipatórios de nossa época, se tornaram aliados das forças que estimularam o neoliberalismo e álibis para elas“. Dessa forma, o neoliberalismo usa dos movimentos sociais, de mulheres, negros, ambientais e etc, que são policlassistas, para subordinar a classe trabalhadora a direções pequeno-burguesas e reformistas, buscando evitar que surjam expressões de hegemonia operária. Auxiliando as burocracias sindicais a fragmentar a classe trabalhadora, para que esta não se identifique como tal, mas somente por via de movimentos identitários e sociais, ao passo que mantém a divisão das lutas econômicas (somente por salário) das lutas políticas e sociais.

Dentro desses novos movimentos policlassistas foi se fortalecendo burocracias próprias e a progressiva estatização destas. A interação das burocracias operarias com as novas burocracias sociais e identitárias, colocam esta ultima como auxiliares para manter o consenso burguês “por um lado, [as direções sindicais burocratizadas] restringem as organizações sindicais aos setores mais altos da classe operaria, nativos, predominantemente brancos (nos lugares onde a classe esta atravessada por linhas raciais) e de sexo masculino. Um corporativismo mais antipopular quanto mais se contrasta com os agudos processos de diferenciação social dentro da própria classe trabalhadora, e mais aguda com a confluência entre exploração e opressão (racial, de gênero, xenofobia).”[7]

Dessa forma, a luta política contra a cooptação do neoliberalismo vai além do feminismo liberal como trata o manifesto para os 99%– falando do tema do feminismo – a discussão esta colocada no seio do próprio movimento e justamente como resgatar a independência de classes para romper com essas divisões impostas pelas distintas burocracias dos movimentos sociais e sindicais. Falta na reflexão das feministas do 99%, justamente o papel das burocracias sindicais e a aliança que o neoliberalismo forjou, destas com os novos movimentos sociais. Uma vez que ainda são os sindicatos as principais organizações de massas dos trabalhadores, e as burocracias que, encasteladas nas suas direções, atuam no seio do movimento operário como policiais, para conter as lutas, a insubordinação e a unidade da classe com outros setores. São a materialização da hegemonia burguesa no mundo operário e parte fundamental de manter o consenso burgues.

A força da luta das mulheres hoje, ligada a própria feminização da classe trabalhadora coloca nelas a possibilidade que sejam um motor que supere essas burocracias, e seja parte de recompor a subjetividade combativa e de tribuna do movimento operário, quebrando a fragmentação imposta pela burguesia e se colocando a cabeça das lutas dos oprimidos.

A proposta colocada no manifesto das 99% de “porque devemos nos unir a outros movimentos anticapitalistas e contrários ao sistema, porque nosso movimento deve se tornar um feminismo para os 99%. Apenas dessa forma – pela associação com ativistas antirracistas, ambientalistas e pelos direitos trabalhistas e imigrantes – o feminismo pode se mostrar à altura dos desafios atuais”[8], coloca o problema: frente a toda essa engrenagem neoliberal, basta a unidade dos movimentos por fora de uma política de independência de classe e de uma estratégia revolucionária? Não seria seguir dentro do esquema criado pelo próprio neoliberalismo de manter a fragmentação das lutas e impedir que a classe trabalhadora se coloque a frente hegemonizando os setores oprimidos? Ou seja, a pura unidade de movimento não leva automaticamente a luta pela superação do capitalismo.

Sobre a reprodução social e qual a contradição fundamental do capitalismo

A crise da reprodução social é parte integrante da crise capitalista, é o exemplo mais gritante de como o capitalismo cria contradições aos quais é incapaz de resolver. Nessa crise o lugar da mulher na sociedade ganha um papel central: a entrada da mulher no mundo do trabalho criou uma situação contraditória, ao passo que colocou as mulheres na vida publica, manteve sob elas os encargos domésticos e por via do trabalho feminino desvalorizado pelo capital, e usou deste para rebaixar a condição de vida de todos os trabalhadores.

Hoje no 11º ano desde o estourar da crise capitalista em 2008, o neoliberalismo vem aplicando ataques mais duros a classe trabalhadora, como expresso no manifesto Feminismo para os 99%, “o que aguarda a ampla maioria […] é trabalho mal remunerado e precário – em fabricas, sob péssimas condições, zonas de processamento de exportação, industrias de construção de megacidades, corporações agrícolas e no setor de serviços – onde as mulheres pobres racializadas e imigrantes servem de fast-food e vendem itens baratos em grandes lojas, limpam escritórios, quartos de hotel e residências particulares”[9]

Os salários são baixos e a tendência a chamada “uberização” do trabalho, ou também chamados “mc Jobs”, obriga as mulheres a terem mais de um emprego para garantir uma renda passível de se viver. “A investida do capital contra a reprodução social também prossegue por meio da retração dos serviços sociais públicos”[10]. No Brasil, a política de reforma trabalhista, a possível reforma da previdência e as privatizações se acentuaram após o golpe e com a eleição de Jair Bolsonaro – governo de extrema direita – contudo nos governos petistas essas medidas já ocorriam, com a expansão da terceirização e cortes na saúde e educação, sem falar do aumento da divida pública nos anos do PT.

Como aponta o manifesto feminista “o capital financeiro vive da divida pública […] obrigando Estados a liberalizar suas economias, abrir seus mercados e impor austeridade às populações indefesas. Ao mesmo tempo, amplia o endividamento do consumidor […] Das duas formas, o regime acentua a contradição inerente ao capitalismo entre o imperativo da acumulação e os requisitos da reprodução social. Exigindo, ao mesmo tempo, um aumento na jornada de trabalho e a redução dos serviços públicos, o capitalismo exterioriza o trabalho de cuidado sobre as famílias e as comunidades enquanto reduz a capacidade de executá-lo.”[11]

Essa agenda de austeridade se estende por diversos países pelo mundo, inclusive o estourar de movimento de massas, como os de mulheres e o recente levante dos Coletes Amarelos na França, são expressão do descontentamento social com os ajustes econômicos e a crise de representatividade com os partidos tradicionais. Aqui as mulheres acabam sendo a principal expressão, porque a crise se abate diretamente na localização delas no mundo do trabalho e da reprodução, ao passo que se choca com a ideia de integração e reconhecimento por dentro do próprio capitalismo. Os anseios por igualdade se chocam com uma situação cada vez mais desigual.

Aqui se encontra uma contradição no manifesto das 99% quando afirmam, “o neoliberalismo recruta mulheres em massa como mão de obra assalariada ao redor do globo. Esse ideal, no entanto, é uma fraude, e o regime laboral que ele deve legitimar é tudo menos libertador para as mulheres” depois, “ E, claro, muito do trabalho assalariado feminino decididamente não é libertador […] Em contrapartida, o que esse trabalho oferece de fato é a vulnerabilidade ao abuso e ao assédio”.

Indubitavelmente, o capitalismo explora e destrói o corpo feminino, e usa do machismo para levar para o ambiente de trabalho o assédio e o abuso como formas de controle e desmoralização das mulheres. Entretanto, se de fato o trabalho barato e precário não é um fator, como elas mesmo dizem, “suficiente para pagar por autonomia, auto-realização ou oportunidade de adquirir e exercitar habilidades”, por outro a entrada da mulher no mercado de trabalho, com as contradições contidas nele, foi um fator histórico que motorizou o desenvolvimento das lutas feministas e colocou a mulher no mundo produtivo, possibilitando que estas se tornem sujeitos atuantes e potencialmente revolucionários. É necessário ver a dialética nesse movimento de proletarização da mulher.

Dessa reflexão deriva como o manifesto das 99% entende o conceito de trabalho para o marxismo e qual a contradição fundamental do capitalismo. Nenhum trabalho no capitalismo garante a realização humana, a força de trabalho é explorada e por isso estranhada, como diria Marx[12]. Aquilo que define o ser humano é justamente sua capacidade consciente de trabalho, de modificar o mundo e transformar o meio para atender as suas necessidades, de exteriorizar sua força criadora. Na mão humana a matéria muda de qualidade, a madeira pode se tornar uma cadeira ou um barco ou o que desejar, e justamente essa capacidade criativa e de agregar valor as coisas, que o capitalismo explora. Nesse sentido, o homem não desenvolve suas capacidades segundo sua vontade, mas sim de acordo com a necessidade do capital e da produção de mercadorias, que justamente tira do homem suas capacidades mais humanas e obriga o trabalhador a funções degradantes, repetitivas e alienantes. Onde tudo que ele produz não é dele, mas expropriado por outra classe.

Esse processo é duplamente alienante para a mulher, que precisa vender sua força de trabalho diretamente para os capitalistas em algum emprego e dedicar também seu tempo e seu trabalho nos serviço domestico, improdutivo e embrutecedor. O trabalho reprodutivo domestico não desenvolve as habilidades humanas, a mulher é obrigada a cumprir esse papel devido a herança patriarcal assimilada pelo capitalismo, trabalho onde a mulher é negada como sujeito, invisibilizada. É um trabalho que ainda que seja útil ao capital para reproduzir a força de trabalho, ele arranca duplamente da mulher sua capacidade de trabalho criador. A mulher se aliena na “fabrica” e no lar.

A tradição da revolução Russa defendia que o trabalho reprodutivo deveria ser socializado, e com o desenvolvimento das forças produtivas, a robótica, cada vez mais os homens poderiam ocupar menos tempo com trabalhos embrutecedores e repetitivos e empregar suas forças ao “ócio criador” a serviço de desenvolver a humanidade, rompendo também a divisão entre o trabalho manual e intelectual. De modo que, claramente não se trata somente da busca por melhores condições ou tempo para as funções reprodutivas por dentro de uma sociedade baseada na exploração, como grande parte do reformismo faz.

Nesse sentido, no que tange ao debate com as 99%, que apresentam uma política “por arranjos sociais que priorizem a vida das pessoas e os vínculos sociais acima da produção para o lucro; por um mundo em que pessoas de todos os sexos, as nacionalidades, as sexualidades e as origens étnicas combinem as atividades de reprodução social com o trabalho seguro, bem remunerado e livre de assédio.”[13]. Mas então, a emancipação das mulheres do trabalho reprodutivo, e da exploração econômica, se daria no interior de um capitalismo “com alguns arranjos sociais que priorizem a vida”? A vida priorizada em qualquer momento do capitalismo é a da classe dominante, contra a classe explorada. E nesse instante que o Manifesto dos 99% aparenta alcançar seu limite.

Uma concepção que trabalha sob os limites impostos pelo capitalismo, mantendo a exploração, e criando uma ilusão de melhoria quando o próprio manifesto aponta a necessidade do capitalismo extrair mais mais-valia, explorar e se apoiar justamente no machismo, racismo e xenofobia. Se restringir a um “sonho reformista” de um capitalismo democrático, “para os 99%”, não seria negar a necessidade do combate ao capitalismo? E quando há os combates inevitáveis, se restringir a pauta de melhores condições de vida, não seria frear os anseios revolucionários por construir uma nova sociedade sob novas bases econômicas e sociais? São perguntas pertinentes a um feminismo anticapitalista que se pretende construir uma outra sociedade.

Deslocamento do eixo de onde se insere a contradição do capitalismo

Assim, o manifesto parece deslocar o eixo central do capitalismo da exploração do trabalho e da contradição entre o interesse entre duas classes antagônicas: “No entanto, a divisão entre obtenção de lucros e produção de pessoas aponta para uma tensão arraigada no cerne da sociedade capitalista”[14]. Ainda que na aparência da sociedade, essa contradição exista, já que as pessoas querem tempo para viver, cuidar de suas famílias e se desenvolver, ela é expressão da contradição fundamental entre interesses de classes – da essência – ou seja, como vai se organizar o trabalho, a serviço de quem essa força social criadora vai estar.

Como dito anteriormente, o trabalho reprodutivo não é onde a humanidade se realiza como tal, mas sim no trabalho produtivo (e improdutivo em alguns casos), usurpado pelo capital. Trata-se então, de tira-lo – o trabalho – dos freios da burguesia: a luta não pode se restringir a “mais tempo para as funções reprodutivas”, mas sim acabar com essa divisão.

A contradição central do capitalismo não esta entre o trabalho reprodutivo e a gana de lucro – esta contradição é a da superfície – mas sim entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção: “em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De forma de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam em seus grilhões”. [15]

Dentro das relações de produção, essa contradição se expressa no choque entre duas classes antagônicas, os trabalhadores e a burguesia; entre essas duas classes há classes intermediárias da pequena burguesia, campesinato e pobres urbanos, base na qual muito dos movimentos sociais se constroem, contudo nenhum desses setores intermediários conseguem ter uma saída independente à burguesia, somente os trabalhadores, justamente pela sua posição dentro da produção. Nesse sentido, se coloca o imperativo da unidade entre o movimento operário hegemonizando os movimentos sociais e identitários.

Essa inversão feita pelo feminismo dos 99%, de onde se concentra a força de dominação do capitalismo, esta mais expressa aqui: “o trabalho assalariado para a obtenção de lucro não poderia existir sem o trabalho (na maioria das vezes) não assalariado da produção de pessoas. Portanto, a instituição capitalista do trabalho assalariado esconde algo além do mais-valor. Esconde suas marcas de nascença – a mão de obra de reprodução social que é condição para que ela seja possível”. Pois, se de fato para o trabalhador individual seguir sendo explorado a burguesia se utiliza desse trabalho reprodutivo não pago, por outro, é do trabalho produtivo que o capitalismo extrai a mais-valia: a manutenção do trabalho reprodutivo só existe porque a sociedade se organiza de acordo com a produção de mais-valia da exploração da produção do trabalhador.

A base da sociedade é a produção e dessa exploração que decorre a força da burguesia. O trabalho reprodutivo é parte da obtenção de lucros de forma indireta, mas não é a base fundamental da exploração e do domínio burguês. Inclusive, em determinados momentos políticos e econômicos a burguesia poderia dar concessões que diminuíssem o peso do trabalho reprodutivo, sem tocar na questão da exploração do trabalho e da propriedade privada.

Justamente por isso, as batalhas da tradição revolucionária, de Leon Trotsky, Lenin, Rosa e outros, foram justamente de emancipar e libertar o trabalho das cadeias da propriedade privada e da exploração burguesa para que a humanidade se reencontre com sua capacidade consciente de criar, e transformar o mundo, seja por motivações do “estomago ou da alma”. Desenvolvendo as ilimitadas capacidades humanas, para uma sociedade sem classes de livres produtores associados.

Capitalismo democrático ou revolução socialista

Sem duvida a greve de mulheres nos últimos 8 de março são uma novidade histórica, “ao fazer greve, as feministas assumiram uma forma de luta identificada com o movimento de trabalhadores e a remodelaram”[16], nos último meses sugiram greves de categorias femininas, como as professoras de São Paulo, dos EUA e Mexico, também as trabalhadoras das maquiladoras mexicanas, uma resposta a crise econômica que as atinge. Debater para onde vai essa força é tarefa fundamental do feminismo marxista e anticapitalista.

Confluindo com o balanço de que o neoliberalismo foi parte de tirar o caráter insubordinado do movimento feminista da década de 70 e afastá-lo do movimento operário, essa reaproximação chama ainda mais atenção, somado ao fato de colocar certo desafio às burocracias sindicais tradicionais. É também resultante do próprio limite do neoliberalismo em crise, que no movimento de mulheres se traduz na decadência do feminismo liberal – expresso centralmente na derrota da Hillary Clinton em 2016 – que abre espaço para novos feminismos com outro viés de classe.

O manifesto dos 99% propõe-se a construir um feminismo anticapitalista e contrario ao feminismo liberal, mas nos resta a pergunta, quem seria os 99%? E contra que ideia de capitalismo estão lutando? O feminismo dos 99% retoma a classe trabalhadora como interlocutora e ator social, contudo não a coloca como sujeito central – sabendo de toda a heterogeneidade e mudanças que houveram no mundo do trabalho –, na realidade a dilui como um movimento, dentro de vários outros movimentos, se afastando da ideia de hegemonia operária. É clara a influencia do movimento Ocuppy Wall Street: os “99% contra o 1%”, que trouxe uma nova ideia de “socialismo”, adequado à classe média e a pequena burguesia, na qual o problema do capitalismo se encontraria apenas nos “super ricos”, na hiper financeirização.

Nessa ideia de socialismo não há classe revolucionária nem necessidade de revolução, mas sim a visão de uma sociedade dividida em rendas e a busca maior igualdade social e acesso a serviços públicos como se fosse apenas um problema de política de Estado. Ao mesmo tempo que estrategicamente, acaba se subordinando as lutas sociais a busca por políticas estatais, de pressão e claro, ao calendário eleitoral. No decorrer do manifesto fica claro uma divisão entre Estado e capital financeiro, como se o neoliberalismo fosse uma política do capitalismo, e não uma faze do mesmo, de um imperialismo mais voraz, monopolista e espoliador. Conservando uma ilusão no Estado, como se ele não fosse um agente de classes a serviço do capitalismo.

Como vemos aqui: “transformando instituições estatais que deveriam servir ao público em serviçais do capital. Por razões sistêmicas, portanto, o capitalismo esta destinado a frustrar as aspirações democráticas, a esvaziar direito, a enfraquecer poderes públicos e a gerar repressão brutal, guerra intermináveis e crises de administração governamental”[17], e aqui “O capitalismo neoliberal, financeirizado, é algo completamente diferente. Longe de empoderar os Estados para estabilizar a reprodução social por meio de provisões públicas, ele autoriza o capital financeiro a disciplinar Estados e povos nos interesses imediatos dos investidores privados”[18].

Essa concepção transforma o anticapitalismo, na realidade em anti neoliberalismo, onde na pratica buscam um capitalismo mais democrático e humano, com políticas estatais, mas mantendo a mesma estrutura de classes. Dessa forma elas transferem a disputa para dentro do Estado, como se bastasse mudar a política governamental. Essa concepção se ajusta com a de Bernie Sanders, possível candidato pelo partido Democrata nos EUA que hoje é uma referencia a juventude que procura alternativas de esquerda.

Ao contrario dessa visão, que ainda que muito critica, leva à reforma como conclusão, defendemos um feminismo socialista e revolucionário, o qual não vê mudança por fora do combate e nem tem ilusões em saídas mediadas e graduais. E capitalismo já mostrou seu estado de falência, mas também seus métodos ardilosos de cooptação e desvio, os quais os novos partidos neoreformistas tiveram grande papel em impedir saídas revolucionárias – na Grécia como exemplo.

Um novo feminismo marxista, precisa retomar a estratégia revolucionária que busca acabar com as bases da exploração e opressão, nesse sentido atua a agrupação do Pão e Rosas, vendo em cada processo a oportunidade de intervir em um fenômenos históricos, políticos, sociais e ideológicos vivos, “a fim de desenvolver as tendências mais radicais, anticapitalistas e combativas, contra a influência do reformismo, para convergir para as massas mais amplamente exploradas. Esta é a perspectiva para a qual nós feministas, socialistas e internacionalista do Pão e Rosas lutamos . Porque uma sociedade livre de todas as formas de exploração e opressão, que hoje esmaga a vasta maioria da humanidade, não é um desejo, mas uma necessidade urgente, para uma vida que valha a pena viver.[19]

Notas:

[1] “Feminismo para os 99%, um manifesto”, p. 28

[2] Idem, p. 97

[3] Idem, p. 26

[4] Idem, p. 98

[5] “Estrategia socialista y a arte militar”, Emilio Albamonte e Matias Maiello, p. 541

[6] “Feminismo para os 99%, um manifesto”, p.98

[7] “Estrategia socialista y a arte militar”, Emilio Albamonte e Matias Maiello, p. 545

[8] “Feminismo para os 99%, um manifesto”, p. 29

[9] Idem p.112

[10] Idem p. 114

[11] Idem p.116

[12] “Em que consiste, então, a exteriorização do trabalho?

Primeiro, que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não se desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si [quando] fora do trabalho e fora de si [quando] no trabalho. […] Seu trabalho não é portanto voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele. Sua estranheza evidencia-se aqui [de forma] tão pura que, tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como de uma peste. O trabalho externo, o trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifícios, de mortificação. Finalmente, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se [o trabalho] não lhe pertencesse, como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro. Assim como na religião a autoatividade da fantasia humana, do cérebro e do coração humanos, atua independentemente do individuo e sobre ele, isto é, como uma atividade estranha, divina ou diabólica, assim também a atividade do trabalhador não é a sua autoatividade. Ela pertence a outro, é a perda de si mesmo.

Chega-se, por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente como [ser] livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar, quando muito ainda habitação, adornos, etc., em suas funções humanas só [se sente] como animal. O animal se torna humano, e o humano, animal.” “Manuscritos econômico-filosóficos” cap. Trabalho estranhado e propriedade privada, p.83

[13] “Feminismo para os 99%, um manifesto”, p.118

[14] Idem p. 109

[15] “Para a critica da economia política”, Karl Marx

[16] Idem, p.121

[17] Idem, p. 103

[18] Idem p. 115

[19] “Insurgência feminista” Andrea D’Atri – https://www.revolutionpermanente.fr/Insurgence-feministe

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