Política

DEBATE

Debate com Vladimir Safatle: a frustração antes do pleito

Iuri Tonelo

São Paulo

terça-feira 21 de agosto| Edição do dia

“Não vai haver eleições em 2018”, essa foi a tese central do livro Só mais um esforço do professor de filosofia da USP Vladimir Safatle de agosto de 2017. A tese levava em conta que, além de golpes de estado, também modificações abruptas das “regras do jogo” ou a retirada de cena de candidatos eram formas de impedir eleições regulares. Desse ponto de vista, é preciso dizer que Saflate foi feliz no seu prognóstico e também no sentido político do livro, de denúncia da degradação mesmo do direito elementar do sufrágio universal, no que resta de democracia liberal no Brasil. Mas o acerto passado por vezes ofusca a visão da dinâmica atual.

Em seu último artigo na Folha de São Paulo que trata do cenário político, “Frustração pós-eleitoral”, Safatle peca em alguns aspectos da análise: baseado em ver as ruínas da Nova República, não tira as conclusões corretas de por onde esse prédio vai desabar, e se vai ser de acordo com as vontades do trator da Lava Jato.

Primeiro, ao que indicam a dinâmica das pesquisas atuais, Safatle erra no prognóstico eleitoral, e isso nesse caso diz bastante sobre seu erro de análise da situação atual: o que se aventa é o cenário francês (do segundo turno entre Macron e Marine Le Pen), em analogia com o que seria um segundo turno Alckmin e Bolsonaro. O “plano perfeito” seria colocar Bolsonaro junto a Alckmin, apenas para eleger o tucano com a legitimidade de que se evitou a catástrofe. Mas as últimas pesquisas CNT/MDA e Ibope só confirmam a primeira “frustração da Lava Jato”: Lula aparece com 37% das intenções, aumentando ainda mais seu percentual de votos, o que mesmo no cenário de aceitar a proscrição de Lula e tentar transferir votos para Haddad deixa o PT em condições reais de ir para o segundo turno.

Quando dizemos que esse erro de Safatle “fala mais”, é porque o que está em jogo aqui não é a precisão das previsões eleitorais num país em que reina a “crise orgânica” (para usar os termos de Gramsci), uma crise de hegemonia enorme, na qual todos os cenários eleitorais se mantém abertos, inclusive as manobras de tipo golpista para colocar Alckmin no segundo turno. O que está em jogo é ver para além desses prognósticos e das mudanças forçadas que podem vir, buscar enxergar as tendências mais profundas que se expressam nas grandes massas.

Nesse sentido é claro que quase 40% do país dizendo que quer votar em um candidato preso (antes do último crescimento já era cerca de um terço da população) expressa bastante a postura das massas diante dessas eleições, mesmo com toda a eleição tutelada por juízes, com suas múltiplas manobras, que estão dispostos a romper com tratados com a ONU em nome de “servir a causa”. Nesse sentido, expressa um pouco - e de forma distorcida - a relação de forças entre as classes, elemento fundamental a qual devem buscar nossas análises.

Independente das outras manobras que ainda podem vir, do tempo de TV que Alckmin poderá desfrutar, de novos escândalos, de ameaças, aviões que caiam e um longo etc que só a imaginação dos juízes com vocação de ditadores do Brasil poderia expressar, o fato é que a República de 1988 não desabou da forma como queria a Lava Jato. Se como produto da operação Mãos Limpas da Itália a consequência indesejada foi a emergência de Berlusconi, no caso brasileiro a derrocada da Nova República apresenta uma dupla indesejada: o crescimento de Lula nas pesquisas e a manutenção de Bolsonaro como direita raivosa - e desgovernada, completamente incapaz de conter o movimento operário, a não ser com medidas violentas e imprevisíveis, se assume a presidência - nas pesquisas eleitorais.

Por isso Safatle olhando para o pós-eleições, não vê que na atualidade a frustração dos Lava Jato e cia pode ser parte da tônica: depois de todo a “ofensiva”, toda a energia dispendida no impeachment, o ponto culminante da história será um segundo turno Bolsonaro e Lula (representado por Haddad)?

A partir disso, é fundamental sacar duas conclusões: de uma forma muito distorcida, setores amplos de massas no país não aceitam a narrativa do golpe – por isso de 40% de intenções de voto em um candidato preso, o que em si é um importante fenômeno político. De outro lado, a esquerda deve se preparar para que possa se desenvolver novamente no país uma forma mais fortalecida de um “reformismo” lulista.

Ou melhor, um reformismo senil, já que é evidente que as condições que o PT teve de boom das commodities ou fluxo de capitais advindos dos países no centro da crise de 2008, permitindo ampla política de crédito etc., foram por água abaixo. É um país em crise, com um cenário internacional trumpista difícil, ainda mais dependente do agronegócio, colonizado por um congresso arqui-conservador e um judiciário que nem esconde sua faceta golpista.

Partindo disso, podemos abordar que Safatle vê uma equação entre “frustração, desidentificação e revolta”. O principal erro na equação, que desprepara as massas trabalhadoras para enfrentar a situação futura, é não abordar a possibilidade de revitalização senil do PT. A frustração não será só das massas, mas talvez também dos que imaginavam o cenário perfeito para os ajustes e a desidentificação não se dá apenas como descolamento da política, mas como polarização mais intensa do país.

E a revolta? Está correto Safatle ao visualizar que o cenário futuro invariavelmente será conflituoso, com ampla possibilidade das massas trabalhadoras entrarem em ação, mas no caminho da revolta será preciso ultrapassar o PT, que ainda busca arrancar num último fôlego para o renascimento das “ilusões perdidas” do lulismo. Preparar-se para o futuro é lidar com essa questão: daqui que levantar questões programáticas como o não pagamento da dívida pública, questionar a lei de responsabilidade fiscal e as formas orgânicas de subordinação do país aos monopólios estrangeiros é parte fundamental de se preparar e enfrentar o reformismo senil petista, com choque entre as aspirações com a ilusão lulista de retornar ao passado e o efetivo plano do petismo caso vire governo que passaria necessariamente também por ajustes.

Além disso, será preciso transpassar os próprios limites da esquerda que se propõe alternativa ao PT, como o PSOL, que muito distante de ler a situação corretamente, mais ainda de defender uma política correta e coerente, não está nem mesmo disposta a denunciar de forma clara e contundente, aproveitando os espaços dos debates eleitorais, os marcos golpistas em que se dão essas eleições, com absurdos de manter preso Lula e impedir o direito da população de votar em quem quiser. Uma colocação que deveria ser elementar para Boulos e demais parlamentares, já que até indiscutíveis apoiadores do golpe, como Demétrio Magnoli, escrevem na Folha títulos como “eleição tutelada por juízes”.

Antes da frustração pós-eleitoral com a direita tradicional, nos preparemos para lidar com o reformismo senil e a direita raivosa, afinal, a máxima segundo a qual “não haverá eleições” indicava possibilidades que ainda estão bem inscritas na realidade atual. A frustração pode vir antes do pleito, e atinge distintos setores dentro dessa equação.




Tópicos relacionados

Eleições 2018   /    Política

Comentários

Comentar