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De quarentenas e de infectados: um ponto fora da curva na luta contra o COVID-19

Gilson Dantas

De quarentenas e de infectados: um ponto fora da curva na luta contra o COVID-19

Gilson Dantas

Na Idade Média, não se sabia sequer porque ocorria uma epidemia. Sabia-se, basicamente, que era contagiosa, que as mortes vinham em massa. Nada mais natural e previsível , portanto, que simplesmente recorressem ao isolamento, isto é, à quarentena indiscriminada, o chamado, hoje, “isolamento social”, bloqueio de cidades etc.

Hoje existe a possibilidade – que os governos tipo Bolsonaro não querem executar – de testes do COVID-19 em massa, portanto de se saber quem são efetivamente os contaminados e de planificar medidas impensáveis em outros tempos. E é por conta disso que passa a ser uma desproporção, ou um medievalismo, a quarentena indiscriminada.

Aplicado o teste, massivo, aí e somente aí, será possível planificar a quarentena dos infectados. E, por sua vez, o isolamento dos não-infectados porém mais vulneráveis [pessoas com doenças prévias por exemplo].

O problema da quarentena proposta hoje por quase todo governo é que ela não é solução para o povo pobre, para a classe trabalhadora em geral.
Examinaremos isso ao final.

Por enquanto, vejamos esse problema a partir do que tem sido a abordagem da pandemia em termos sanitários, em sua condição de crise sanitária do capitalismo.

Em primeiro lugar, sim, é clara a necessidade de medidas médico-sanitárias e trabalhistas que são urgentes e devem ser defendidas por toda a esquerda consequente.

Por exemplo, a defesa da duplicação dos leitos de UTIs, abertos à família trabalhadora, a distribuição de máscaras e desinfetantes, afastamento do trabalho e atestado médico para todo trabalhador infectado ou apenas com sintomas, também medidas como 100% de aumento das hora-extra para os trabalhadores da saúde; contratação [além da recontratação] em massa de trabalhadores de saúde, seu treinamento imediato, para que todos, ao final, trabalhem menos horas, em esquemas de plantões curtos.

Ao mesmo tempo, a garantia da proteção médica, de equipamento de segurança para todas as categorias obrigadas a trabalhar [começando pelos hospitais], o confisco estatal das unidades privadas de saúde e sua centralização, a imposição de que os planos de saúde atendam a todos imediatamente, remuneração digna para o trabalhador ficar em casa com seu filho escolar e várias outras medidas médicas e trabalhistas que tem sido defendidas, são absolutamente necessárias. E testes massivos e gratuitos para o COVID-19..

Fora de questão que bandeiras dessa natureza são imediatas.
Mas tentemos ampliar a perspectiva.

O que pode ser feito a partir de uma pergunta bem simples: se o vírus infecta mil pessoas e apenas uma pequena parte apresenta sintomas e uma parte menor ainda poderá ir a óbito, o que esse fato epidemiológico nos demonstra?

Se a própria medicina burguesa nos apresenta a ideia de uma população de risco ou mais vulnerável, mais susceptível de adoecer quando o vírus entra no seu corpo, o que essa ideia nos faz pensar em termos de outras medidas e de prática política contra o COVID-19??

Ou por outra: se o vírus necessita do terreno biológico favorável para se desenvolver, se ele não tem o poder de adoecer e/ou matar a maioria esmagadora das pessoas que ele infecta, o que é que Claude Bernard, teórico do terreno versus o vírus, nos sugere?

Exatamente: nos leva à conclusão de que analisar o quadro dessa epidemia do coronavírus a partir da perspectiva do vírus, a partir, essencialmente, do empoderamento total do vírus, equivale a ignorar solenemente que sem o terreno – a chamada vulnerabilidade biológica – o vírus não é muito mais que um oportunista biológico. E que só pode agir se nosso organismo abre uma janela de oportunidade. Isto é, se o nosso organismo está enfraquecido.

E esse enfraquecimento – jamais esqueçamos disto - é social, socialmente construído.

Por assim dizer, não se trata do vírus e sim do binômio dialético vírus-hospedeiro.

Continuemos. Cientificamente falando, é totalmente cabível a seguinte pergunta: entre uma população desnutrida, carente - na sua dieta cotidiana - de vitaminas e minerais, de proteínas de alto valor biológico, de cálcio, de oligominerais, e que apresente alto nível de estresse do trabalho e outra população com boa qualidade de vida e de alimentação, em qual delas o vírus vai encontrar mais ambiente para expressar sua infecção?

Onde ele vai poder ser mais letal? E as pessoas, milhões, que já vivem sob racionamento de água e sem saneamento ou espaço vital em suas casas, qual sua chance [de morbimortalidade] comparada com a dos privilegiados dos bairros ricos? A aglomeração dentro do mesmo espaço doméstico [com um só banheiro] é inevitável nas favelas.

Em uma palavra: se um paciente do coronavírus se infecta e chega à UTI e se outros nove se infectam, e até apresentam quadro clínico, mas não chegam à UTI, qual a chave estratégica para entender esse enigma?
Em princípio, isso não é difícil de entender.

No entanto, nem sempre isso parece entendido, de fato, no real, por exemplo, em textos de esquerda sobre o COVID-19. Quanto à burguesia, nem pensar, seu entendimento da crise engendrada pelo capitalismo é interesseiro, manipulador e impotente. Nunca será social. A doença para a classe dominante é o vírus. E médicos são formados em massa com essa concepção. Assim é construído o senso comum médico.

Na esquerda, as medidas contra o COVID-19 focam na crise sanitária, na crise política, na econômica, e são propostas medidas contra o coronavírus que, embora no geral corretas, não costumam ir até o final [na questão dos infectados] justamente porque não são calcadas até o final, na visão social da doença.

Um exemplo bem claro disso é o do isolamento, isto é, a quarentena indiscriminada.
O isolamento indiscriminado [da OMS] ou o contrário disso, na proposta de Bolsonaro, o sempre mal definido “isolamento vertical”, ambos são problemáticos, nenhum deles encara cientificamente a pandemia.

Padecem de dois problemas que são deixados de lado; não respondem a duas perguntas centrais.

1) Como planejar qualquer tipo de isolamento SEM testes massivos do COVID-19 [questão amplamente escamoteada por governos capitalistas como Bolsonaro]?
Esta pergunta tem sua resposta lógica e efetiva na campanha do Esquerda Diário e de toda a rede internacional de diários da qual o ED faz parte, por testes massivos já.

Que aliás, no Brasil, não têm sido liberados sequer para os trabalhadores da saúde.
Mas, uma vez realizados os testes, que fazer com seus resultados?

Esta vem a ser uma das questões mais mal respondidas da atual crise do COVID-19:

2) Uma vez feitos os testes massivos, como será feito o isolamento do paciente infectado pobre [os contingentes de trabalhadores mais explorados pelo capitalismo nos quais apareçam milhares de infectados]?

E é aqui, precisamente no caso do infectado que vive em más condições, que a esquerda nem sempre fica bem localizada.

Ou formulando como pergunta: qual a proposta que a esquerda em geral tem feito para os infectados pobres, os milhares para os quais o “isolamento em casa” não é resposta?

É só ler as publicações da esquerda. De uma maneira geral, o que aparece é que aqueles contingentes se tornaram um ponto fora da curva no programa geral da esquerda.

Para o governo, já sabemos, a pessoa infectada vai para casa.
Esse é o “isolamento” anticientífico proposto: em uma postura sanitária chocantemente de classe, não quer levar em conta que metade da força de trabalho [empregada ou não] sequer tem casa com ventilação ou minimamente salubre, e/ou se for para sua casa, irá promover a transmissão do vírus para familiares e comunidade. A OMS é cúmplice dessa política, mesmo tendo que reconhecer o obvio, que o vírus está se alastrando para as famílias [através do tipo de isolamento que ela, a própria OMS, propõe].

Esse tipo de “isolamento”, na verdade, é politicamente bem funcional, já que desobriga o Estado dos seus deveres dentre os quais está - nessa crise do COVID-19 - assegurar condições coletivas e salubres para o isolamento das camadas trabalhadoras pobres, infectadas, que sofrem privações.

Que fazer com esses milhares de infectados cuja casa não tem condições, comida e nem espaço para isolar ninguém?

Do jeito que essa questão é posta, e “respondida”, o que ocorre no real, na prática, é que os pacientes infectados da classe trabalhadora, os mais explorados/desempregados, ficariam ao leu, abandonados à própria sorte, sem isolamento coletivo e estatal.

Arriscamos a opinião de que essa falha programática tem a ver com uma particular [e reducionista] concepção da doença e da medicina.

Mas qual a resposta a esse problema concreto?
Somente pode vir a partir da concepção que entende a doença como uma construção social.

Trata-se de garantir – a partir de testes massivos do COVID-19 – o isolamento coletivo e de qualidade, a partir do Estado, para aquele contingente que está infectado, mas que vem de um ecossistema urbano baseado em privações – especialmente nutricionais - e que, por isso, adoeceu [1].

E levando essa lógica até o final, para além da razão hospitalocêntrica, isso nos impõe a luta imediata pela requisição de spas, resorts, clubes, grandes hotéis de alto padrão para onde aqueles contingentes iriam, com alimentação farta e de qualidade e lá ficariam – com repouso, lazer, trabalho coletivo na manutenção do hotel – e saíram apenas com carga viral zerada e, por fim, descansados e nutridos.

Observe-se que aqui não pode ser hospital e nem “hospital de campanha”, nem estádios de futebol, nem casas vazias, muito menos “navios para jogar os favelados doentes” como a burguesia andou cogitando outro dia. Nós estamos lidando com trabalhadores – debilitados em sua saúde ou diretamente desempregados pelo capital – e para os quais não pode ser opção receber tratamento de “segunda classe”.

A burguesia se isola em sua mansão e o pobre vai para “hospital de campanha” é uma opção cujo efeito é sinistro, convenhamos. Um efeito de classe.

Na concepção hospitalocêntrica, o paciente fica jogado em uma cama de ambulatório, uma cama ao lado da outra, ou em “hospital de campanha”, em um ambiente infectado por bactérias e superbactérias, comendo um tipo de ração ridícula e, literalmente, se converte em joguete passivo sem poder opinar sobre nada que os médicos façam com ele.

Observe-se que nenhuma organização médica propõe nada diferente dessa concepção hospitalar de quarentena. E, no real, sequer propõe qualquer coisa para os infectados.

Ora, nós estamos falando dos mais explorados, dos mais oprimidos, daqueles que vivem em favelas e cortiços, e cuja vida de privações abriu seu corpo ao vírus.
Beira ao criminoso cogitar hospitalizá-los [no sentido acima citado] quando estão apenas infectados, eventualmente com sintomas leves e, sobretudo, em um contexto onde a burguesia dispõe de grandes hotéis, clubes, spas e resorts que podem, perfeitamente, abrigar aquele contingente de infectados.

Na verdade, da mesma forma que é absurda a ideia burguesa de só testar quem está mal, quem apresente sintomas, é igualmente absurdo, socialmente irracional, devolver o infectado sem recursos para o mesmo ecossistema urbano que o fez adoecer; pode ser aceitável para a ordem médica [que não tem se pronunciado contra esse tipo de isolamento da OMS], pode ser natural em quem só pensa no binômio vírus-doença, ou hospital-doença, mas esse procedimento [do “vá para casa”] vai provocar mortes, muito mais mortes e mais contaminação em cascata.

Se o objetivo é salvar vidas, deve-se lançar mão de medidas econômico/trabalhistas – como licença remunerada, salário para quem não tem renda – e sociais .
Mas também reconhecer que uma medida social incontornável é retirar o infectado do ecossistema que engendrou a doença e garantir a ele a chance de não só se livrar da carga viral [com esse isolamento] como, ao mesmo tempo, sair repousado, nutrido, depois de um ciclo de lazer, trabalho e gestão coletiva da sua unidade de hotelaria sanitária, na falta de outra palavra.

Conscientizar – como agitação política imediata e também propaganda – a respeito desse isolamento coletivo público, gratuito e de qualidade equivale, também, a elevar o nível do debate programático e estratégico. Partindo, ao mesmo tempo, de um questionamento à concepção usual, pouco social, da doença.

Quem não sabe da impossibilidade real de isolamento nas comunidades pobres? Que alternativa existe senão garantir aquele isolamento qualitativo, coordenado por equipes de saúde e com controle coletivo.

Não se trata apenas do conceito de espaço hospitalar de isolamento. E sim de uma concepção mais revolucionária de isolamento coletivo, uma abordagem social da quarentena, que transcende os paradigmas da velha medicina burguesa [que foram, inclusive, aplicados amplamente na gripe chamada “espanhola” e tantas outras, com seus acampamentos de isolamento de enfermos, totalmente insalubres].

Essa concepção aqui defendida poderia ser usada na França, na Itália, por exemplo, que continuam enviando pacientes infectados para moradias insalubres, já que seguem, invariavelmente, a surrada cartilha e o velho paradigma biomédico da medicina do capital.

Defender tais medidas, na perspectiva da revolução proletária, do programa transicional, não anula e, ao contrário, reforça, hoje, o outro lado da mesma questão: apenas medicalizar [lutar por medidas médicas], deixa de certa forma de lado, um potencial para a construção de uma força material ainda mais poderosa, com muito mais ódio de classe contra esse sistema.

Um sistema que não apenas não oferece UTIs etc, não apenas não nos defende medicamente da doença instalada, que não faz testes em massa, e que destrói o SUS, vem a ser o mesmo sistema que, acima de tudo, ENGENDRA doenças de massa, ao impor privações e carências materiais à classe trabalhadora. E que depois vem impor que os pobres, uma vez infectados, fiquem “isolados” e debilitados nas suas comunidades.

Afinal, de onde vêm as chances do vírus de provocar mais morbi-letalidade? Das condições de vida e de trabalho no capitalismo. Também é capitalista, burguesa, essa concepção de isolar o pobre na comunidade pobre. Ou cogitar de depositá-lo em locais deploráveis, em tendas, por exemplo, como propõe Dória e, tantos outros, Brasil afora.

Então por que não está sendo amplamente questionado – inclusive pela esquerda – esse isolamento do povo pobre infectado que vem sendo feito na base de devolver cada infectado para sua casa? Por que é tão difícil entender a necessidade de um isolamento como o que está sendo proposto aqui, para recompor a saúde e zerar a carga viral?

Por acaso é difícil de entender que a replicação bem sucedida do vírus em determinada população depende de que o capitalismo siga de pé, impondo socialmente, que a classe trabalhadora se torne, como classe explorada, a grande “população de risco” e pasto para o coronavírus? Ou que isso é assim porque a classe trabalhadora está privada de alimentação que é base para a resistência biológica [alimentação de alta densidade nutricional], mas também porque é obrigada a viver más condições de trabalho, de estresse, de habitação, de transporte e de repouso que também destroem a saúde e a resistência biológica?

A necessidade de lutar, aqui e agora, para garantir a solução prática para o contingente de infectados que não pode voltar para suas comunidades, é uma demanda social contra uma doença que é socialmente construída. [E este é um debate que deveria ser feito pelos estudantes das escolas de saúde pública e de medicina].

Portanto, temos que exigir testes massivos, mas, ao mesmo tempo, a luta para que o trabalhador infectado tenha à sua disposição hotéis de alto padrão, preparados para uma acolhida e um isolamento de qualidade, que reconstrua a resistência biológica contra o patógeno.

E, ao mesmo tempo, a luta para que os recursos que seriam gastos na falsa dívida pública, que deve ser sustada, sejam voltados para a contratação em massa dos desempregados para projetos de construção de casas [e ocupação das casas vazias] nas quais eles irão morar, com saneamento, água corrente e transportes, uma vez construídas essas casas.

Para toda família que apresente um caso clínico do corona, além da oferta daquela quarentena pública para o enfermo, em hotéis e spas de alto padrão, também seria garantida, para a família, uma cesta básica imediata e durante todo o ciclo do coronavírus, na base de alimentos de grande qualidade nutricional tipo ovos, leite, manteiga, fígado, frutos do mar à escolha da família. E suspensão das contas de água, telefone e luz por um ano.

Além de remuneração de dois mil reais para o trabalhador desempregado e para aquele que estiver em isolamento ou que perdeu sua fonte de renda por conta da quarentena. Defendamos um salário quarentena de 2 mil reais.

A proposta de bandeiras concretas nessa direção politiza e acentua a ira da família trabalhadora com relação ao governo e ao sistema, no sentido de se dar conta, na luta, do quanto a doença é construída a partir das suas privações e carências sociais e que, portanto, se deve lutar por essas medidas, lado a lado com a luta imediata pelas UTIs e, nos hospitais, proteção com equipamentos sanitários para todos e menos horas de trabalho, lado a lado com testes massivos.

É muito funcional, politicamente, para o capitalismo, que a massa trabalhadora continue acreditando na ideologia do senso comum médico de que a doença se reduz ao vírus e que isso não tem a ver com a forma miserável de vida e de trabalho [e desemprego] das grandes massas. Mandar o trabalhador infectado para o isolamento lá onde as condições sanitárias e sociais sejam pró-vírus é, por isso mesmo, uma medida antioperária. Que tem a cara da OMS [sempre atravessada por conflitos de interesses] e também da concepção do sanitarismo médico dominante

Se o terreno extra-hospitalar é a origem do mal, que essa esfera seja também politizada como já fazemos com as demandas por médicos e assistência médica.
Esse é o ponto fora da curva no combate de boa parte da esquerda ao coronavírus e a todas as doenças de massa, construídas, sem exceção, socialmente.

Não podemos nos prender ao senso comum médico que quando pensa em pandemia não transcende a visão do velho tipo de quarentena em casa. Tenhamos consciência de que o senso comum médico não é neutro e, portanto, nem sempre é correto. Afinal é essa mesma ordem médica que vem medicalizando a subjetividade [psiquiatria] e é a mesma que, contra todas as evidências cientificas, não promove a pesquisa clínica de medicamentos de grande potencial terapêutico que estão sendo usados – vários deles – em outros países contra o COVID-19 [mas que não dariam patente], a mesma ordem que continua acreditando na inocuidade do procedimento médico de enfiar isótopos ou contraste radioativo no nosso sangue [2] ou praticando maciçamente a cesariana sem qualquer crítica. E que leva adiante tais procedimentos sem qualquer debate público, sequer entre os trabalhadores da saúde. Propomos que os trabalhadores da saúde debatam a proposta de isolamento dos infectados pobres em outras bases, distintas do isolamento indiscriminado e sem testes massivos, que é levado adiante hoje, com apoio da ordem médica.

Por sua vez, não custa insistir, o próprio marxismo precisa ir adiante: metodologicamente, não pode separar a doença, e as viroses mais graves, da miséria social e alimentar da família trabalhadora, justamente do elemento que engendra aquela enfermidade. Não pode apenas medicalizar.

Sim, primeiro há que oferecer toda a assistência médica necessária [e urgente] de ventilador mecânico a testes massivos de detecção do vírus e de controle do SUS pelos trabalhadores.

Mas, ao mesmo tempo, é preciso enxergar, em nome da totalidade dialética homem-natureza, que a doença é um produto social, um engendro a partir das condições miseráveis de vida e de privações para, então, na sequência, este fenômeno social, finalmente, tornar-se um fenômeno médico. Essa é a lógica ou história natural da doença.

Nosso organismo está imerso naquilo que comemos ou deixamos de comer, no ar que respiramos, no flúor venenoso [3] que vem na água que bebemos, no ambiente poluído e estressante do trabalho, no péssimo transporte urbano, na iatrogenia de determinados procedimentos médicos e na dinâmica de todo tipo de estresse que as relações sociais e de trabalho capitalistas nos impõem diariamente.

A incompreensão sobre a necessária oferta de medidas médico-hospitalares – estritamente falando – mas sem eclipsar a outra parte da realidade, pode perfeitamente estar por trás daquela pergunta que raramente é feita: qual o isolamento necessário para o infectado pobre?

A resposta, como se tentou mostrar aqui, não pode se prender ao médico-hospitalar. Ela é mais ampla, como a própria pergunta.

Essa pergunta é anterior aos hospitais, anterior à estrutura médico-hospitalar [esta absolutamente necessária para enfrentar essa pandemia]. E é uma pergunta que pode ser feita de várias formas: se a população de Wuhan – ou da região industrial italiana – estivesse bem alimentada e com boa qualidade e condições de vida e de trabalho, além de hospitais, a virose se espalharia da mesma forma, sairia matando do mesmo jeito?

Portanto, as medidas médico-hospitalares devem ser levadas adiante lado a lado com aquela proposta de isolamento coletivo e público de qualidade, através da requisição de grandes hotéis e sua organização e controle por trabalhadores de saúde, com o objetivo de recompor a saúde do paciente e zerar sua carga viral. São dois objetivos. Superando-se, dessa forma, a ideia médica tradicional [e que preserva traços medievais] de quarentena.

Não custa reiterar que não são coisas separadas.

Ambas se completam e uma vem antes da outra. A doença começa fora do hospital. Sem o terreno propício, sem a miséria orgânica do hospedeiro – me perdoem os fundamentalistas do micróbio – o vírus não passa de um pedaço de material genético à procura de hospedeiro receptivo. Sem a fragilidade do hospedeiro, convenhamos, aquele fragmento de RNA passa despercebido, seu poder de destruição se perde.

Lutar por aquelas medidas sociais, por centros humanizados de quarentena que restaurem a resistência biológica do paciente, deve ser articulado com medidas trabalhistas e especificamente médicas, além do fim da dívida pública para assegurar um SUS de fato universal, qualificado e gratuito imediatamente, além da estatização de toda grande empresa que tem dívida com o Estado [caso dos planos de saúde] ou que aproveite a crise sanitária para demitir ou debilitar a segurança alimentar e do trabalho da classe trabalhadora.

[1] Um médico paulista está profundamente convencido que pessoas com baixa vitamina D no organismo serão as mais propensas ao agente microbiano. Um fisiologista norte-americano [R. Peat] demonstrou que as pessoas com uma tireoide enfraquecida, um intestino inflamado e uma grande carga de hormônios do estresse no corpo [estrogênio e cortisol, por exemplo] são as mais vulneráveis à doença viral e degenerativa.

E há, por outro lado, determinados minerais-traço [como selênio, zinco], muito presentes nos frutos do mar, cuja carência crônica, para certos pesquisadores, é chave para derrubar a imunidade.

Seja como for, para além dos estudos [de V. Navarro, por exemplo] mostrando o caráter de classe de várias doenças, o fato social é que os pobres e as camadas sociais que sofrem mais privações, mais carências de alimentos de qualidade e de higiene, aquelas cujo lugar social favoreça a baixa resistência biológica serão as que mais padecerão nas epidemias e que apresentam incidência precoce de doenças degenerativas. E apresentam mais morbidade e letalidade que camadas altas da sociedade. [Sobre aquele médico paulista, ver Vitamina D, entrevista com o dr Coimbra. Acessado em: 29/3/2020. Disponível no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gwlInVno9nc ]

[2] Livro: Radiation-induced câncer from low-dose exposure: and independent analysis, John W. Gofman, 1990.

[3] Fluoride & health. Acessado em: 29/3/2020. Disponível em: http://fluoridealert.org/issues/health/

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