Opinião

LITERATURA E REVOLUÇÃO

De homens, cachorros e amor pela revolução

segunda-feira 20 de julho| Edição do dia

Sobre "O homem que amava os cachorros de Leonardo Padura"

A literatura cubana é sem lugar a dúvidas uma das mais prolíficas e instigantes da produção das letras latino-americanas. Tanto as obras contemporâneas centradas nas transformações da sociedade caribenha, ou na decadência do “socialismo realmente existente”, quanto os clássicos que marcaram o interstício do período pre e pós revolucionário, tem significado a manifestação de uma ampla e extraordinária constelação de estrelas das letras em língua hispânica. Figuras clássicas, tais como Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, Ofelia Rodríguez Acosta e José Lezama Lima são acompanhadas pelas mais contemporâneas expoentes da literatura da ilha como Teresa Cárdenas e Olga Fernández.

Entre estes últimos expoentes encontra-se o escritor Leonardo Padura. Conhecido sobretudo na América Latina e na Europa pelos seus estudos acadêmicos sobre a obra de Alejo Carpentier, e ainda mais pela sua série de romances policiais protagonizados pelo detetive da polícia de Havana, Mario Conde, Padura é autor do que pode se considerar, sem reticencias, um dos melhores romances das últimas décadas e, certamente, o seu melhor romance: O homem que amava os cachorros (El hombre que amaba a los perros). Originalmente publicada em espanhol em 2005, foi lançada no Brasil em 2015 pela editora Boitempo, com a excelente tradução de Helena Pitta. A novela segue a trajetória dos últimos doze anos da vida de Liev Davidovich mais conhecido como Leon Trótski (1879-1940), desde seu aprisionamento por Stalin no Cazaquistão em 1928, seguido do seu agitado exílio em diferentes países (Turquia, França, Noruega), até a sua morte no México em 1940 nas mãos do seu assassino, e também protagonista do romance, o militante comunista catalão Ramón Mercader (1913-1978).

As histórias paralelamente narradas de Trótski e Mercader confluem e são articuladas através de uma terceira biografia, desta vez inteiramente ficcional, que retrata a vida adulta de Iván, um veterinário e aspirante a escritor cubano. Para Iván (simplesmente Iván), a biografia de Trótski sempre resultou atrativa, inclusive sua representação como “inimigo do comunismo”, na Cuba das primeiras décadas da revolução, que lhe parecia no mínimo curiosa e extravagante. Velhas atrações e curiosidades que renasceram no fim dos anos setenta, quando em uma praia da Habana conhece por acaso Ramón Ivanovitch López (Ramón Mercader). A partir daí o livro narra em justaposição estas três biografias: Trótski, Mercader e Iván, nessa ordem de importância e de ambiente narrativo. O livro às vezes marcha de forma independente, narrando momentos passados da vida de Trótski e Mercader que ajudam tanto a desenrolar a história quanto a compreender a vida dos personagens centrais. Caminhos de vida “relativamente independentes” que quando finalmente se encontrarem terão um trágico desenlace. “Relativa independência” não só porque o encontro estará subordinado ao tempo final da vida de Trótski senão também porque estes homens, incluindo Iván, estão ligados inexoravelmente pelo amor e o compromisso a um ideal e a uma força: a revolução. Porém, estas biografias humanas estão também ligadas pelo o amor que os três personagens têm pelos cachorros.

A história da vida destes três personagens que Padura conjuga, é também a história de três revoluções: a revolução russa, a revolução espanhola e a revolução cubana, e em mesma medida e sentido, representa a história da antítese desse ideal e dessa força: a contrarrevolução. É assim que o livro percorre também pela história de três contrarrevoluções, unidas inextricavelmente pela presença de Josef Stalin (1878-1953) e pelas consequências da instauração do stalinismo como regime político que contribuiu com a desestabilização, burocratização e destruição das lutas pela revolução socialista no mundo.

Para além do extraordinário retrato de três vidas e de uma época toda, o livro de Padura tem a profundidade de entender os fundamentos centrais de personalidade de Trótski: seu gênio, suas ideias, seu inconformismo, sua coragem diante de tantas adversidades, sua sistematicidade, sua inflexibilidade, mas também seus erros humanos, demasiado humanos.

Da mesma forma, só uma leitura obtusa e simplória poderia tirar a humanidade de Ramón Mercader, longe de ser representado ao estilo de um vilão que ri a gargalhadas enquanto prepara e executa o assassinato da sua vítima, o Mercader, o verdugo, é também uma vítima. Uma vítima da contrarrevolução na Espanha e do franquismo, e vítima de um tipo de fanatismo obediente, um homem alienado e convencido de se prestar para ser peão num jogo de xadrez que, apesar da sua grande inteligência, não consegue compreender, e convencido na absoluta necessidade de acabar com a vida do "maior inimigo da revolução socialista" - segundo Stalin - aceita formar parte das fileiras da KGV onde será treinado pelo famoso comandante Kotov - quem não por acaso tomou seu codinome do grande enxadrista soviético Aleksander Kotov. Nas suas ações Mercader não está atuando como um agente da vingança e do ódio, pelo contrário ele está absolutamente convencido da heroicidade das suas ações e que seu sacrifício, porque pensa que não sairá com vida depois de ter assassinado Trotski, são nada comparadas com a necessidade de livrar a revolução mundial dos seus inimigos. A morte de Trótski é necessária, peremptória: foi ele que "minou por dentro o movimento comunista", foi ele que causou a "desunião da frente de esquerda" na guerra civil na Espanha, é ele quem difama e injuria o camarada Stalin, "o salvador do comunismo".....

No fim das contas, Mercader é só um homem, cercado pelas determinações históricas à escolha de um destino trágico, e salvo finalmente pela sua vítima, porque, e como é bem sabido, seria o próprio Trótski que nas suas últimas palavras pediria para seus guarda-costas não matar Jacques Monard (nome que tinha utilizado Mercader para se infiltrar no círculo de Trótski através de uma das suas ajudantes mais próximas). Tudo isto e muito mais, muito mais, é abordado com maestria e sensibilidade pelo escritor cubano Leonardo Padura em O homem que amava os cachorros. Título que sem dúvidas representa a totalidade humana, não só o Trotski, não só o Mercader, não só o Iván, senão também Natália Sedova, África de las Heras, Sylvia Agelof, Frida Kahlo, Ana (a defunta esposa do veterinário cubano), e tantas outras vidas que retrata Padura. Desta forma, se faz do amor aos cachorros um símbolo do amor a revolução, um símbolo de certas causas irrealizáveis, e um símbolo da própria existência: verdadeira e errática, grandiosa e vil, feliz e melancólica, mas sobretudo finitamente humana.




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