Teoria

TEORIA

De feminismos, subalternidades e revolução?

Sobre A revolução será feminista ou não será. A pele da arte feminista decolonial de Karina Bidaseca.

terça-feira 9 de outubro| Edição do dia

A revolução será feminista ou não será é um compilado de artigos onde a socióloga Karina Bidaseca aborda as práticas de três mulheres artistas que trabalham a experiência própria do exílio no que ela chama de “entre-mundos” das metrópoles e suas ex colônias. Segundo a autora, essas artistas, a cubana Ana Mendieta, a iraniana Shirin Neshat e a vietnamita Trinh T. Minha-há escrevem em seus corpos os processos de ocupação, colonização e descolonização que se libertam nesses territórios emblemáticos de conflitos geopolíticos. Produzem suas obras desde o “Sul” ou “Terceiro Mundo” geopolítico.

“Terceiro Mundo”, “Sul”, “Ocidente, “Oriente”, não são entidades monolíticas. O chamado terceiro mundo extrapola o ocidente, se localizando dentro e fora dele. (...) O Sul é heterogêneo. Há múltiplos suis (na verdade, há suis no norte) com projetos políticos anticapitalistas, antirracistas, antissexistas cujas lutas contra as opressões de raça/gênero/sexualidades/classe promovem formas de expressão artísticas e artivistas únicas. (p.19)

Dessa maneira busca recuperar as vozes e a arte dessas mulheres do ‘Sul”, silenciadas pelos feminismos do norte, historias de mulheres excluídas de um feminismo que pretende uma universalidade que ele mesmo havia criticado furiosamente. A produção do discurso colonial por parte das ciências sociais à arte feminista é a partir da omissão e o silenciamento. Um dos aportes que traz o livro, no encontro dos estudos feministas/de gênero e os estudos culturais do campo pós colonial, é o questionamento a esses feminismos hegemônicos e o questionamento aos limites disciplinários da academia que as lê com pretendida objetividade.

O feminismo, os feminismos

A pergunta que repete Bidaseca, “De quem devem ser salvas as mulheres cor de café?”, esta dirigido ao feminismo hegemônico, esse feminismo branco, burguês, heterocêntrico, ocidental, denunciado já tantas vezes pelas feministas desde os ’70, cuja crítica atravessa todos os artigos. Questiona a concepção monolítica de mulher branca, de classe média, universitária, heterossexual, e a invisibilidade das mulheres campesinas, indígenas, afrodescendentes, cujas vozes são lidas e traduzidas pela academia e pelo feminismo branco. E cita Audre Lorde [2]:

"O que fazem vocês com o fato de que as mulheres que limpam suas casas e cuidam de seus filhos enquanto vocês assistem a conferencias sobre a teoria feminista são, em sua maioria, mulheres pobres e mulheres terceromundistos? Qual é a teoria por trás do feminismo racista?" (p.50)

Não há uma experiência feminina universal – explica – muitos grupos de mulheres se sentiram excluídas de sua participação no desenvolvimento da teoria feminista. Ao feminismo ocidental se opõe o feminismo pós colonial, esse que está situado no Terceiro Mundo ou Sul (feministas negras, muçulmanas, índias, indígenas, etc.) e que busca interpretar a historia de outro modo e revisar as implicações políticas da academia “ocidental” na construção desses “outros”. Questiona que a linguagem acadêmica desse feminismo (que pretende objetividade/poder) erotiza e recoloniza os corpos não-ocidentais. Volta a frase “mulheres brancas que salvam as mulheres cor de café dos homens cor de café. De quem/é que as mulheres necessitam ‘ser salvas’?” (p.41). Representar a alteridade é por si, colonizador. Na ideia ocidental de que as mulheres de outras origens ou religiões devem ser “salvas” dos “abusos”, se jogam ideias racistas e levam a autora a discutir quais são os limites do feminismo acadêmico para pensar essa “colonialidade”.

Como explica no início, o livro se inspira na “luta de mulheres de distintos suis”, entre as quais menciona movimentos como a Marcha de mulheres originarias pelo Bem Viver e o #NemUmaAMenos. O questionamento ao feminismo hegemônico é correto, mas em um momento no qual o movimento de mulheres alcançou uma massividade histórica e impõe suas demandas na agenda política e midiática, não é abordado em profundidade nessa publicação e nos perguntamos: não temos que indagar alí, no movimento de mulheres atual os antagonismos e as alianças que conduzam ao caminho da revolução, essa que tão só se encontra enunciada no título?

As subalternas

A autora busca mostrar como as mulheres do Terceiro Mundo levam marcado em seus corpos a intersecção das opressões de raça, gênero, classe e colonialidade.

Para isso retoma a Gayatri CHh. Spivak, para pensar a subalternidade. A acadêmica índia que pertence a corrente pós-estruturalista/desconstrutivista “se inscreve na tradição feminista, ainda que tenha criticado suas versões eurocêntricas que, ao seu entender, tem silenciado as relações entra a condição da mulher nos países ocidentais e o imperialismo” [3]. Spivak, no diálogo crítico com um setor índio dos estudos pós coloniais –os Subaltern studies- tomam o termo “subalterno” que Antonio Gramsci usou para designar o campesinato do Sul da Itália.

Em seu ensaio intitulado “Pode falar o subalterno?”, responde negativamente. Dice Bidaseca:

Para Spivak, o subalterno é uma subjetividade bloqueada pelo seu exterior, não pode falar não porque seja mudo, senão porque carece de espaço de enunciação. É a enunciação mesma a que transforma ao subalterno.

Poder falar é sair da posição d’a subalternidade, deixar de ser subalterno. (...) essa postura somente se compreende quando Spivak revela sua posição: que a única opção política possível para a subalternidade é, precisamente, deixar de ser subalterno (pp. 45-46).

O problema é que o conceito de “subalterno” tem uma enorme amplitude analítica que muitas vezes tende a converter-se em uma noção catch all, que opera elegantemente nos discursos mais heterogêneos. O conceito, articulado originalmente por Gramsci, serve de orientador e articulador crítico de noções como classe, raça, nação e gênero. De algum modo, quando Gramsci escreveu “História da classe dominante e história das classes subalternas” nos Cadernos do Cárcere, enunciou o duplo interesse por dar conta das operações constitutivas das classes dominantes, em nosso caso da sequência capitalismo-colonialismo-imperialismo e descolonização (com posterior colonialismo “interno”), e dessa vez colocar o foco nos aspectos subjetivos dos colonizados. No entanto o subalterno é expressão da experiência e da condição subjetiva do subordinado e oprimido.

Raça, etnia, gênero, colonialidade, são situações de subalternidade. Mas –Se pergunta Bidaseca- Como se estabelece uma ordem entre essas opressões?

Qual é a medida exata da que dispomos as acadêmicas e acadêmicos para definir entre um proletário do primeiro mundo, homem, branco, escolarizado e uma mulher de terceiro mundo de pele escura, analfabeta... quem é o explorado e quem é o subalterno? Como estabelecer uma ordem de opressões entre as identidades de uma mulher afrodescendente e pobre, por exemplo? É possível pensar a articulação política entre os que pertencem ao grupo de explorados e ao de subalternos? Há, definitivamente, como tais, sujeitos excluídos? (p. 44).

Contudo, do que se trata não é de estabelecer uma ordem ou hierarquias entre as diferentes opressões, senão de buscar a maneira de articula-las, de estruturar um sistema de alianças dessas opressões, para lutar contra o inimigo que tem em comum e formular uma proposta de libertação. Spivak responderia que a enunciação é inseparável de sua posição política, baseada na luta empreendida pela desaparição da subalternidade. A tarefa –disse Bidaseca- é recuperar essas vozes, as que considera as mais “autorizadas” para colocar em questionamento a dominação por ser quem se encontra atravessadas pelas diversas opressões.

A frase de Audre Lorde que Bidaseca repete ao decorrer do livro e de outros trabalhos: “as ferramentas do amo nunca derrubarão a casa do amo”, nos abre a pergunta em torno de qual é a proposta para libertar da opressão a subalterna/o. Novamente, a diferença do que esperamos encontrar se nos guiamos pelo ressonante título do livro, não se apresentam propostas de ação coletiva nem nem se fala de revolução.

Para Bidaseca a emancipação está para ser descoberta, não há um caminho que possa se conhecer se antemão. Os oprimidos devem encontrar uma maneira própria, não se pode impor uma agenda ocidental e eurocêntrica a populações não-ocidentais. Há de se revisar o projeto emancipador da modernidade e construir novas armas, não podemos nos libertar “com as armas do amo” (quer dizer, do ocidente). Propõe buscar nos espaços da arte as políticas de libertação, para terminar com o colonialismo, o racismo e a exploração, construir espaços desde posições que não são posições de poder, de corpos dissidentes, racializados, sexualizados de cooperação Sul-Sul para a transformação social. Voltando a Spivak, sentencia que “A única opção política possível para a subalternidade é, precisamente, deixar de ser subalterno, em outras palavras, intensificar a voz, fazer-la própria, separada da representação”. (p. 45)

Retoma também de Spivak o conceito de essencialismo estratégico. Como disse Keucheyan, este conceito deriva de

"... a crítica do essencialismo que sustenta que todas as identidades, sejam de gênero ou de classe, sejam étnicas ou de outro tipo, tenham sido construídas socialmente e, por tanto são contingentes (...) coincide com a ideia de que não existem essências no mundo social. Contudo, chama a atenção ao fato de que, na vida cotidiana e nas lutas sociais, os indivíduos se referem frequentemente a tais essências "[4].

Isto é lhes permite sentir pertencimento há um grupo dominado e trabalhar a favor da emancipação. O conceito de essencialismo estratégico sustenta que podem aderir provisoriamente a uma essência que lhes pode resultar estrategicamente útil, agrega Keucheyan.

A mulher do Terceiro Mundo leva em seu corpo a marca de todas as opressões, de gênero, de raça, etnia –um aspecto subvalorizado na análise de Bidaseca- de classe. A intersecção dessas opressões aprofunda a situação de subalternidade. No entanto, Bidaseca não se pergunta pela origem da opressão nem aprofunda no questionamento ao sistema de dominação.

Mais além das diferenças que podemos ter com a concepção de subalternidade o essencialismo estratégico –conceitos que constituem a parte interessante do livro- não há uma leitura profunda e crítica da dominação capitalista e imperialista sobre os setores oprimidos que permita entender a origem dessas opressões, a quem resulta funcional e como questionar-las de conjunto. A luta contra a “colonialidade do poder”, onde cada povo oprimido dá sua batalha nos espaços de interação social nos quais se desenvolve, neste caso nos “espaços da arte”, não propõe uma luta de conjunto que permita articular aos diferentes setores oprimidos.

Desde o marxismo entendemos que a enunciação dos sujeitos pode ter um peso subjetivo importante, mas não transformará as condições reais da opressão. Essas não se resolverão enquanto as bases materiais de que se nutrem a opressão, a discriminação e o racismo se mantenham de pé. Não se pode terminar com a exploração de maneira isolada, parcial ou por vias individuais sem quebrar as relações sociais de exploração as quais o racismo é funcional.

Notas de rodapé

[1] Bs. As., Prometeo, 2018. As páginas das citações se indicaram entre parênteses ao lado das mesmas.

[2] Na conferencia sobre O segundo sexo de Simone de Beauvoir, Nova York, 1979.

[3] Keucheyan, Razmig. Hemisfério esquerda. Madrid, século XXI, 2013. 4. Keucheyan, R., ob. cit.

[4] Keucheyan, R., ob. cit.




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