Política

DEBATE NA ESQUERDA

De Macapá a Belém: um debate com a política do PSOL

Neste artigo vamos analisar as consequência da política de alianças que estão se conformando em Belém, a partir da candidatura de Edmilson Rodrigues do PSOL.

Danilo Paris

Professor de sociologia da rede pública

sábado 29 de agosto| Edição do dia

Estamos nos aproximando das primeiras eleições desde que Bolsonaro se tornou presidente, e um sinal marcante da conjuntura é a recuperação das taxas de aprovação do governo. Esse cenário vem desmoronado a perspectiva de que o combate a extrema-direita deveria passar pelo terreno eleitoral e institucional, e abrindo a interrogante em diversos setores de qual deve ser a política para combater o governo.

Há aqueles que com o suposto argumento de “combater o fascismo” estão defendendo alianças amplas nas eleições, como é o caso do PSOL em diversos municípios. Neste artigo vamos abordar a política de alianças que estão se conformando em torno da candidatura de Edmilson Rodrigues, em Belém, para estabelecer um debate com aqueles que buscam no PSOL uma saída à esquerda do PT.

O candidato já aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. O atual deputado federal já foi prefeito pela cidade duas vezes quando era do PT (1996 e 2000), e nas eleições de 2012 e 2016 esteve muito perto de ser eleito, nas duas vezes perdendo por uma margem muito estreita. A candidatura do PSOL terá como vice-prefeita Ivanise Gasparin do PT, e provavelmente PDT, Rede, PCB, UP e PCdoB compondo a coligação.
Em entrevista, o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, afirmou que o objetivo da direção do partido é elegê-lo prefeito de Belém no primeiro turno da eleição municipal. Não há dúvida que essa é a principal aposta da direção do partido em uma vitória eleitoral para uma prefeitura.

A última vez que o PSOL esteve na administração de uma capital de um estado foi no Macapá em 2012. A gestão de Clécio Luís foi marcante e gerou, naquele momento, um importante debate sobre os rumos do partido. As contradições não foram poucas, a começar pelo apoio recebido por diversos partidos burgueses - PV, PPS, PMN, PTC e PRTB - chegando a escandalosa aplicação de medidas judiciais contra o direito de greve dos servidores municipais. No segundo turno, Clécio recebeu o apoio até mesmo de partidos da direita como o DEM e o PSDB. Desde 2015 não só Clécio, mas também Randolfe Rodrigues - o principal articulador dessa campanha-, estão na golpista Rede Sustentabilidade de Marina Silva que até voto em Aécio Neves já chamou, incluindo o apoio à Lava-Jato e a prisão de Lula. Agora em 2020, Clécio já declarou que irá apoiar o candidato do DEM, irmão de Davi Alcolumbre, para a prefeitura do Macapá.

O que pretende o PSOL de Edmilson à frente de uma prefeitura?

Antes mesmo das eleições começarem oficialmente, o pré-candidato do PSOL já vem fazendo acenos para o empresariado, propondo-se a construir um “movimento cívico” que tem como compromisso “escutar todos os segmentos da sociedade, sem distinção: os artistas, os empresários, os intelectuais, o empresariado”.

A aliança com partidos burgueses, como o PDT e a Rede, além do próprio PT no cargo de vice, não deixam dúvidas que o propósito da candidatura do PSOL em Belém é apostar na conciliação de classes para gerir uma importante capital do país, assim como fez em Macapá em 2012. Não é novidade Edmilson se coligando com partidos burgueses, quando já esteva no PSOL. Em 2016 se coligou com o PDT, o PPL e o PV.

Quando a situação política e econômica era incomparavelmente menos aguda que a atual, a política de alianças e conciliação de classes impulsionada por Clécio e Randolfe, e apoiada entusiasticamente pela direção majoritária de Ivan Valente, levou à uma gestão que atacou os trabalhadores, e depois rompeu com o próprio PSOL.

Agora, não é difícil prever que serão grandes as contradições que irão surgir de uma eventual prefeitura administrada por Edmilson, e que estão por surgir episódios como esses que ocorreram em Macapá.

A ausência de uma política independente só irá fortalecer nossos inimigos e adversários

Para a direção majoritária do PSOL, a independência de classe segue sendo um fator a ser desprezado. Reproduzem exatamente a mesma prática, apesar dos resultados desastrosos. É ilustrativa a declaração de Ivan Valente, ainda celebrando o resultado das urnas em Macapá em 2012:

“O PSOL tem de aprender ainda a saber o que é um segundo turno, né? O segundo turno é uma coisa difícil, porque você não conta só com os seus aliados mais incondicionais. Você é obrigado a fazer política. Certamente, se não houvesse um apoio geral ao Clécio, ele não teria chegado à vitória eleitoral. Nós temos de enfrentar esse debate no PSOL, que é um debate muito puro, em relação a receber apoios.”

Essa defesa de Ivan Valente levou a que Clécio recebesse apoios no segundo turno de partidos da direita tradicional como DEM, PSDB e PTB, além do PCdoB, que também teve uma candidatura derrotada no primeiro turno. Também chamativo foi o fato de Clécio incorporar propostas de Davi Alcolumbre, que hoje preside o Senado, para obter seu apoio. Esse antigo aliado tem sido um dos principais articuladores para aprovação das reformas no parlamento, ao lado de Rodrigo Maia.

De que adiantou a vitória eleitoral e a política de alianças de Clécio, se não o fortalecimento de variantes partidárias como a Rede? Não bastasse isso, o prefeito do PSOL em 2012, hoje serve para fortalecer e impulsionar a candidatura do reacionário DEM.

Enquanto ainda estava no PSOL, o enfrentamento que Clécio realizou contra a categoria de professores é uma expressão categórica de que na ausência de uma política de independência de classes, os únicos favorecidos são os inimigos dos trabalhadores, das mulheres, negros e LGBT´s. Naquele momento estava se gestando uma greve nacional da educação. Vários estados entravam consecutivamente em greve. No Paraná, ocorreu uma repressão histórica e em São Paulo os professores se enfrentavam contra os cortes de salários do PSDB. Nesse momento, quando diversos partidos da ordem atacavam, inclusive o PT de Dilma que vinha aplicando cortes consecutivos na educação, a vanguarda nacional dos professores olhava para a prefeitura do PSOL e via apenas mais uma expressão de um governo que não atendia a demandas dos trabalhadores.

Esse é desfecho da política de conciliação de classes. Ao se compromissar com partidos burgueses e com o PT, Clécio virou as costas para os trabalhadores.

A política do PSOL em Belém é uma reedição da política petista, que já se mostrou ineficiente para combater a extrema-direita.

O caminho adotado pelo PT foi se aliar com aqueles que depois foram os principais atores do golpe institucional de 2016, e que abriu espaço para a extrema-direita. E mesmo depois de tudo isso, o PT segue se coligando inclusive com setores bolsonaristas, como em Belford Roxo, decisão que foi referendada pela cúpula do partido.

A verdade é que o PT vem se preparando para repactuar com o regime do golpe, pois sonha em ser novamente o administrador do decadente regime político brasileiro. É por isso que mantém, através de suas burocracias, as suas bases sindicais paralisadas enquanto os ataques passam. No entanto, a realidade mostra que na ausência de uma luta decidida contra os inúmeros ataques, Bolsonaro aumenta sua popularidade em base ao auxílio-emergencial, e agora diante do aumento de sua aprovação pretende implementar o Renda Brasil.

Estamos sob um governo de extrema-direita, recheado e tutelado por militares, e com diversos atores - como o STF, a Rede Globo, o parlamento, governadores – que na atual conjuntura fazem um pacto para levar a frente os ataques contra os direitos e as condições de vida da massa trabalhadora no Brasil. Esse é o regime do golpe institucional, da reforma trabalhista e da previdência, do teto de gastos, das privatizações. É uma ilusão reacionária acreditar que através das eleições será possível garantir direitos e melhoraria das condições de vida para a grande maioria da população.

Ao invés de também semear essa ilusão, o PSOL deveria estar na base dos sindicatos dirigidos pela CUT e CTB exigindo uma unidade de fato entre os trabalhadores para lutar por direitos e contra os ataques. Através de seus parlamentes e figuras públicas, poderiam estar encampando uma enorme campanha de solidariedade aos trabalhadores dos Correios, que hoje estão uma forte greve contra a privatização e precarização dos empregos, propondo-se a articular junto à outras categorias uma luta em comum.

As candidaturas do MRT estão à serviço de uma política de independência de classe

Para nós a independência de classe é uma condição para a atuação política. Por isso, em Campinas, em função da coligação que o PSOL fez com o PT, nós do MRT retiramos a pré-candidatura de Lívia Tonelli, e estamos debatendo amplamente os problemas dessa aliança com a vanguarda e a base votante do PSOL.

Sem compromisso político com as posições do PSOL, nós do MRT apresentamos candidaturas democráticas pelo PSOL nas eleições, diante do antidemocrático sistema eleitoral brasileiro que não permite candidaturas independentes e dificulta enormemente a legalização de partido.

Convidamos a todos a conhecer e impulsionar nossas candidaturas em diversas cidades do Brasil: em São Paulo com Diana Assunção, Letícia Parks e Marcello Pablito na Bancada Revolucionária de Trabalhadores; no Rio de Janeiro com Carolina Cacau; em Santo André com a professora Maíra Machado; em Contagem com Flávia Valle e em Porto Alegre com Valéria Muller.

Todas as nossas candidaturas estão a serviço de fortalecer a perspectiva do reagrupamento da vanguarda sobre as bases da independência de classe, que busque ir além do que permite o regime burguês. É com uma política dessa natureza, que podemos transformar a enorme força social que busca uma alternativa à esquerda do PT, e que simpatiza com o PSOL, numa grande energia criadora para construir uma potência anticapitalista e revolucionária que questione todo o regime.




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