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David Maciel fala sobre o Seminário Internacional e ocupações

O professor da Universidade Federal de Goiás, David Maciel, foi entrevistado pela redação do Esquerda Diário, em que conta qual é o caráter e o objetivo do Seminário Internacional do Núcleo de Pesquisa Marxista e qual é a sua visão das ocupações das escolas estaduais em Goiás e da importância da democracia de base no Movimento Estudantil.

sábado 4 de junho de 2016| Edição do dia

Esquerda Diário: Qual é a importância do Seminário diante de várias lutas que estão ocorrendo no Brasil inteiro, qual a importância do marxismo nesse momento?

David Maciel: Esse Seminário do NUPEMARX tem por objetivo apresentar de forma mais pública, de forma mais abrangente o que nosso núcleo de pesquisa vem estudando, vem desenvolvendo, porque o NUPEMARX é um núcleo interinstitucional e interdisciplinar, que é uma coisa relativamente diferente do padrão dos núcleos de pesquisa da universidade. A gente reúne pesquisadores da UFG, do IFG, da UEG, da FASAM, de variadas áreas, gente da História, do Direito, da Sociologia, da Letras, da Educação, da Psicologia. Então, cada um de nós tem seu elenco de estudo de pesquisa e a gente debate. O objetivo do Seminário é externalizar um pouco isso e fundamentalmente atrair outros pesquisadores e estudantes para esse debate que a gente está fazendo.

Um elemento importante do NUPEMARX é que a gente busca estabelecer uma interface com os movimentos sociais e as lutas sociais. Então, a perspectiva da nossa pesquisa não é puramente acadêmica, é também político-ideológica, nós temos clareza de que é necessário no processo da luta de classes travar uma luta política e ideológica. E a reflexão teórica é importante na medida que ela contribui para a gente pensar e atuar na realidade, dominando as suas mediações, os seus meandros, as suas contradições. Então, desse ponto de vista, fundar, criar um Núcleo de Pesquisa Marxista, em nossa avaliação, é fundamental, como nunca o marxismo é necessário como uma referência de análise da realidade capitalista, afinal de contas nós estamos vivendo mais uma crise do capitalismo, uma crise gravíssima, onde todas as suas contradições afloram de maneira bastante evidente e radicalizada. E também como propositura política, que o marxismo não é só um método de análise, um conjunto de conceitos e teorias, ele também apresenta uma propositura política de superação da sociedade do capital, de superação dessa sociedade contraditória.

Então, desse ponto de vista, a crise do capitalismo demanda que o marxismo seja mobilizado, tanto como aparato metodológico e teórico, mas também como proposta política, proposta de superação da sociedade do capital, da sociedade clássica, da sociedade da exploração e da opressão. Nós do NUPEMARX temos clareza de que a nossa tarefa não é apenas acadêmica, ela também tem uma dimensão política e a gente procura estabelecer essa interface com os movimentos sociais, procurando dar essa contribuição e também recebendo a contribuição dos movimentos, na nossa avaliação a contribuição teórica não se dá exclusivamente no escuro dos gabinetes, ela se dá também no diálogo com as lutas sociais e a realidade viva.

ED: E qual é o conteúdo do Seminário?

DM: Esse seminário procurou contemplar problemas e questões contemporâneas. Então, no primeiro dia se fez uma discussão sobre o Estado brasileiro e a atual dinâmica do capitalismo no Brasil, pegando desde um período um pouco mais longo, um médio prazo, das tendências de desenvolvimento econômico e político dos últimos 25 anos e tentando fechar com a atual conjuntura, que é uma conjuntura de crise no Brasil, uma conjuntura de golpe político, tentando perceber quais possibilidades de ação que são possíveis.

No segundo dia, nós tivemos uma discussão da relação entre ideologia, cultura e hegemonia nas lutas sociais, como a a luta política e ideológica impacta nas lutas sociais, nas lutas nos trabalhadores. Tivemos uma reflexão feita por três colegas que discutem o problema da cultura e da educação nessa perspectiva política e ideológica. Tivemos também um curso sobre o método dialético a partir da perspectiva de Lukács, um momento mais teórico para instrumentalizar o aparato conceitual do debate. E à noite, tivemos um debate com um companheiro do Paraguai sobre a ação do imperialismo brasileiro no Paraguai, um modelo clássico, típico, porque a economia paraguaia é bastante dependente dos capitais brasileiros, ⅓ da economia paraguaia está nas mãos de empresas brasileiras, uma reflexão importante da ação imperialista do Brasil nos países vizinhos, na África, na Ásia. Isso revela as contradições do capitalismo brasileiro, um país que tem uma sociedade pobre submetida a uma ação imperialista, isso quebra um pouco aquela visão tradicional que a gente tinha do Brasil simplesmente enquanto país dependente.

No terceiro dia, estamos discutindo outro problema candente também, de interesse direto para o Brasil, que é a dinâmica social, política e econômica da China. Nosso colega do NUPEMARX, Gilson Dantas, discute as contradições do modelo de desenvolvimento chinês e seu impacto não só em países que têm vínculo forte com a China, como o Brasil, mas na economia mundial. A China assumiu um protagonismo na economia mundial que nos permite dizer que não há desenvolvimento econômico mundial sem a China inserida no processo.

Então, o NUPEMARX pretende trazer a discussão mais sistemática, a pesquisa empírica mais detalhada, mas buscando relacionar isso com problemas atuais, a gente evita a abstração pela abstração, buscando sempre pensar os problemas a partir da realidade presente. Isso é uma perspectiva forte dentro do nosso núcleo, uma das características fundamentais do núcleo.

ED: Aconteceram no fim do ano passado e no começo desse ano ocupações de escolas no estado de São Paulo, que derrubaram o secretário da educação que estava com o Alckmin para passar a reorganização escolar, em Goiás contra a gestão das OSs, também está ocorrendo no Ceará, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro. Agora também está ocorrendo a mobilização das universidades estaduais paulistas, a Reitoria da Unicamp está ocupada, assim como o prédio da Letras e da História e Geografia na USP, as Unesps estão se organizando na luta. Como você enxerga isso?

DM: Aqui em Goiás, a luta contra as OSs tem origem na luta principalmente dos professores e dos servidores da rede estadual de educação e também da municipal contra o processo de precarização das condições de trabalho, de terceirização do trabalho docente, um governo que não chama concurso há muito tempo, e de luta contra as privatizações. Um movimento que se desenvolve desde 2011 e tem um debate e uma mobilização em torno disso.

A luta pelo passe livre também está ligada, por boas condições do transporte coletivo, que tem mobilizado há quatro anos a juventude, não só os estudantes universitários, mas também os estudantes secundaristas. Então, esse movimento de luta contra a precarização, que é pretérito à luta contra as OSs, foi fundamental porque já havia uma massa crítica que contribuiu para que, quando o governo anunciasse o programa de privatização da educação pública pelas OSs, se criasse uma mobilização contra esta iniciativa.

A grande novidade na luta contra as OSs é que essa mobilização atraiu de forma muito central os estudantes secundaristas, os estudantes que estão nas escolas estaduais. Eles assumiram um protagonismo no processo de luta, mas também a linha de frente no enfrentamento. A ocupações começam de forma relativamente espontânea, os estudantes decidiram ocupar seguindo o exemplo dos companheiros de São Paulo e de outros estados, como uma forma de resistência a esse projeto.

No final do ano passado começam as primeiras ocupações, mas a coisa ganha uma amplitude maior no início desse ano quando o governo estadual, em vez de buscar o diálogo, resolveu implantar o projeto de cima para baixo, resolveu desencadear uma onda repressiva sobre os estudantes, sobre os apoiadores. Isso deu uma amplitude maior para o movimento, porque isso rebateu em outras categorias, rebateu nos professores, rebateu na universidade. Isso acabou estimulando o debate e o próprio reforço da luta dos estudantes.

O fato, então, é que essa primeira tentativa de implantação das OSs foi derrotada, porque outras instâncias entraram no processo, o próprio Ministério Público condenou o Edital que abria a possibilidade das OSs se candidatarem a assumir escolas. Nesse primeiro momento houve uma vitória muito custosa, porque nós tivemos companheiros presos, agredidos pelas ações policiais, nós tivemos companheiros perseguidos, mas, apesar de todo esse custo, conseguimos a vitória.

O governo estadual realmente no seu objetivo de privatizar a educação, de entregar parte da rede pública para a própria Polícia Militar administrar, militarizar as escolas, ele insiste nas OSs, está preparando o Edital, ele deve ser solto em breve mais cuidadoso, para evitar qualquer impugnação em termos de justiça, o que exige do movimento toda a atenção, a organização e a mobilização. Então, nós podemos prever um processo de enfrentamento muito duro nessa conjuntura imediata e futura e os estudantes estão preparados para isso, como nos outros estados.

ED: Na Unicamp é discutido comando de base de representantes eleitos nos cursos, assim como um Comando de Mobilização Estadual de representantes eleitos. Como você essa política de democracia de base no movimento?

DM: Sim, é um caminho e não tem outro caminho se não for esse. O próprio movimento escolhe seus representantes, quem fala em nome dele, quem dirige, não numa perspectiva dirigista, mas numa perspectiva do debate, do encaminhamento das decisões definidas democraticamente. Qualquer caminho alternativo a esse vai implicar em burocratização e esvaziamento do movimento. Essa é uma lição que nós aqui em Goiás estamos bastante atentos a ela, uma das acumulações em termos políticos de todo esse movimento que eu narrei de anos atrás, na defesa da democracia de base, da articulação pela base.




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