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Das calúnias de Stalin às mentiras da Netflix. Por que é tão importante mentir sobre Trotski?

Fernando Pardal

Imagem: Juan Chirioca.

Das calúnias de Stalin às mentiras da Netflix. Por que é tão importante mentir sobre Trotski?

Fernando Pardal

Durante décadas o nome de Trotski foi sistematicamente apagado na história escrita pela classe dominante. Figurando em notas de rodapé de um ou outro livro escolar como “o rival de Stalin”, e quase sempre completamente ausente na academia, Trotski, um dos principais protagonistas de um dos eventos históricos decisivos na história mundial recente, passou a ser conhecido apenas por aqueles dispostos a “escovar a história a contrapelo”, nas palavras de Walter Benjamin.

Contudo, algo vem mudando. A reacionária série na Netflix, cujos absurdos denunciamos em uma campanha internacional, foi seguida pelas esdrúxulas comparações entre a extrema-direita, com o general Villas Boas acusando o ideólogo bolsonarista Olavo de Carvalho de ser um “Trotski de direita”. Agora, o colunista Murillo de Aragão, da Istoé, sai com a mais nova “pérola” desse desfile de asneiras: em seu texto para a revista, afirma que “Após conhecer Trotsky, Freud disse que suas pupilas brilhavam como as de um assassino ou religioso fanático.” Procura se apoiar na autoridade do fundador da psicanálise para vender a imagem de um fanático assassino, tal qual retratado pela Netflix. Acontece que Freud e Trotski jamais se encontraram.

Por que Trotski volta a figurar nas bocas espumantes dos raivosos propagandistas, ideólogos e até militares da burguesia? Curiosamente, o motivo é o mesmo pelo qual antes permaneciam todos, unissonamente, em um sepulcral silêncio a respeito dessa imensa figura revolucionária: o medo que esta lhes inspira. Um medo semelhante ao do “espectro do comunismo que rondava a Europa” nos idos de 1848, sobre o qual Marx e Engels falavam na abertura de seu Manifesto Comunista.

Aliás, podemos tomar o que diziam ali a respeito do “espectro” do comunismo para entender de onde vem a inspiração para invenções tão fantásticas quanto as de Villas Boas ou Aragão. Diziam os fundadores do comunismo científico: “Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou a seus adversários de direita ou de esquerda a pecha infamante de comunista?” Soa familiar? Que o bolsonarismo, em tempos atuais, tenha transformado “comunista” em seu insulto preferido, portanto, está longe de ser um acaso. De Fernando Henrique a Kim Kataguiri, da The Economist a Francis Fukuyama, de Faustão a Rachel Sherazade, é cada vez mais difícil encontrar qualquer figura pública que tenha tecido qualquer tipo de comentário crítico a Bolsonaro e não tenha recebido “a pecha infamante de comunista” – chegando a gerar piadas na internet como a página “Lista atualizada de comunistas. Tomemos para nós as conclusões que Marx e Engels apresentaram da vulgar popularização dessa pecha em 1848:

“Duas conclusões decorrem desses fatos:
1) O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa;
2) É tempo de os comunistas exporem, abertamente, ao mundo inteiro, seu modo de ver, seus objetivos e suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.”

Pois, de fato, em meio à uma duradoura e profunda crise econômica mundial, em que os elementos de uma crise orgânica que corrói a crença nas instituições, discursos ideológicos e partidos tradicionais burgueses se alastra em diversos países, a força ideológica do comunismo volta a aflorar e ser reconhecida. O chamado “socialismo millenial”, o contraditório porém extremamente significativo fenômeno que se alastra entre a juventude estadunidense que passa a ver com bons olhos a noção de socialismo, é uma das mais gráficas demonstrações disso.

Nas décadas do que chamamos de Restauração Burguesa – com o fim da guerra fria, a restauração capitalista na URSS, China e no Leste Europeu, o ascenso do neoliberalismo e o triunfalismo ideológico burguês que declarava “o fim da história” (por meio do mesmo Fukuyama que hoje é chamado de “comunista” pela extrema-direita) – a atitude mais prudente para a classe dominante era simplesmente silenciar. Quanto menos se falasse sobre o comunismo, esse “espectro” adormecido, melhor: a juventude poderia simplesmente seguir sua vida em busca dos ideais individualistas de sucesso profissional, financeiro, matrimonial etc. (ou simplesmente da dura sobrevivência em meio a um mundo com cada vez menos direitos) sem jamais ficar com nenhuma “pulga atrás da orelha”. Mas o próprio desenvolvimento da crise, a desagregação e colapso da grande empreitada burguesa do neoliberalismo, e o retorno de sofrimentos inauditos das massas – os que levaram à Primavera Árabe e às dezenas de greves gerais na Grécia, por exemplo – despertaram por si mesmos aquele espectro adormecido, que voltou a rondar não só a Europa, mas os EUA e outros tantos países.

A tradição dos comunistas tem seus nomes e rostos. O método da calúnia sempre foi uma arma imprescindível no arsenal da burguesia quando ela precisa tentar desesperadamente separar as massas das ideias daqueles dirigentes que, ao confluírem com sua fúria contra tudo o que está aí, podem levar a revoluções vitoriosas. O próprio Trotski descreve um desses momentos no capítulo “O mês da grande calúnia” de sua História da Revolução Russa. Em meio à Revolução Russa, quando as massas de operários e soldados começavam a duvidar das palavras do Governo Provisório que, após a derrubada do tzarismo em fevereiro havia assumido o poder, o episódio conhecido como jornadas de julho havia sido um alerta claro para Mencheviques, a burguesia liberal e todos aqueles que queriam frear o avanço dos sovietes e da revolução operária: era necessário esmagar os bolcheviques. Por que? Justamente porque o ódio crescente das massas contra um governo provisório que não lhes garantia nem pão, nem paz, nem terra fazia com que seus olhos prestassem cada vez mais atenção a um grupo minoritário de revolucionários que insistia desde fevereiro que era necessário que os sovietes tomassem o poder, rompessem com qualquer aliança com a burguesia, acabassem com a guerra e dessem a terra aos camponeses e as fábricas aos operários. A fúria das massas era perigosa, mas sua ligação aos bolcheviques seria fatal.

Por isso, após o alarmante aviso das jornadas de julho, as calúnias contra o principal líder bolchevique, Lênin, se tornaram o bê-a-bá dos partidos que compreendiam um arco que ia dos viúvos da monarquia, passando pela burguesia liberal e chegando aos socialistas conciliadores como mencheviques e socialistas-revolucionários. Assim é descrito o episódio por Trotski:

Em plena noite de 4 de julho, enquanto cerca de 200 membros de ambos os comitês-executivos, o dos operários e soldados e o dos camponeses, se enregelavam em duas sessões igualmente infrutíferas, um sussurro misterioso perpassou por entre eles: haviam sido descobertos indícios de ligação de Lênin com o Estado-Maior alemão. No dia seguinte, os jornais publicaram documentos denunciadores. [...] Foi assim que se abriu o mais inverossímil dos episódios daquele ano fértil em acontecimentos: os líderes do partido revolucionário que, durante dezenas de anos, haviam consagrado a vida a lutar contra os poderosos deste mundo, coroados ou não, viam-se apontados ao país e ao universo, como agentes remunerados dos Hohenzollern [a família real alemã]. A calúnia, de envergadura inaudita, foi lançada ao mais profundo das massas populares cuja esmagadora maioria ouviu pronunciar, pela primeira vez, após a insurreição de fevereiro, os nomes dos líderes bolcheviques. A difamação transformou-se em fator político de primeira ordem. Eis por que se torna indispensável estudar com maior atenção seu mecanismo” (História da Revolução Russa, p. 488-489).

Assim, um século antes que surgisse o termo “Fake News” a boa e velha calúnia se transformou em uma arma política de primeira importância nas mãos dos inimigos dos trabalhadores e da revolução socialista. Retomando a “pecha” citada por Marx e Engels, concluímos que ali, no momento de virada da Revolução Russa, a burguesia reconhecia o bolchevismo como uma força que era necessário esmagar a todo custo.

Enquanto Trotski escrevia essas palavras, na década de 1930, ele próprio já se tornara a vítima de um processo de calúnias e difamações de tal envergadura que faria os boatos sobre Lênin espalhados pela burguesia russa parecerem coisa de criança. Lênin fora caluniado por representar a continuidade do legado revolucionário marxista; Trotski, por sua vez, a partir de mais ou menos 1923, será caluniado por representar a continuidade do legado revolucionário leninista. Será Stalin quem cumprirá o lamentável papel histórico de colocar de pé uma máquina de falsificações e calúnias que poderia ser considerada precursora dos poderosos mecanismos de Fake News de Steve Bannon, Trump, Bolsonaro e toda a corja que hoje está aí.

A pecha de “trotskista” foi lançada, como nos idos de 1848, contra todos os inimigos do aparato burocrático que devorou a Revolução Russa e a digeriu transformando-a no contrário do que fora: uma ditadura de uma camarilha de assassinos e falsificadores que submeteu o proletariado russo a um verdadeiro regime de terror, e para se manter matou literalmente milhões de opositores – dentre esses inúmeros trotskistas e “trotskistas”, já que qualquer opositor de Stalin recebia essa denominação, sendo ou não partidário das ideias de Trotski. Tal como Lênin fora acusado de agente do imperialismo alemão, Trotski foi acusado de agente do imperialismo contrarrevolucionário. Expulso do partido e da República Soviética que ajudará a fundar, as calúnias, fotomontagens, edições nos livros de história e em todos os documentos oficiais não foi suficiente para Stalin. Exilado, encurralado e sem recursos, Trotski ainda tinha a seu lado, contudo, uma arma fundamental – a teoria, o programa e a estratégia revolucionárias. Se essas ideias haviam levado menos de um século para sair dos escritos de Marx e Engels e chegar a orientar a primeira revolução operária vitoriosa da história, quem sabe o que as circunstâncias de um capitalismo em crise não permitiram a Trotski e à recém-fundada IV Internacional? O tamanho do medo de Stalin era tal que, além de assassinar toda a família de Trotski – restando apenas seu neto Esteban e sua esposa Natalia – ele mobilizou todos seus recursos para conseguir finalmente assassinar Trotski, do outro lado do mundo, no México.

Hoje, comentando o “insulto” que Villas Boas fez a Olavo de Carvalho, o direitista e ex-trotskista Reinaldo Azevedo foi quem, no campo de nossos inimigos, fez o comentário mais pertinente: “Trotsky foi um líder revolucionário, goste-se ou não dele. Era um prosélito poderoso em favor da revolução e também um homem da ação. Ao mesmo tempo em que escrevia compulsivamente, formava o Exército Vermelho. Olavo de Carvalho não consegue organizar nem as ofensas que dispara a esmo.”

Não à toa é Vladímir Pútin – herdeiro direto da assassina e odiosa burocracia stalinista que se converteu em burguesia aniquilando a herança da revolução – quem, por meio da emissora estatal Um da Rússia, decidiu investir uma boa quantidade de dinheiro para produzir uma versão do século XXI para as calúnias contra Trotski. Entre seus fãs encontramos gente do calibre de Janaína Paschoal e General Mourão, expoentes da extrema-direita brasileira, que, obviamente, adoraram ver o dirigente revolucionário transformado em uma caricatura bizarra e detestável.

Mas, como com a “pecha” dos comunistas em 1848, ou as calúnias contra Lênin em 1917, o macartismo dos anos 50 ou o “Red Scare” dos anos 20 nos EUA e as perseguições e falsificações stalinistas contra o trotskismo, o que vemos aqui é um brinde que o vício rende à virtude, e, como diziam Marx e Engels, as conclusões que devemos chegar são:

1) Nossos inimigos reconhecem nossa força. Se é fato que hoje os comunistas, e particularmente os trotskistas, são numericamente insignificantes, a burguesia sabe aprender com a história e sabe que suas ideias são perigosas. Como disse Marx, as ideias se convertem em força material quando penetram nas massas. É exatamente isso que eles pretendem.
2) É hora de dizermos nós mesmos ao mundo o que pensamos. Não à toa, os trotskistas da Fração Trotskista – os mesmos que publicam a Ideias de Esquerda – hoje constroem a rede internacional do Esquerda Diário, que possui portais em 7 idiomas e 12 países. Paradoxalmente, o alcance muito superior de calúnias como a série da Netflix ou os insultos de Villas Boas podem despertar a curiosidade de milhões para saber quem é essa pessoa tão odiada pelos “donos do mundo”. As ideias dos trotskistas devem estar prontas para ocupar esse espaço, pois, se a fúria que vemos se alastrar pelo mundo contra a crescente barbárie capitalista for capaz de encontrar o caminho para as ideias revolucionárias, aí não há “Fake News” que possa nos impedir de tomar o céu de assalto.

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