Gênero e sexualidade

CRÔNICA

Da maré ao tsunami

Crônica sobre o 8A: dia do Pañuelazo internacional pelo aborto legal.

Sagui

jovem trabalhadora

sexta-feira 10 de agosto| Edição do dia

É certo que no dia 8 de agosto o mundo olhava para a Argentina. As mulheres brasileiras, chilenas, norteamericanas, japonesas, parisienses, e tantas outras gritavam “aborto legal já, façamos como as argentinas!”. E eu era uma delas.

Nas principais cidades brasileiras, as companheiras do Pão e Rosas, grupo em que milito, ao lado de cada companheiro, construíram e batalharam para fazer com que os gritos das mulheres brasileiras chegasse à Argentina. Em São Paulo fomos milhares, sentíamos a disposição e a paixão revolucionária de ser parte dessa maré que invadia o mundo. Lá não venceremos no Senado, mas nas ruas.

Mesmo com esse resultado, a maré não para. Mesmo com esse bloqueio de ontem, existe um racha enorme nessa represa que pode fazer com que essas milhares de mulheres sigam não só lutando pela legalização do aborto, mas também para destruir cada tijolo desse sistema capitalista que nos oprime e explora todos os dias.

Lutar pela legalização do aborto não é um debate moral e religioso como vociferam as direitas argentina e a brasileira. É uma questão de saúde pública. E mais do que nunca: é uma questão política e de classe. É essa lei que criminaliza em defesa da vida e exige que essas mulheres tenham seus bebês que as encarceram em massa e as matam na tentativa de abortar clandestinamente. No Brasil, por exemplo, ocorrem 500 mil abortos clandestinos por ano, 1.300 por dia, 57 por hora, quase 1 por minuto. E nesses abortos clandestinos, 4 morrem por dia. Dessas 4, 3 são negras. Então, mesmo sendo ilegal, o aborto continua sendo uma realidade brasileira e mundial.

Continua sendo uma realidade pois essa lei, ligada aos discursos grotescos contra as mulheres, é a mesma que encobre, junto à direita, a burguesia e a Igreja, todo um sistema capitalista que as impossibilita de ter a licença maternidade e ter lugares apropriados para trabalhar quando grávidas e lactantes, que as obriga a permanecerem junto aos seus filhos em condições de violência doméstica, que as nega um SUS de qualidade para ter seu pré-natal e uma assistência digna durante e após o parto, que não garante creches e tão pouco educação sexual e discussão de gênero e sexualidade para suas filhas e seus filhos nas escolas. Então, quando votam contra a LEGALIZAÇÃO do aborto, não votam pela vida, votam a favor do aborto clandestino.

Para eles não importa se elas não tiveram orientação sexual, que não tenham condições financeiras ou psicológicas, e até mesmo que sejam casadas ou solteiras, que tenham o direito de decidir sobre seus corpos. E para nós não importa se a lei criminaliza quando a realidade da sociedade é outra. A vida é uma dádiva e hoje não salvamos nenhuma das duas.

A luta segue e há de se amplificar, radicalizar e confiar apenas em nossas forças. “Porque já o tornamos legítimo e, mais cedo ou mais tarde, vamos impor a eles que, finalmente, o façam lei.”




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