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DSA de Ocasio-Cortez, cada vez mais longe do socialismo e mais perto dos Democratas do establishment

quinta-feira 20 de setembro| Edição do dia

Tradução: Alexandre Alves Miguez

Alexandria Ocasio-Cortez tornou-se uma celebridade política da noite para o dia. Aparecendo em canais de notícias, no Comedy Central e no The Late Show com Stephen Colbert, ela é agora o rosto do “socialismo democrático” – ou ao menos sua versão dele – e o membro mais conhecido dos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America - DSA). Mais importante, ela percorreu o país em apoio a outros candidatos progressistas do partido Democrata, sejam eles membros do DSA ou não.

Vários artigos cobriram suas aparições em Kansas e Michigan para promover as campanhas dos Justice Democrats Brent Weldere Abdul El-Sayed. Nesses esforços, ela tem se saído muito bem. Segundo uma reportagem do inicio de julho, “Assim como quase todos os candidatos quase sem chance que Ocasio-Cortez apoiou – do Havaí, ao Kansas, à Florida – [o candidato democrata de Delaware Kerri], Harris diz que sua campanha experienciou um grande aumento de energia depois que Ocasio-Cortez tuitou seu apoio a candidatura, incluindo um aumento no número de doadores, e voluntários”. Em um dia em São Francisco, ela ajudou a arrecadar $15,000 (aprox. R$ 62,182) em um evento, e muitos milhares em outro evento de arrecadação, mais exclusivo, de $2,500 por pessoa.

Ocasio-Cortez está, então, arrecadando centenas de milhares de dólares para os cofres do Partido Democrata, e inscrevendo voluntários às centenas. Mas isso é tudo parte de um plano da esquerda para tomar o partido Democrata, certo? Bem, a distinção entre democratas de esquerda e democratas do establishment não é clara. Os candidatos apoiados por Ocasio-Cortez não são estritamente “socialistas”. Por exemplo, Brent Welder arrecadou quase $700,000 (aprox. R$2,900,240) até julho, e somente um terço veio de doações de menos de $200. Quando questionado se se considerava um socialista democrático, ele respondeu “eu me considero um democrata, como fiz minha vida toda”. Tendo trabalhado como organizador de campanha para Barack Obama e John Kerry, Welder mantém sua identidade como um democrata mainstream, como é demonstrado por seu slogan de campanha: “Yes, we Kansas”.

No início de agosto, Ocasio-Cortez chegou à Califórnia, onde compareceu a uma série de eventos de arrecadação, incluindo um grande evento no The Assembly em São Francisco, e um evento mais humilde, à esquerda, para apoiar Jovanka Beckles, uma DSA e membro incumbente do conselho municipal de Richmond. O oponente de Beckles é BuffyWicks, que é amplamente vista como uma democrata do establishment.

A batalha local tornou-se litigiosa nacionalmente, e enquanto membros locais do DSA veem o apoio de Ocasio-Cortez como uma vantagem para a progressista Beckles enfrentar o establishment do partido, a conselheira de Wicks, Debbie Mesloh insiste que “a presença e vitória de Ocasio-Cortez é boa par todos os Democratas”. Afinal, como o jornal Politiconoticiou, Wicks foi co-anfitriã do evento de arrecadação de Ocasio-Cortez em São Francisco... [o que, diz Mesloh,] “diz respeito à nova energia que está sendo injetada no partido com novos grupos como Indivisible e Swing Left – eles estão absorvendo essa energia com uma onda de novos candidatos”. A lição para todos os democratas, diz [Mesloh], é “que Ocasio-Cortez mostrou que ela pode fazer campanha corpo-a-corpo e falar dos problemas que interessam às pessoas – e isso é exatamente o que Buffy fez, em mais de 160 recepções de casas no distrito”.

Sim, alguns democratas temem a crescente onde de progressistas no partido. Qualquer partido politico pode desenvolver frações conflituosas. Uma secção de democratas de elite, os neoliberais mais agressivos, com ligações mais próximas com Wall Street e várias conexões lucrativas com o capital americano, podem sentir-se ameaçados pela mudança no equilíbrio de poder no partido. Mas sejamos claros: a maioria dos democratas está muito feliz com Ocasio-Cortez e os novatos. Em um tempo em que o partido está em uma profunda crise, o sopro de ar fresco trazido por Ocasio-Cortez e outros candidatos progressistas está ajudando a revitalizar o partido.

Devemos nos perguntar: porque Ocasio-Cortez passaria mais de um mês após sua vitória fazendo campanha quase exclusivamente para outros democratas? Porque não usar seu recém adquirido capital político para apoiar a luta dos motoristas particulares de Nova York (do Uber, Lift e outras plataformas) para ganhar reconhecimento como trabalhadores? Ou chamar mobilizações contra as deportações?

Uma agenda liberal com tons de direita

As políticas de Ocasio-Cortez estão ligadas à sua concepção medíocre de socialismo democrático: “Eu acredito em uma América rica e moral, em uma América rica e moderna, ninguém deveria ser pobre demais para viver nesse país”, ela disse a Meghan McCain no The View. Desde então, muitos dos lideres nacionais e regionais do DSA vieram a público expor a sua versão de socialismo democrático.

Embora não haja acordo dentro do DSA quanto ao significado do termo, algumas declarações estão consideravelmente à esquerda das de Ocasio-Cortez. Julia Salazar, que também concorre pela legenda Democrata, foi categórica afirmando que “um socialista democrático reconhece o sistema capitalista como sendo inerentemente opressor, e está ativamente trabalhando para desmantelá-lo e para empoderar a classe trabalhadora e os marginalizados em nossa sociedade”.

As declarações de Ocasio-Cortez sobre substituir o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE na sigla em inglês) por um mais humano Serviço de Imigração e Naturalização (INS em inglês) já renderam críticas de apoiadores de esquerda. Mas a maior fonte de preocupação para DAS’s foram seus comentários sobre a ocupação da Palestina. Quando pressionada por Margaret Hoover em FiringLine sobre um tweet no qual ela denuncia o Massacre do Dia da Terra, Ocasio-Cortez disso não só que “absolutamente acredita no direito de Israel de existir” mas também que “via o incidente [como] só um incidente”. Quando questionada quanto ao seu uso do termo “ocupação”, ela respondeu “Eu acredito firmemente em encontrar uma solução de dois Estados, e estaria feliz de sentar com ambos os lados”.

Corey Robin, um comentador de política de centro-esquerda, reagiu desapontado:
“Questionada por seu uso da palavra “massacre”, Ocasio-Cortez não se põe ao lado da experiência dos palestinos. Ao invés disso, ela vai diretamente para uma afirmação do direito de Israel de existir, como se os israelenses fossem a preocupação principal, e afirmar tal direito fosse um ticket necessário para dizer qualquer coisa sobre a Palestina. Interrogada quanto ao seu uso da frase “ocupação da Palestina”, Ocasio-Cortez dirige-se a um matagal de abstrações sobre acesso à moradia e ”assentamentos que estão crescendo em algumas áreas”. Ela pede desculpas por não ser uma expert no importante assunto geopolítico. Profere chavões liberais sobre a solução de dois Estados, que qualquer um familiarizado com o assunto sabe que não passam de frases feitas e clichés projetados para dispersar qualquer análise genuína da situação em questão, sem qualquer discussão concreta sobre o que os Estados Unidos podem ou devem fazer para intervir”.

Mas a declaração pública mais alarmante de Ocasio-Cortez veio na forma de um tweet de 26 de julho. Em uma crítica ostensiva do partido Republicano, ela tuitou que “O partido Republicano é fraco em lutar por trabalhadores americanos, fraco contra o crime, fraco em direitos iguais, fraco em segurança nacional, fraco na rejeição do racismo, fraco em coragem moral, fraco em valores familiares”.

Olhemos esse tweet detalhadamente. O que ela quer dizer quando diz que o partido Republicano é “fraco contra o crime”? Que ela e outros democratas estão prontos para serem “fortes contra o crime”? E o que isso significaria? Mais polícia, mais prisões, lei mais duras?

Sabemos que isso se traduz em práticas policiais racistas, perfilamento racial e brutalidade policial. É difícil ignorar que ela está usando vocabulário de direita e significantes conservadores. O mesmo vale para “fraco em segurança nacional”. Isso quer dizer que ela quer expandir o já gigantesco aparato de vigilância? Reservar uma grande parte do orçamento federal para segurança nacional? Retórica nacionalista e, em particular, a referência à “segurança nacional” têm sido historicamente usados como desculpa para criminalizar minorias étnicas e religiosas. Seria ingênuo pensar que ela ou sua campanha não estão cientes disso.

Não vou tentar decifrar o que ela quis dizer com “coragem moral”, embora isso não soe muito socialista. Quanto a “valores familiares”, poder-se-ia interpretar generosamente como uma critica à política do governo Trump de separar famílias na fronteira. Mas mesmo uma busca rápida no Google revela que “valores familiares”, nas entrelinhas aponta para homofobia, transfobia e a rejeição de qualquer desvio da “família tradicional”.

Corey Robin perdoou suas lamentáveis declarações sobre a Palestina por conta de uma suposta falta de experiência ou estudo. Minha interpretação é bem menos generosa. Eu escrevi logo após sua vitória que ela estaria sobre enorme pressão do establishment domecrata para moderar seu discurso. Ela deveria saber que Israel/Palestina era um assunto espinhos, e que seria mais seguro voltar atrás e moderar suas palavras quando questionada por um apresentador de talk show de direita. De maneira similar, seu tweet populista de direita sobre segurança nacional, crime e valores familiares só pode ser interpretado como uma tentativa de expandir sua base de apoiadores para a direita. Afina, tanto ela como Bernie Sanders tomaram para si o desafio de tornar democratas estados republicanos.

O socialismo do DAS

O DSA é uma organização guarda-chuva, cujos membros incluem qualquer um, desde democratas progressistas até anarco-sindicalistas. Entre esses dois extremos, encontram-se socialistas que pensam que usar a legenda do partido Democrata é uma manobra para esquivar-se do sistema bipartidário, e aqueles que advogam por uma quebra com todos os partidos capitalistas, incluindo uma minoria de marxistas revolucionários.

Aqueles que apoiam o uso da legenda democrata celebram a vitória de Ocasio-Cortez e apontam para um crescimento drástico no número de membros do DSA desde então. Eles empunharam isso como confirmação de que sucesso eleitoral, mesmo na legenda democrata, constrói a organização. E enquanto o crescimento da filiação é inegável, é razoável presumir que os aproximadamente 10.000 membros que recentemente entraram no DSA são em sua maioria abertos à colaboração com o partido Democrata (ou ao menos a usar sua legenda).

De acordo com Seth Ackerman, um dos principais arquitetos da estratégia eleitoral do DSA, o uso da legenda é uma tática para crescer até que a organização possa enfrentar o partido Democrata frontalmente em nível nacional. Mas vitórias eleitorais como a de Ocasio-Cortez aumentam o número de membros que enxergam as eleições como o campo de batalha principal e que veem democratas progressistas como companheiros no caminho ao socialismo. Uma vez passado o ponto de virada, a porta está aberta para apoiar candidatos cada vez mais próximos do centro de gravidade do partido democrata. Por exemplo, a seção de Nova York do DSA apoiou a candidatura de Cynthia Nixon, com uma campanha progressista fraca e que tem ligações com o prefeito de Nova York Bill de Blasio. Se havia dúvidas quanto a manter Ocasio-Cortez responsável por seus atos para/com o DSA, qualquer ilusão de manter Nixon em cheque é uma fantasia.

Candidatos que vencem, incluindo membros antigos do DSA como Julia Salazar, podem ser facilmente cooptados por correntes do establishment ou “reformistas” dentro do partido Democrata. E embora haja razões para dúvida se Ocasio-Cortez jamais foi um membro orgânico do DSA, ela agora é legal, acima de tudo aos Justice Democrats e o Brand New Congress. Muito revelador, sua filiação ao DSA não é mais mostrada em seu perfil do Twitter. E conforme ela viaja pelo país apoiando candidatos democratas, seu discurso se torna mais e mais moderado.

Em 4 de agosto, ela participou da conferência Netroots Nation ao lado de pesos pesados do partido Democrata, incluindo uma dúzia de potenciais candidatos à presidência em 2020. Seu discurso foi de unidade e conciliação: “Discurso não é discórdia. Famílias podem discutir, e está tudo bem, porque saímos mais saudáveis do outro lado”, ela disse. Ela mais tarde fecha com uma hiperbólica “nós somos o partido de King, de Roosevelt, daqueles que foram à lua, que eletrificaram a nação, que conseguem os grandes sucessos e jóias da coroa da nossa sociedade”.

É isso que queremos dizer quando falamos sobre a capacidade extraordinária do partido Democrata de cooptar progressistas, movimentos sociais e radicais que não tem uma perspectiva de classe clara. Se o DSA quer continuar um elemento potencialmente disruptivo na política americana e evitar ser rapidamente absorvido pela maquina do partido Democrata, seus membros devem urgentemente repensar sua estratégia eleitoral. A independência da classe trabalhadora deve ser o ponto de partida de qualquer organização que alega lutar contra o capitalismo.

A liderança do DSA se manteve silenciosa quanto às declarações mais conservadoras de Ocasio-Cortez, tal como quanto a sua estratégia aberta de revitalizar o partido Democrata. Em seu papel como o celebrado rosto do socialismo democrático americano, Ocasio-Cortez representa o DSA como uma organização que aspira servir como ala à esquerda do partido Democrata. Sem uma rápida correção de curso, é isso que se tornará.




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