Sociedade

MISSÃO "DE PAZ" REPRIMIA NAS FAVELAS

DOPAZ: o "BOPE" que o Brasil criou para matar negros no Haiti

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 20 de setembro| Edição do dia

Foto: Tahiane Stochero/G1

Nesse ano se encerra a criminosa "missão de paz" da ONU no Haiti, que foi vergonhosamente chefiada por 13 anos pelas tropas brasileiras, desde os tempos do governo Lula, e mantidas orgulhosamente pelo governo golpista de Temer.

Foi mais de uma década de muita violência, repressão e barbárie contra o povo haitiano, com todo tipo de violações aos direitos desse heroico povo, como a exploração sexual levada adiante pelas tropas da ONU. Toda essa violência faz parte da "punição" aos haitianos por terem protagonizado a única revolução vitoriosa de escravos da história, derrotando inclusive as tropas napoleônicas.


Dopaz em operação em Cité Soleil em 2007 (Foto: Arquivo Pessoal)

Agora, como fim da ocupação, veio à tona a existência de uma "tropa de elite", a DOPAZ (Destacamento de Operações de Paz), um grupo secreto com cerca de 20 soldados que recebia treinamento semelhante ao do BOPE carioca para reprimir nas favelas haitianas.

Como revelou a reportagem do G1, que teve acesso exclusivo à base do DOPAZ, os soldados "usam fuzis americanos M4 e andam nas ruas com os rostos cobertos e, muitas vezes, sem identificação de nomes nos uniformes."


Dentro da base é proibido tirar foto. Caveira símbolo é semelhante à do BOPE (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Eles iniciaram suas operações em 2005 em favelas consideradas mais violentas, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil, e foi ali também nesse período que foram treinadas as tropas que fariam a "pacificação" das favelas cariocas, preparando o projeto assassino e hoje em franca decadência das UPPs brasileiras. No Brasil, militares da DOPAZ também atuaram nas ocupações do exército nas favelas do complexo da Maré e do Alemão, além das operações "antiterroristas" de repressão na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.


Sniper do Brasil que integrava o Dopaz durante operação no Haiti (Foto: Arquivo Pessoal)

A DOPAZ cumpria o papel de polícia, fazendo parte da política de "guerra às drogas" que mata e encarcera a juventude negra também do Haiti, como é feito cotidianamente no Rio e nas periferias das metrópoles brasileiras. Nada a ver com "paz" e muito menos com ajudar o povo haitiano a ter uma vida digna.

A tropa passava por dois cursos: Comando e Forças Especiais. O primeiro é o curso "básico" de repressão que fazem tropas como o BOPE ou os Seals, da Marinha dos EUA. O curso de Forças Especiais é uma sequência, que envolve técnicas brutais de repressão como a guerra psicológica que instaura o terror nas comunidades supostamente "pacificadas". Está relacionado à técnica empregada pelos EUA na guerra do Afeganistão.

Cinicamente, a repressão nas favelas haitianas comandadas pelo DOPAZ foram descritas por seu comandante como trazendo "mínimo ou nenhum dano colateral para a população haitiana", diferente de todos os relatos que podemos ouvir da população e mesmo dos relatórios que mostram o abuso sistemático por parte das tropas.


Tropa de elite do Exército empregada no Haiti entre 2006 e 2007 para pacificar Cité Soleil, a maior e mais violenta favela do Haiti (Foto: Arquivo Pessoal)

O general Sergio Schwingel, chefe do Comando de Operações Especiais, que comanda essas tropas no Brasil, falou ao G1 sobre as "lições" que aprenderam durante a repressão no Haiti. Entre elas, cita a forma como invadiam as favelas, que certamente é muito familiar aos moradores dos morros cariocas, com "o uso de carro para a entrada da tropa de operações especiais em uma área edificada, com casas e em região povoada e pobre, e ’sob o controle de forças adversas’, como os militares chamam os criminosos, ao mesmo tempo em que atiradores de elite (snipers) se posicionam em lugares alto da cidade para apoiar a entrada dos militares nestas áreas." A matança indiscriminada que ocorre nas favelas, levando crianças como Maria Eduarda seguem esse método de tropas entrando e atirando a esmo nas "forças adversárias" da população.

Até o fim da missão, o DOPAZ serve como laboratório para a repressão nas favelas brasileiras: eles também atuaram no treinamento de todas as tropas no Haiti para o uso do novo fuzil IA2, que agora será utilizado aqui. "Posso dizer que o IA2 é quase semelhante ao M4 (fuzil americano usado pela tropa de elite). Possui as mesmas capacidades e mesmo padrão de operação. Ficou muito bom e grande parte do batalhão foi treinado aqui no nosso estande de tiro”, afirmou o capitão Fabiano Venturini, comandante atual do DOPAZ.




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