Gênero e sexualidade

DOPASMINA UFPB

’DOPASMINA’: palavra e representação da violência de gênero na UFPB

sábado 20 de agosto| Edição do dia

“(...) a mudança de uma época histórica pode ser sempre determinada em função do progresso das mulheres em direção à liberdade”. Os ataques aos direitos das mulheres e às suas lutas por emancipação são brutais e diários. Mas, sendo a “emancipação da mulher a medida natural da emancipação geral” a continuidade de luta é premente. (F. Engels)

Na última quarta-feira, dia 17, a imagem de um cartaz machista postado nas redes sociais, por estudantes do curso de medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) causou umamplo repúdio.

Numa clara alusão machista e de apologia do estupro, o cartaz trazia a expressão “DOPASMINA”, como trocadilho infame, em alusão aos termos “mina” (menina, mulher) e dopamina, um neurotransmissor, que dentre as funções que desempenha no organismo, seria responsável pela sensação de prazer e pela função motora do corpo humano.

A ação dos alunos do curso de medicina, denominados “Turma 99”, gerou reação por parte de organizações ligadas aos direitos das mulheres e aos direitos humanos na Paraíba, que lançaram uma nota de repúdio ao termo, que foi escolhido para representar o nome de um time da referida turma.

O fato é emblemático da urgência em se debater e combater as noções ideológicas e ações que visam reforçar, reproduzir ou encobrir a violência que representa o machismo, a desigualdade entre homens e mulheres nas relações sociais, enquanto um conjunto de valores que inferioriza, discrimina, humilha e leva a morte milhares de mulheres.

Depois das reações frente a esta evidente apologia do estupro, os estudantes do curso negaram a ligação entre a escolha do termo e uma apologia ao estupro ou desrespeito às mulheres, uma coisa absolutamente inconsistente.

O episódio nos remete no mínimo a duas reflexões: a primeira diz respeito à formação de profissionais da área da saúde enquanto um produto que está diretamente ligado aos processos históricos, sociais e culturais, assim como de determinações econômicas concretas, expressando, na sua composição social no Brasil, a elite da elite do sistema universitário público. A tecnificação mecanicista própria do paradigma biomédico, hegemônico nos bancos das escolas médicas e nas práticas cotidianas da medicina, assim como uma origem social comum que fortalece as ideias reacionárias, tem colocado grande parte desses profissionais em um nível de consciência,como opção ideológica, cada vez mais distante da realidade, das mazelas sociais, contribuindo para uma visão distorcida que, ao prescindir de uma visão holística, totalizadora em relação aos que à medicina recorrem por suas necessidades, separa homens e mulheres do seu contexto socioeconômico.

Assim, o episódio da UFPB nos apresenta elementos sobre a sensibilidade dos médicos em formação para com os temas que flagelam as relações sociais, como é o caso da problemática da violência contra a mulher, que o dito cartaz, em sua justaposição (não inócua!) de palavras parece ignorar.

Também, na base deste debate está, como questão central, a desigualdade entre homens e mulheres e como ela é construída de modo a operar concretamente no funcionamento desta sociedade de classes patriarcal, machista.

Casos como este do cartaz, se se mostram infames e abomináveis, merecendo ser veementemente rechaçados, como o foi por diversos coletivos e grupos que, além da nota de repúdio, também promoveram a modificação dos cartazes expostos, com os termos "RESPEITASMINA" e "JUNTASMINA”, também nos serve para demonstrar os limites de projetos ou políticas públicas que anunciam combater a problemática, mas estão completamente atados pelo moralismo religioso.

A libertação das mulheres de todas as formas de opressão passa pelo questionamento das bases que estruturam o nosso modelo de sociedade. O capitalismo, diferentemente do que muitos defendem, ao “abrir as portas do mercado de trabalho às mulheres” intensificou as desigualdades entre os sexos, usou os falsos discursos da “incapacidade” e da “fragilização” para fazer das mulheres mão-de-obra funcional à reprodução do sistema em nível estrutural e superestrutural.

Ainda há a difícil tarefa de libertar as mulheres das relações sociais, familiares e sexuais, das condições que são impostas por essa sociedade de classes.
Sabemos que por traz de palavras (como a impressa no cartaz) se ocultam violências de todos os tipos contra as mulheres, que a lógica do sistema tenta naturalizar, como, por exemplo,o uso comum do termomachista do cartaz em questão, para nomear festas, país à fora,onde a violência contra a mulher se manifesta.

Os campi universitários, como porções representantes do modelo de sociedade onde estamos inseridos, definitivamente não são lugares seguros para as mulheres.A grande maioria dos casos de agressão passa impune, porque existe uma lógica institucional autoritária, patriarcal e machista conivente e frequentemente reprodutora dessas opressões. Isso para não falar de um governo golpista institucional,igualmente conivente e opressor, que tem em sua base eleitoral elementos reacionários como é o caso de Bolsonaro.

A violência contra as mulheres é uma triste e revoltante realidade

Como afirma a Agrupação de Mulheres Pão e Rosas, vinculada ao Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT): nós mulheres somos empurradas a nos enquadrar no papel da ‘boa esposa, mãe e dona de casa’, sermos ‘belas, recatadas e do lar’ e quando não nos enquadramos, passamos a ser classificadas como ‘putas’. Quando estupradas, somos questionadas sobre as vestimentas que usávamos. Somos violentadas nos locais de trabalho, através dos assédios sexual e moral. Ainda somos as que temos nossos corpos mercantilizados, vítimas do trafico de mulheres e da prostituição. Sem falar da realidade das mulheres lésbicas e trans também, fatos que se tornam ainda mais gritantes, visto ser esse o país mais homofóbico do mundo, onde as mulheres não podem exercer livremente sua sexualidade e sua construção de gênero.

São diversas as formas de violência contra as mulheres, sendo o feminicídio o extremo dessa cadeia, que é perpetuada pela ideologia patriarcal e pelo sistema capitalista com sua moral burguesa e machista que faz das mulheres objetos sexuais e as obriga a exercer uma sexualidade heteronormativa, o que se converte na reprodução da vida com seu trabalho doméstico e na ideia da maternidade como uma espécie de “destino natural”.

Todavia, nunca é demais lembrar Engels, na obra A Sagrada Família, quando afirmavam que “(...) a mudança de uma época histórica pode ser sempre determinada em função do progresso das mulheres em direção à liberdade”. Os ataques aos direitos das mulheres e às suas lutas por emancipação são brutais e diários. Mas, sendo a “emancipação da mulher a medida natural da emancipação geral”, a continuidade de luta é premente.

Devemos veementemente, lutar contra a incitação ao estupro, contra o machismo presente cotidianamente e que aparece de forma explícita no cartaz construído pela turma de alunos de medicina da UFPB. Devemos exigir sua punição, pois os mesmos não podem se sentir impunes para, assim, voltar a atacar mulheres ainda com mais força, afinal o fato se torna mais gritante por ter ocorrido onde, segundo dados do Mapa da Violência 2015, o número de homicídios contra as mulheres cresceu 260% nos últimos dez anos, causando a morte de 126 mulheres por ano no estado.
Os problemas que atingem as mulheres devem tomar as ruas e ser cada vez mais radicais em sua tarefa de contribuir para construir as estratégias de emancipação feminina, nos marcos de um outro modelo de sociedade.

A luta contra a violência às mulheres, para nós, deve ser tomada pelo conjunto da classe trabalhadora e juventude, através de suas organizações como os sindicatos, entidades estudantis e organizações de esquerda que contribuam para que homens e mulheres lutem juntos contra a opressão de gênero e a exploração, impulsionando, desse modo, uma campanha nacional ampla contra a violência às mulheres e à lesbo-transfobia!




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