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DENÚNCIA: trabalhadores do telemarketing de SP relatam péssimas condições de trabalho

sexta-feira 29 de setembro| Edição do dia

O Esquerda Diário recebeu uma série de relatos e denúncias de trabalhadores do telemarketing de São Paulo durante esta semana que resolvemos publicar logo abaixo. Para manter o sigilo e a segurança resolvemos colocar somente as iniciais dos nomes dos trabalhadores. Se você, trabalhador do telemarketing, também quiser relatar suas condições de trabalho, os assédios que sofre no ambiente de trabalho, nos escreva: esquerdadiario@gmail.com

“Hoje acordo mais um dia, um dia triste talvez. Tenho que ir trabalhar onde infelizmente não sou tão valorizado. Tratado como um simples "número", tenho que dar o melhor de mim para bater uma simples meta, e ai de mim se não conseguir o "número" que me é imposto. Todos os dias me esgoto psicologicamente e fisicamente para fazer bater um simples "número". Tudo isso para gerar mais lucro a alguém que tem o comando de tudo, que cada dia suga mais de mim e das outras pessoas que ali trabalham e se estressam cada vez mais. É claro que nós que estamos na linha de frente. Não temos o reconhecimento que merecíamos infelizmente. Deveríamos ganhar muito mais financeiramente e no mínimo ter um tratamento digno de um ser humano. Aí fica uma simples questão em nossa cabeça: o quê deveríamos fazer para isso mudar? Como transformar esse mundo capitalista e egoísta em que vivemos, em um lugar melhor onde todos seremos tratados iguais, onde nem o dinheiro e nem o luxo, compre a nossa postura? São questões difíceis de se responder, mas tenho certeza de uma coisa: se todos nós que somos oprimidos unirmos forças, nós que somos pessoas que sonham em ter um mundo melhor, não há dúvidas de que iremos conseguir transformar esse mundo triste em um lugar muito melhor do que vivemos hoje.” S.F, 19 anos

“Quando me deparo hoje com a minha realidade, me assusto. É muita exploração pra pouco retorno e o pior: estamos satisfeitos com isso. E isso é facilmente explicável. Estamos acostumados a nos contentar com pouco, com o básico, com o mínimo necessário à nossa sobrevivência. O capitalismo de forma extremamente eficiente nos doutrina dessa forma e boa maioria da população está satisfeita com isso. Basta um simples exemplo. De todo lucro gerado pela nossa classe, muito pouco é repassado de volta. Isso é um retrato muito claro do real papel do capitalismo na sociedade: pregando prosperidade e liberdade econômica quando na verdade tudo que se vê é acúmulo de capital de um lado e miséria do outro.
O engraçado é que é um mecanismo tão eficaz que anestesia os indivíduos e os força a exercer funções exaustivas e repetitivas muitas vezes como no meu caso em condições insalubres e quase sem nenhuma resistência . Parabéns capital! Falta uma liga, falta unificação, falta atitude, falta perder a paciência, falta coragem, falta dar um basta nesse sistema opressor! Pois enquanto tem gente desfrutando viagens luxuosas, tem gente passando necessidade. Enquanto existem mansões gigantescas pra uma única família, tem gente morando na rua, muita gente inclusive. Enquanto o capitalista acumula capital, por puro egoísmo, o trabalhador padece, e na mesma proporção...” M.S, 21 anos

“Estar inserido hoje no mercado de trabalho é certamente um privilegio, segundo o pensamento da maioria. Acontece que chega uma hora, depois de dias e dias de ônibus lotado, horas e mais horas de trabalho, que o pensamento recorrente de que as coisas nem sempre foram assim e de que assim não podem continuar, se reafirma. A empresa na qual trabalho, e que hoje ocupo um cargo “privilegiado”, é um exemplo clássico de opressão e exploração da força de trabalho. Analisando todo o contexto nesses mais de dez anos sempre fica a sensação de injustiça. Gerentes e patrões viajando para o exterior às custas do esforço e dedicação dos vendedores, do pessoal da produção. Enquanto isso, nem o básico temos acesso com o mínimo de dignidade: banheiros sem janela e algumas vezes, sem papel; cozinha que não comporta o número de funcionários; constantes atrasos em vale transporte, condições básicas de trabalho muitas vezes sucateadas! Como uma empresa de telemarketing ativo tem uma rede de telefonia sempre com problemas? Como uma empresa que mede a produtividade de um trabalhador através de números e estatísticas tem um sistema operacional tão falho? Ainda assim, a questão material fala sempre mais alto. Na realidade, nos últimos anos, grita! Aluguel, comida para as crianças, contas de água e de luz cada vez mais caras. A sobrevivência passa a ser a tônica de cada dia, embora a sensação de que isso é muito pouco e de que cada um, cada trabalhador, que dia a dia doa seu suor ao meu lado, merece mais que isso, muito mais. E ver os patrões sempre de carro novo, sempre bem vestidos, sempre com os celulares mais caros, os filhos estudando nas melhores escolas, causa não só em mim, mas nos companheiros de trabalho, algo muito estranho: por que? Se sou eu que estou aqui, todo dia na labuta, enquanto eles não pegam no pesado. Esse nó na garganta vai tomando forma e através do encontro (lançamento da revista Ideias de Esquerda), conseguimos aos poucos, ecoar nossa indignação. Certos que no capitalismo não há justiça. Certos de que somos muitos e muitas, dentro e fora daqui. Não há reforma da previdência, não há ajustes na CLT que possam nos parar se nos juntarmos para lutar. Se cada trabalhador e trabalhadora cruzar os braços, se cada um de nós se negar a continuar fazendo os de cima encher os bolsos enquanto contamos moedas, o que eles farão?” T.D, 25 anos

“O mínimo que se espera de quem cobra excessivamente os seus serviços é que dê as principais ferramentas para trabalhar. Seu horário de entrada no expediente é contado a partir da biometria que também é necessária para abertura do sistema, porém essas ferramentas estão quase sempre com problemas. A empresa não conta como banco de horas, ou seja, caso você fique horário a mais não recebe nada por isso, mas se atrasa ou falta, é severamente descontado na folha de pagamento. No ambiente de trabalho não possui a minúscula qualidade de respiração e apenas existe "ar condicionado" que está sempre cheio de pó e mau cheiro, mas os funcionários são contemplados com o motivante som de goteira do ar condicionado. Enfim, essas são algumas de várias outras péssimas condições de trabalho em que me encontro hoje.” C.D, 26 anos

“São em detalhes, às vezes mascarados, que é vista a forma de opressão. Alguns acham que tem sorte de estar empregado hoje em meio a dificuldade do mercado de trabalho. Sorte você terá se sair do telemarketing sem nenhum dano físico ou moral. Trabalho em uma empresa de pequeno porte, onde as condições de trabalho não são as melhores, consideradas até insalubres. A minha “P.A” fica praticamente do lado do banheiro. O mau cheiro as vezes chega a ser insuportável! Sem contar que dentre os 3 banheiros, 2 não possuem janelas. Aos sábados, como o pessoal da limpeza não trabalha, é ainda pior. As vezes não tem papel, isso quando dá pra usar o banheiro em dia de sábado. A cozinha é minúscula em relação ao número de funcionários! É impossível 5 pessoas almoçarem lá confortavelmente! Faltam copos para tomar água, papel para secar as mãos, e até o café agora eles estão regulando. É um pó e um açúcar pra mais de 10 pessoas durante uma semana...se acabar, paciência né...ou faz vaquinha, ou fica sem. E lá como são 6 horas de trabalho é dado apenas um lanche. Assim que eu entrei na empresa na apresentação era informado que todos os dias pela manhã seria servido um "coffee break", mas o que realmente era servido eram bolos e pães que com frequência estavam vencidos e mofados. Atualmente o cardápio é bem diversificado: pão com mussarela ou pão com presunto, mas só uma fatia, porque sai caro pro patrão.” S.T, 20 anos




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