Juventude

GREVE NA USP

DCE da USP apoiou o absurdo aumento de 10 mil reais no salário da burocracia universitária

A chapa Nossa Voz não combateu abertamente a reinvindicação colocada como pauta do Fórum da Seis, que foi aprovada na Alesp com votos de deputados do PT e PSOL.

Odete Cristina

São Paulo

sexta-feira 8 de junho| Edição do dia

Enquanto nós estudantes aprovamos que as pautas da nossa greve são contra o arrocho salarial e por permanência estudantil, desejando articular uma luta unificada com funcionários e professores, o DCE Livre da USP, atualmente sob gestão da chapa Nossa Voz (PT, Levante e UJS) apoiou o absurdo aumento de 10 mil reais no teto do salário da burocracia acadêmica. Esse apoio se deu em primeiro lugar pelo fato que a entidade estudantil nem sequer se posicionou de forma crítica a pauta é defendido pelas associações docentes, mas o pior é que essa pauta foi aprovada como demanda do Fórum das Seis, do qual o DCE faz parte e não existe até agora uma única declaração a respeito, como fez o Sindicato de Trabalhadores da USP. Disso só podemos deduzir que nosso DCE não só apoia essa demanda, como foi parte dos setores que a aprovaram como pauta unificada do movimento, sem sequer debater com os estudantes. Mas tudo fica ainda pior, porque os deputados do PT, partido do qual pertence a maioria dos militantes da gestão Nossa Voz, votaram a favor dessa medida escandalosa na Assembleia Legislativa de São Paulo e também nesse caso não existe uma única autocritica do DCE.

A chamada PEC 05, que prevê a equiparação dos salários mais altos do funcionalismo público do Estado não mais com o salário do Governador (R$22,4 mil), mas com os vencimentos dos desembargadores do Tribunal de Justiça (R$30,4 mil), foi aprovada em segundo turno no Plenário da Assembleia Legislativa, com apenas 04 votos contrários e 67 votos favoráveis. Entre os favoráveis estavam os deputados do PT e até mesmo do PSOL.

É um absurdo que a entidade representativa dos estudantes não se coloque radicalmente contra a uma medida como essa, que só serve para beneficiar a burocracia do Estado e das Universidades, gerando um prejuízo de R$1 bilhão para a população e os serviços de saúde e educação. Enquanto o atual governador de São Paulo usa essa aprovação contra o funcionalismo público, como se o problema fossem a ampla maioria dos servidores públicos do estado que ganham menos que o salário mínimo recomendado pelo dieese, e não os super salários e privilégios da burocracia universitária.

Essa concepção do DCE só se justifica porque a atual gestão não tem como parte do seu programa o enfrentamento direto com toda essa casta burocrática e privilegiada que decide na base de bombas e balas de borracha se for preciso, para onde vai o orçamento e quais são as prioridades da universidade. Ao invés disso, o DCE defende um maior diálogo com a reitoria e a burocracia acadêmica, como se fosse possível conciliar os interesses dos estudantes e trabalhadores com os dos burocratas. Pelo contrário, nós que somos parte do movimento estudantil devemos ser os primeiros a questionar essa estrutura de poder herdeira da ditadura militar, exigindo a dissolução dos órgãos burocráticos como o Conselho Universitário, defendendo o fim da reitoria e uma estatuinte livre, soberana e democrática, instalando um governo tripartite onde sejam os estudantes, os trabalhadores e os professores aqueles que decidam proporcionalmente ao peso de cada categoria sobre os rumos da universidade.

Ao invés de apoiar medidas como essa, o DCE deveria usar seus quase 300 diretores em todos os campi da universidade para construir nossa mobilização, debatendo as pautas da greve e a necessidade de que os estudantes se mobilizem frente a tantos ataques. Realizando assembleias nos mais de 90 cursos que existem em toda USP. Se mandessem 3 diretores para cada um dos cursos, poderiam em uma semana, organizar passagem em sala, reuniões e assembleias debatendo as nossas pautas e defendendo abertamente a necessidade de nos mobilizarmos, para que assim os estudantes pudessem deliberar sobre os rumos da greve. Se o DCE estivesse realmente comprometido com a massificação da nossa mobilização, isso seria o mínimo que deveriam fazer, que aliás deveriam já ter feito desde o início do ano, pois os ataques não começaram agora. Para que pudéssemos dessa forma chegar na assembleia geral com uma visão cientifica da disposição dos estudantes, mas nem sequer isso eles fazem. Porque querem construir a passividade eleitoral, porque preferem deixar passar ataques como o aumento dos privilégios da burocracia universitária a mobilizar de fato os estudantes para que eles se tornem sujeitos no debate sobre os rumos não só na universidade, mas de todo o país. Essa é a lógica que o PT defende não só a frente das entidades estudantis, mas também da maior central sindical do Brasil, a CUT, e foi dessa forma, traindo a luta dos trabalhadores ao não organizar a greve geral ano passado, deixando passar a reforma trabalhista, ao não lutar de forma consequente contra o golpe institucional e os avanço do autoritarismo judiciário, mesmo quando prenderam arbitrariamente o Lula, que o PT manteve a classe trabalhadora imóvel e abriu espaço para direita se fortalecer, e capitalizar o descontentamento popular, como foi na crise dos combustíveis.

Mesmo com o freio do DCE, a aprovação da greve em alguns cursos e a disposição de paralisar em outros, mostrou que existe entre os estudantes uma vontade de lutar contra os ataques que acontecem na USP e em todo país, e um forte sentimento de solidariedade com as lutas dos trabalhadores. Para que essa disposição não seja enterrada por mais uma traição do PT, precisamos tomar a luta em nossas mãos, exigindo que o DCE faça o mínimo que é realizar assembleias em cada curso defendendo a necessidade da greve e a importância das nossas pautas, para que assim possam trazer na próxima assembleia geral um informe qualificado dessas discussões. Mas também não podemos nos deixar pressionar pelo vanguardismo de achar que uma minoria combativa e radicalizada pode substituir a massa dos estudantes em luta. Somente a partir de uma visão cientifica do desenvolvimento da nossa mobilização é que podemos avaliar concretamente quais deverão ser os nossos próximos passos.

Para nós da Faísca Anticapitalista e Revolucionária, o combate os privilégios das burocracias universitária precisa ser algo de princípio para uma entidade estudantil, por isso é inaceitável a postura do DCE dirigido pelo PT e devemos rechaçar fortemente essa medida que vai na contramão dos nossos interesses. Nossa luta por permanência estudantil e contra o arrocho salarial precisa se colocar fortemente pela abertura do livro de contas da universidade pois se tem dinheiro para o super salários da burocracria universitária, porque falta para os estudantes e trabalhadores? Precisamos também exigir mais verbas para educação pública para que a USP possa se tornar uma universidade realmente a serviço da classe trabalhadora e de toda população, garantindo que a implementação efetiva das cotas raciais, a permanência para toda demanda e avançando para acabar com o filtro social e racial do vestibular. Chamamos a todos os estudantes que concordem com essas ideias para dar esse combate conosco.




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