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Curso do Esquerda Diário tratará do pensamento de Lênin – entrevista com Simone Ishibashi

Curso do Esquerda Diário tratará do pensamento de Lênin – entrevista com Simone Ishibashi

O curso, intitulado “Lênin: teoria e prática revolucionária para os desafios de hoje”, pretende retomar aspectos fundamentais da obra do grande dirigente da Revolução Russa por ocasião das comemorações dos 150 anos de seu nascimento, completados no último 22 de abril, de modo a fornecer bases para a reflexão acerca da vigência de seu legado em meio aos desafios postos pela crise capitalista e sanitária atuais.

O Esquerda Diário vem tomando uma série de iniciativas para difundir a reflexão teórica e formação marxista. Após a realização do exitoso curso sobre O Capital, de Karl Marx, ministrado por Iuri Tonelo, que reuniu mais de mil pessoas inscritas, agora é a vez do curso sobre Lênin. O suplemento teórico Ideias de Esquerda conversou com Simone Ishibashi, editora do Ideias de Esquerda e doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ, que estará à frente do curso.

Ideias de Esquerda: Em que medida o contexto atual coloca, em sua opinião, a necessidade de retomar a obra e a vida de Lênin?

Esta é uma pergunta bastante abrangente, que eu poderia levar muito tempo para responder adequadamente (risos). Mas para apontar alguns elementos, partiria da definição de que se o estudo de Lênin é fundamental em todo o e qualquer momento, agora é ainda mais crucial. Isso porque estamos passando por uma superposição de crises, marcada pela junção da aguda crise política que assola o país, e das crises econômica e sanitária, que crescentemente revelam-se como uma crise do capitalismo em escala mundial. Quando vemos os Estados Unidos, imperialismo mais rico e central do mundo, batendo recordes de mortes por coronavírus, interceptando cargas de máscaras e respiradores para lidar com a crise sanitária, salta aos olhos toda a decadência e irracionalidade do sistema capitalista tomado em seu conjunto.

Por outro lado, as crises políticas, como as que estamos vendo em seu pleno desenvolvimento aqui no Brasil com um governo de ultradireita igualmente decadente e cada vez mais tutelado pelos militares, coloca a necessidade de elaborar uma saída política dos trabalhadores e do povo. Na última semana, por exemplo, com a saída de Moro, durante alguns momentos não se sabia, e em grande medida ainda não se sabe, o que deve acontecer no país. Mas a esquerda precisa elaborar um posicionamento estratégico, que leve a que os trabalhadores e o povo sejam os sujeitos que decidam os rumos do país. E isso coloca de maneira ainda mais urgente a necessidade de organizar a justa raiva dos trabalhadores com a presente situação, de modo a que ela culmine na construção das ferramentas políticas das quais os trabalhadores tanto precisam para enfrentar os capitalistas, seus governos e o Estado.

E o que Lênin, nascido há 150 anos, antes da globalização, da internet, do trabalho por aplicativos, do coronavírus, dentre tantas outras mudanças que ocorreram desde então, tem a nos ensinar? Eu te digo que tudo. Lênin foi um profundo conhecedor da dinâmica econômica, política e social do capitalismo. Tanto que elevou toda a reflexão sobre o surgimento do imperialismo, caracterizando-o como uma época de “crises, guerras e revoluções”, definição que se comprova, e se renova historicamente, mas nunca deixou de operar. Consequente até o âmago de sua essência com essa definição, Lênin como ninguém se armou na teoria e na prática para enfrentar os enormes desafios e possibilidades que se apresentaram à classe trabalhadora. Seu legado, como alguém que elaborou saídas políticas para os momentos de crise aguda, como estão plasmados por exemplo em sua grande obra O Estado e a Revolução, e toda a teoria de partido revolucionário, sempre em permanente contato com as necessidades concretas da classe trabalhadora em cada momento, são inestimáveis. Neste momento em que todos vemos a irracionalidade e barbárie capitalista frente à crise do capitalismo agravada pelo coronavírus, em que faltam insumos, como máscaras para os trabalhadores da saúde, enquanto governos como os de Trump e Bolsonaro nos atacam mais e mais a cada dia, a pergunta de outra grande obra de Lênin “o que fazer?” está na cabeça de todos. E ele pode nos ajudar a responder a esse questionamento crucial hoje.

Ideias de Esquerda: A direita e os capitalistas colocam Lênin como se fosse uma figura autoritária. Por exemplo, no último 22 de abril foi lançada uma hashtag no twitter para questionar a suposta incoerência de quem critica Bolsonaro e seu autoritarismo, e reivindica Lênin. Como você espera que o curso que dará elucide essa questão?

Pois é. Esta é uma posição absolutamente falsificadora de Lênin, que parte não raramente dos mesmos que se auto intitulam democratas, mas que na história recente de nosso país não hesitaram em sequestrar o direito da classe trabalhadora votar em quem quisesse nas últimas eleições, por exemplo. É uma postura cínica, pois muitas vezes vem dos capitalistas e seus meios de comunicação, que buscam propagar a falsa noção de que a única democracia possível é a capitalista. Que na verdade não é tão democrática assim, ainda mais em tempos de crise como os que estamos passando hoje.

Portanto, no curso debateremos como Lênin sempre colocou a centralidade da política em sua base de classe, o que por sua vez norteou a sua concepção de Estado, que no caso do Estado capitalista deveria ser destruído e não apenas “adaptado” para que uma verdadeira democracia em favor da maioria composta pelos trabalhadores e pelo povo pudesse florescer. Lênin em sua bela obra O Estado e a Revolução justamente se apropria das lições da Comuna de Paris de 1871 para debater qual a atitude, e o programa, para que os revolucionários pudessem lutar por uma verdadeira democracia, que fosse conquistada mediante a destruição do caráter coercitivo de classe do Estado capitalista, que atua como ente separado e que paira sobre os trabalhadores e o povo. Assim, ele indica como o exército regular, a polícia, ou seja o aparato de coerção deve ser destruído, enquanto aquela parte do aparato do Estado relacionada ao controle econômico, como os bancos, etc., deve ter o seu controle que hoje estão nas mãos dos capitalistas arrancados deles, e postos a serviço dos trabalhadores e do povo, subordinados aos organismos de auot-organização. Então a base de um Estado dos trabalhadores, que sim foi nomeada de ditadura do proletariado, nada tinha em comum com as ditaduras que são defendidas pela direita, na medida em que eram nada mais que o exercício do poder pela amplíssima maioria de qualquer sociedade, que são os trabalhadores.

Ideias de Esquerda: Sim. E hoje há setores da própria esquerda que buscam novamente igualar Lênin e Stálin, que negava essa lógica, não?

Sim, você está certo. Hoje há uma tentativa por parte de alguns setores da esquerda de reeditar essa operação em perspectiva esquerdista [risos]. Mas o próprio Lênin também fornece em suas obras as chaves para acabar com uma outra falsidade que ecoa no sentido encontrado na sua pergunta. Ou seja, a de que o stalinismo, com suas perseguições, capitulações, falsificações históricas e autoritarismo, seria um derivado direto de Lênin. Esta é uma noção que muito serve à propaganda capitalista, que ao colocar um sinal de igual entre Stálin e Lênin corrobora para a ideia que de Lênin era apenas “mais um autoritário”. E, apesar da reivindicação que alguns setores da esquerda hoje insistem em fazer do stalinismo, nada poderia ser mais distante da verdade. Esperamos com os debates do curso também ajudar a elucidar este ponto a partir da obra do próprio Lênin. Então, temos a expectativa que o curso seja um momento de intenso debate, de troca, para que possamos desfazer esses sensos comuns, avançando também para conhecer um pouco mais da vida e obra de Lênin, que viveu cada dia de sua vida de maneira radicalmente consequente ao que pensava sobre o mundo.

Ideias de Esquerda: E como serão organizadas as sessões do curso?

Partindo de tudo o que foi colocado aqui, teremos 3 sessões. A primeira será dedicada ao estudo das teses contidas na obra O Imperialismo – fase superior do capitalismo, para que possamos entender como Lênin via as transformações do sistema capitalista, e que implicações isso trazia para os trabalhadores e a esquerda. Creio que entender profundamente porque Lênin viu o imperialismo como uma verdadeira mudança de época, que passa a ser de “crises, guerras e revoluções” é algo muito significativo para apreender sua teoria e prática, e claro pensar como nos preparamos para o que vem por aí. A segunda sessão será dedicada ao estudo da teoria de Estado leninista, contida no já citado O Estado e a Revolução, pelos fundamentos postos acima. E a terceira buscaremos abordar debates cruciais contidos na teoria de partido e da revolução em Lênin, que serão inspirados em obras como O que fazer?, A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la, entre outros textos.

A primeira sessão acontecerá em maio, com data e horário ainda a confirmar. Serão sessões semanais sempre no mesmo dia e horário. E a ideia é que tal como vem ocorrendo com o curso de O Capital, formemos grupos de estudos com os que quiserem “se encontrar” para estudarem juntos e se aprofundarem nos temas. Nos próximos dias os links para as inscrições estarão disponíveis nos canais e na página do Esquerda Diário. Estamos bastante ansiosos, e chamamos a todas e todos os interessados a seguirem os chamados nas páginas e se inscreverem, para que juntos possamos ao invés de pensar a distopia refletir, e construir, a revolução que nos emancipe dos males que temos hoje.

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