Cultura

RELATOS REVOLUCIONÁRIOS

Crônica de um trotskista dinamarquês na Revolução Espanhola

O relato de um revolucionário internacionalista que fez parte desta grande empreitada da classe operária.

Clara Mallo

Madrid

segunda-feira 16 de outubro| Edição do dia

Durante a Guerra Civil espanhola muitos voluntários internacionais foram convencidos da união indissollúvel entre a guerra e a revolução, e puderam viver em primeira pessoa a brutal contrarrevolução stalinista. Ao fim da guerra e da revolução alguns deixaram testemunhos escritos de sua experiência. O texto mais conhecido é a Homenagem à Catalunha, de George Orwell, mas não é o único. Hoje resgatamos um texto de um daqueles revolucionários que fez parte desta grande empreitada da classe operária espanhola e internacional, a Revolução Espanhola.

"Um trotskista dinamarquês na guerra civil espanhola" foi escrito a partir do testemunho do próprio Aage Kjelso, um trotskista da Dinamarca que anos depois de participar da Guerra Civil decide publicar este breve texto que dava uma amostra da sua experiência como revolucionário. O texto aparece pela primeira vez na revista Hug! (Copenhague) em 1977 e mesmo que brevemente, em sua crônica, Aage procura condensar toda a sua experiência na Espanha, onde permaneceu durante quase dois anos. Neste valioso testemunho, Aage começa fazendo uma análise da Guerra Civil a partir de sua própria experiência, dando conta dos distintos agentes que operaram nela, das organizações operárias e de sua ação revolucionária. Com baso em toda a sua experiência analisa o papel que cumpriu o stalinismo como agente contrarrevolucionário convertendo o texto todo em um alerta contra estes.

Em 1930 Aage Kjelso havia se filiado, com seus 15 anos de idade, à DsU, organização juvenil socialdemocrata dinamarquesa. A DsU uniu-se internacionalmente prrimeiro a Zimmerwald, e depois à Internacional Comunista. Em 1933 muitos emigrados políticos alemães chegaram na Dinamarca, entre eles muitos críticos à direção do SPD (Partido Socialdemocrata da Alemanha) que denunciaram a passividade da direção diante da ofensiva nazi. Entre os emigrados alemães também chegou a Dinamarca um pequeno grupo de trotskistas com os quais Aage rapidamente se relacionou. "Ao entrar em contato com estes trotskistas fui expulso da DsU e assim fiz parte da criação de um grupo trotskista dinamarquês que chamamos Grupo de Trabalho Leninista". Este grupo impulsionou na Dinamarca a Liga de Luta Antifascista, na qual junto a outros socialistas expulsos da DsU e a alguns comunistas, levavam adiante uma luta contra os fascistas organizados na Dinamarca.

Motivado pela luta contra o fascismo, Aage decide viajar até a Espanha. Sua primeira tentativa de chegar à península foi um fracasso. Após a sua chegada a Marselha, teve conhecimento de que um barco zarpava para Barcelona com alguns voluntários internacionais. Porém, ao chegar, o interrogaram, o violentaram e o derrubaram. Diante da dureza do interrogatório, Aage sacou todo o seu arsenal político e ideológico crendo que somente assim poderia estar à altura da dura prova que lhe abriu as portas para a Espanha. Entretanto, depois do interrogatório e para sua surpresa, foi expulso do barco onde supunha estar entre aliados. Seu discurso não havia sido unicamente antifascista senão profundamente revolucionário, profundamente antistalinista. Aage não sabia que se encontrava entre seus inimigos, contra os quais também combateria na própria Espanha. Este foi o primeiro enfrentamento com o aparato stalinista, mas não foi o único. A experiência de sua trajetória na Espanha e seus escritos posteriores se transformaram em uma luta aberta contra os agentes da crescente burrocracia soviética.

Após esta primeira tentativa frustrada e graças ao contato com anarquistas em Marselha, foi capaz de comprar um bilhete de trem até a fronteira espanhola. Ali foi recebido por anarquistas que se encarregaram de seu translado a Barcelona. Depois de uns dias em uma espécie de quartel tomado pelos anarquistas onde foi instruído no uso do fuzil e das bombas de mão, foi integrado à Coluna Durruti e transportado para o fronte na Zona de Huesca. Em seu texto, analisa as diferentes organizações operárias de maneira geral mas não se detém em personagens concretos. Com foco em Durruti, fala da força do dirigente anarquista e da grande força da Coluna de mais de seis mil homens que dirigia, apesar da falta de meios, assim como a grande homenagem que Barcelona brindou à sua morte. Depois dos meses no fronte de Huesca, Aage decidiu regressar a Barcelona. Sua situação naquela parte do fronte não o permitia estar na ofensiva contra os fascistas. Com este objetivo se alistou nas Brigadas Internacionais com o intuito de poder chegar a um fronte mais "animado" e de poder fazer agitação entre os voluntários internacionais das brigadas e entre os comunistas. Ainda que fosse um objetivo bastante complicado, como Aage o comprovou: "a perspectiva de poder obter algum resultado terminou em uma ilusão."


Foto de um miliciano do POUM em frente ao Aragón

Com as Brigadas Internacionais, pode combater em distintos frontes, mas depois de alguns meses de experiência decidiu abandoná-las diante dos ocorridos no seio da República. "Esta decisão (...) derivava da profunda desilusão a respeito dos acontecimentos na República, onde a influência stalinista havia intensificado dramáticamente su próprio ritmo de crescimento graças ao envio de armas russas e à pressão da própria Rússia, exercitada por todos os representantes soviéticos, incluindo o Partido Comunista espanhol, que havia crescido com muita força enquanto porta-voz político daqueles que proviam as armas." Em sua narrativa, Aage faz uma análise concisa, mas nada superficial dos outros motivos que propiciaram o desenvlvimento do stalinismo na Espanha. Além de representantes daqueles que enviavam armas, também foi determinante "o fato de que fossem porta-vozes de todos os elementos pequeno-burgueses, moderados e conservadores em relação às questões econômicas e sociais, sobretudo a respeito da luta contra as coletivizações e a favor de uma nova privatização."

Assim, Aage regressou a Barcelona e apenas quando chegou se integrou ao POUM. Em Barcelona, Aage pode ver com clareza e de maneira aberta o papel cumprido pelo partido stalinista catalão, o PSUC. Precedidas de uma caça às bruxas violenta levada a cabo pelos stalinistas contra os revolucionários em geral e contra o POUM e os trotskistas em particular, chegaram as jornadas de maio.

Como cronista, Aage revive com uma grande paixão a resposta imediata que deram os trabalhadores nas ruas de Barcelona após o ataque orquestrado pela polícia stalinista à Telefónica controlada pelos trabalhadores. As barricadas foram levantadas igual ao julho de 36. "Em poucas horas, quase toda a cidade, e sobretudo os bairros de trabalhadores, estavam novamente sob o domínio dos revolucionários". A resposta dos trabalhadores foi tão contundente diante do ataque que "se os dirigentes da CNT tivessem querido, teríamos arrasado toda a contrarrevolução stalinista, pelo menos em Barcelona e na Catalunha". A crítica de Aage, ainda que se concentre no stalinismo, também abarca as decisões tomadas pelos dirigentes anarcosindicalistas que segundo o cronista não souberam dar uma resposta firme aos avanços de Moscou. Assim, o terror da contrarrevolução stalinista "não conheceu mais obstáculos".

Após alguns dias enfrentando a contrarrevolução nas barricadas, Aage foi preso e assim se deu início ao que de algum modo intuiu na sua primeira tentativa de chegar me Barcelona. A brutalidade dos métodos stalinistas. Aprisionados em um cárcere privado fora de Barcelona, Aage e outros trotskistas foram interrogados brutalmente. "Nos submeteram a muitos e longos interrogatórios noturnos em inglês e em alemão, conduzidos por elementos completamente sádicos e psicopatas de diferentes nacionalidades."

Após um tempo naquela cela, Aage foi condenado à morte, porém por um golpe de sorte foi capaz de escapar e sair da Espanha chegando na Dinamarca onde suas vivências "não foram escutadas de maneira muito entusiasta em ambiente nenhum". Depois de sair da Espanha, Aage não encontrou muito apoio na sua denúncia ao intuito stalinista de aniquilar os trotskistas e anarcosindicalistas. O stalinismo não somente tinha ganhado na Espanha. A contrarrevolução espanhola se desenvolveu em paralelo com os grandes expurgos da URSS e os processos de Moscou, algo que Aage comprovou muito de perto.

80 anos depois daquelas jornadas revolucionárias de 1937, quando a classe operária mostrou todo o seu potencial revolucionário, resgatar crônicas como a de Aage permite manter viva a memória das tradições de luta, e tirar lições para combater as traições. Uma obra que merece ser lida por novas gerações no Estado espanhol em todo o mundo.

Tradução: André Arruda




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