Política

RIO DE JANEIRO

Crivella 31 dias "cuidando das pessoas" com privatizações, repressão e sem estado laico

Com muita demagogia a gestão do novo prefeito Marcelo Crivella cumpriu 1 mês de funcionamento e já prevê cortes e precarização nos serviços públicos e entrega destes para o lucro privado nas PPPs. Os novos nomes da prefeitura prometem mais corrupção, menos separação da igreja e do estado, violência e repressão contra a juventude pobre e negra das favelas do Rio.

Carlos Neira

RIO DE JANEIRO

terça-feira 31 de janeiro de 2017| Edição do dia

No dia 1 de Janeiro desse ano, numa cerimônia regada a orações e rezas a Deus bem distante do estado laico que defendeu na campanha em 2016, o novo prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella tomou posse assumindo uma gestão municipal que já com Eduardo Paes começou mostrar sinais de estar sentindo os embates da crise econômica que já afeta profundamente o Brasil e em especial os serviços públicos do estado do Rio de Janeiro. Além disso, decidiu abandonar seu luxuoso apartamento no Condomínio Península na Barra da Tijuca, recusando morar na residência oficial do prefeito na Gávea Pequena para ir morar no Palácio da Cidade o que envolverá importantes investimentos em reformas do Palácio na rua São Clemente em Botafogo.

No Esquerda Diário denunciamos durante o processo eleitoral em 2016 e principalmente no segundo turno as verdadeiras intenções por trás do discurso demagógico, populista e meritocrático do então candidato a prefeito do PRB que tentava por todos os meios ocultar seu caráter ultra conservador e as evidentes ligações com a Igreja Universal, se apresentando como um trabalhador esforçado e que sua fortuna nada tinha a ver com o grande negócio da exploração da fé da Igreja Universal.

Não faltaram motivos para não votar no líder evangélico como publicamos no Esquerda Diário em "12 Motivos para não votar em Marcelo Crivella" e "10 novos motivos para não votar em Crivella" Denunciamos também os reacionários e corruptos apoios como o de Jair Bolsonaro e uma lista de vários vereadores suspeitos de ligações criminosas e inclusive teve apoio da Carminha Jerominho filha de um miliciano como denunciamos aqui e claro a já sabida aliança com o arqui-corrupto ’dedo podre’ Garotinho. Inclusive o caráter reacionário e a campanha suja de Crivella contra Freixo no segundo turno fizeram com que a viúva de Amarildo processasse o pastor por uso indevido da sua imagem.

Após eleito as comemorações da vitória mostraram a composição do que seria a gestão de Crivella comemorando a eleição junto com nomes como Clarissa Garotinho (PR), Silas Malafaia, Flavio e Jair Bolsonaro (PSC), os vereadores Junior da Lucinha (PMDB), Paulo Messina (PROS), o deputado Luis Carlos Ramos do Chapéu (PTC) que mostram a verdadeira cara reacionária da gestão Crivella. Os nomes que compõem o governo Crivella como veremos nesta nota seguem esta mesma linha reacionária.

A pesar das inúmeras críticas que o pastor evangélico levantou contra o ex-candidato Pedro Paulo e contra o governo de Eduardo Paes, o governo Crivella não é mais do que a continuidade da política do PMDB no Rio de Janeiro e que inclusive Crivella e o PRB fizeram parte dos acordos corruptos que o PT fez com setores da direita na procura da "governabilidade" sendo o evangélico acusado de desvio de verbas da Petrobras e caixa dois na campanha de Crivella no senado em delação

2017 inicia com pacote de privatizações no Rio

Já no primeiro dia de governo e na mesma linha que seu colega Doria em São Paulo, Crivella implementou vários decretos numa edição extraordinária do Diário Oficial. Para além dos detalhes de cada decreto o carro chefe da política do pastor são as PPPs, Parcerias Público Privadas para gerirem setores do aparato público municipal tudo sob uma legislação cheia de brechas e vazios que permitem as empresas ’parceiras’ fazerem o que quiserem com o dinheiro público. No final das contas, serviços ainda mais precários, corrupção e lucros milionários, concluindo na privatização desses setores. Assim, se a intenção de Crivella é a de "cuidar das pessoas" temos vários exemplos no Brasil e no mundo (inclusive no próprio Rio de Eduardo Paes) de que na base de cortes, privatizações e PPPs a perspectiva para os trabalhadores e os cariocas não é muito promissora. A administração de escolas, hospitais e Postos de Saúde também serão alvo da ofensiva privatizadora de Crivella. Inclusive no que diz respeito à Igreja Evangélica a administração de Crivella apresenta uma janela para a expansão dos negócios da Universal que já vem lucrando horrores com a abertura de centros de tratamento a usuários de drogas. Também o serviço de saneamento da zona oeste esta sob estudo para ser passado a uma parceria público-privada, assim como também para a iluminação de alguns pontos da cidade ainda em discussão.

"É proibido gastar" afirmou o bispo licenciado da Igreja Universal que cortou pela metade o numero de secretarias municipais, de 24 para 12 secretarias como parte do plano de desmonte do aparato municipal com privatizações e com a intenção do prefeito de cortar 50% dos gastos da administração municipal de cargos comissionados e 25% do gasto dos contratos em vigência. Mesmo tendo decretado isto no primeiro dia de governo, Crivella voltou atrás e renomeou vários dos cargos comissionados de servidores.

O prefeito ainda decretou a renegociação da dívida pública do município. Como denunciamos aqui, a dívida pública é um grande roubo do dinheiro dos contribuintes. A sua renegociação só se traduzirá em mais endividamento com os credores e portanto mais cortes, privatizações e precarização dos serviços públicos.

Recentemente o Partido Republicano Brasileiro (PRB) partido de Crivellafechou um acordo com o PMDB e o governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão para apoiar o pacote de maldades que será enviado à ALERJ em troca do comando da Secretaria de Agricultura e Pecuária para o partido do Bispo da Universal. Bem longe de "cuidar das pessoas" e nada novo para o partido de Crivella que já apoiou o golpe institucional, que colocou Michel Temer como presidente e o PRB também votou em bloco a favor da PEC 241/55, que é um forte ataque para o futuro dos serviços públicos congelando os gastos públicos por 20 anos.

Ofensiva evangélica na prefeitura e nomes repetidos da gestão anterior

Uma vez no poder, a distribuição do aparato público e de cargos políticos para pagar os apoios e alianças eleitorais não se fez esperar e o principal beneficiado, é claro, foram os evangélicos. Na quinta-feira 12 de janeiro, Crivella publicou os nomes para as 16 Superintendências Regionais da cidade criadas pela nova gestão de Crivella para substituir as Subprefeituras. Destes 16 nomes, 12 foram parar nas mãos de lideres evangélicos e aliados políticos. As 4 restantes foram nomeados no dia 17 de Janeiro.

Os nomes revelam mais ainda o caráter de continuidade do governo Crivella com as gestões anteriores do PMDB pois vários faziam parte também do anterior governo. Por exemplo Romildo Almeida Jucá, líder evangélico vinculado em campanhas com Silas Malafaia e o próprio Crivella é quem comandará a Superintendência de Inhaúma. Em Jacarepaguá assumirá Flavio Nunes Caland que já fez parte da gestão de Eduardo Paes ocupando o cargo de subsecretário de Esportes e também na administração regional de bairros da zona norte. Em Bangu, Janir Moreira de Souza do DEM, ocupará o cargo de superintendente da região foi sub-prefeito da Vila Militar quando Cesar Maia era prefeito. Em Campo Grande o superintendente será Jorge Luis Amaral Pinto do PRTB que coordenou a campanha de Crivella na região. Em Pavuna será o pastor Itagibe Amaral. Suely Amaral assumirá a Superintendência da Tijuca.

Quem comandará a Superintendência da Barra da Tijuca será o anteriormente sub-prefeito do Centro na gestão de Paes, Thiago Barcellos que deixou a prefeitura em 2016 para aderir a campanha de Crivella. Marcelo Maywald será o Superintendente da Zona Sul. Maywald também fez parte da gestão do PMDB como subsecretário de integração e controle urbano. Na Ilha do Governador será Daniel Balbi Waichel diretor do jornal Ilha Notícias.

No centro, Irajá e Madureira os nomeados são Marcelo Rotemberg, Roberto Rodrigues de Oliveira e Cristiane Silva Alves respectivamente. Os cargos restantes que foram publicados no dia 17/01 são, no Meier Eduardo Pires Rodrigues, em Santa Cruz Ulisses Moura Silva Araujo, Guaratiba, Lindo Johnson Martins e Ramos Hildebrando Gonçalves Rodrigues (PR).

Novo secretariado abunda em corrupção e reacionarismo

Sobre os 12 secretários da prefeitura de Crivella, vários dos nomes expressam o mais reacionários da política do Bispo da Universal que já se mostrou hostil aos negros e aos LGBT como ele próprio escreveu no seu livro "Evangelizando a África" questão que aprofundamos no artigo "A “evangelização” de Crivella: mentiras, racismo e intolerância.

O anterior adversário de Crivella no primeiro turno das eleições municipais e posteriormente aliado, Índio da Costa do PSD assumirá a Secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação. Ambos, Índio e Crivella são parte de partidos que apoiaram o golpe e que votaram a favor da PEC241/55 como denunciamos aqui
Claudio Rosa Fonseca, nomeado para o cargo de subsecretário de Defesa Civil é bombeiro e como denunciamos no Esquerda Diário já foi condenado por corrupção ao utilizar irregularmente mais de R$1 milhão de dinheiro público com alimentos, festas, viagens, TV por assinatura. Pro Bispo da Universal, que já fez aliança com o Garotinho, essa condenação por corrupção não é empecilho para nomeá-lo secretário.

O secretário da Ordem Pública, Cesar Amêndola (PRB coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro e fundador do antigo Nucoe (Núcleo de Operações Especiais) que posteriormente passou a ser o reacionário Batalhão de Operações Especiais (BOPE). Agente da ditadura brasileira, o coronel da PMERJ já foi citado como envolvido no caso da morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, mas como é comum nos abusos e casos de assassinatos por parte de policiais onde abunda a impunidade, continua em liberdade e agora exercendo um alto cargo na prefeitura do Rio de Crivella. O nome do novo secretário também apareceu no caso da bomba que explodiu no Rio Centro em 1981. O novo secretário da Ordem Pública já iniciou no cargo dando continuidade e aprofundando a política de apartheid da juventude negra que já vem sendo feita sistematicamente pelo governo do estado de Pezão e do anterior gestão de Eduardo Paes, como denunciamos no artigo "Pedágio Racial da PM isola a juventude negra das praias do Rio".

Iniciada a gestão o intolerante Crivella teve que pagar as alianças eleitorais com o PR de Garotinho e a filha deste último ocupa agora o cargo de Secretária de Desenvolvimento, Emprego e Inovação.

Na mesma linha de fortalecimento da Igreja Evangélica no governo municipal quem assumirá a cabeça da Secretaria de Conservação e Meio Ambiente será o pastor da Assembleia de Deus Rubens Teixeira que foi diretor financeiro da Transpetro durante a gestão do investigado pela LavaJato o pemedebista Sérgio Machado. Outro nome que assumirá cargo na gestão de Crivella é Carlos Eduardo do SD mesmo partido do Paulinho da Força.

Existem várias questões ainda em estudo por parte da nova gestão municipal como por exemplo o estudo para a criação de clínicas públicas para atendimento de saúde especializada , o estudo para a municipalização de 16 UPAs estaduais, o estudo para a municipalização dos restaurantes populares do estado que foram fechados por falta de recursos ou inclusive o estudo para a possível municipalização do Maracanã, o Teatro Municipal e o Museu da Imagem e do Som, esses possíveis processos de municipalização serão sob a lógica da privatização passando para a esfera municipal mas para serem geridos via Parcerias Público Privadas ainda mais tendo em consideração o aprofundamento da crise econômica que vive o estado do Rio a tendência no município é ir pelo mesmo caminho.

Sabendo todo o reacionarismo, o racismo e a LGBTfobia expostas pelo bispo e agora prefeito da cidade do Rio, é de se esperar mais repressão para a juventude pobre e negra das favelas, mais discriminação e violência contra os LBGT na cidade.




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