Gênero e sexualidade

Coronavírus

Crises sanitárias: mais riscos para as mulheres

As mulheres estão mais expostas às consequências da crise sanitária desencadeada pelo Coronavírus em todo o mundo. Ramos feminizados, precarização e trabalhos de cuidado não remunerados, as raízes do problema.

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

terça-feira 17 de março| Edição do dia

Publicamos aqui tradução de artigo publicado originalmente no Semanário Ideas de Izquierda no La Izquierda Diario Argentina.

A crise sanitária desencadeada pelo Coronavírus deixou em evidência as condições do sistema de saúde em muitos países, depois de décadas de privatizações e cortes estatais. As condições de vida da maioria da população e as grandes desigualdades ficam a olho nu em emergências como as que atravessam países como a Itália, o Estado Espanhol ou os Estados Unidos.

Um dos casos paradigmáticos é o dos Estados Unidos, um país onde não existe saúde pública e o número de contágios poderia se multiplicar rapidamente frente à impossibilidade de acesso da maioria aos kits para teste que são pagos. A isso se soma o efeito dominó da crise econômica emergente, que golpeia primeiros as trabalhadoras e os trabalhadores de serviços, majoritariamente precários, que já estão perdendo seus empregos sem indenização, nem acesso à saúde. O que acontecerá com estas pessoas de adoecem?

Por que as mulheres podem estar no foco?

O vírus afeta todas as as pessoas, sem importar seu gênero. Inclusive, algumas das cifras de mortes na China (o primeiro foco da doença) mostram que a taxa de mortalidade é maior entre os homens. No entanto, outras razões podem fazer com que o vírus afete de forma desproporcional as mulheres.

Existem dois motivos principais que explicam uma exposição maior às consequencias da crise sanitária. O primeiro é que as mulheres são maioria na área da saúde, especialmente na enfermaria e na limpeza, mas também entre médicos e técnicos. O segundo é a super-representação das mulheres e das meninas entre as pessoas que realizam tarefas de cuidado, de forma não remunerada ou em condições precárias.
Na China, como acontece em outros países, a maioria do pessoal da saúde são mulheres. No caso das enfermarias é esmagador: mais de 90%. Entre os médicos, representam 50%. O Comitê Nacional de Saúde chinês revelou que as e os profissionais que viajaram para o estado de Hubei (onde se encontra a cidade de Wuhan, epicentro da crise neste país): de 42.600 profissionais, 28.000 eram mulheres.

Esta situação se repete em quase todos os países. Segundo um informe da Organização Mundial da Saúde OMS), 70% das trabalhadoras e trabalhadores da saúde são mulheres. A brecha salarial no setor chega a 28% e a maior parte é explicada pelas horas disponíveis para trabalhar fora do lar (ou seja, é mais provável que as mulheres trabalhem part-time e flexíveis, o que não significa que trabalhem menos horas, mas que para completar um salário de jornada completa precisam ter mais de um emprego).

Na Argentina, as mulheres também são maioria na área da saúde (71,2% segundo dados oficiais). Como acontece com a educação (73,6% são mulheres), os ramos feminizados costumam ser de salários mais baixos. Geralmente derivadas de tarefas de cuidado tradicionalmente “femininas”, os setores que se dedicam a tarefas socializadas de cuidado costumam ter maiores taxas de precariedade, jornadas extensas e em ambas se registram altos graus de burn out (esgotamento).

As mulheres também são maioria nas tarefas de cuidado não remuneradas. Com os cortes e a privatização de áreas inteiras de cuidado, como saúde, educação e o cuidado de idosos e pessoas adoecidas, as tarefas não remuneradas se multiplicam para as mulheres, frequentemente após sua jornada de trabalho fora do lar. Este fenômeno não se deve à crise em si mesmo, mas é sim um resultado de medidas como a suspensão das aulas, saturação do sistema de saúde e de cuidado, entre outras.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 76,2% das pessoas que realizam tarefas de cuidado não remuneradas são mulheres e meninas. Voltando ao exemplo chinês, a porcentagem chega a 80%. Em nosso país (NdT: a autora é argentina), apesar de estar muito longe, as cifras são similares.

Um estudo recente do Indec mostrou que 8 a cada 10 mulheres realizam tarefas domésticas no lar, o dobro que no caso dos homens. A isso se soma um fator importante, sinalizado por Lucía Ortega no artigo “Crises, brechas e precarização: a situação das mulheres trabalhadoras na Argentina”, que é a dificulade para medir o ajuste estatisticamente nas tarefas domésticas:

“Em um contexto de aumento dos preços e deterioração dos salários as tarefas do lar tendem a se intensificar, pela necessidade de substituir os produtos adquiridos no mercado por outros realizados internamente para diminuir os gastos. Entre estes, a preparação dos alimentos, o cuidado de idosos e crianças, a contratação de pessoal de limpeza. A isso se soma a diminuição dos serviços prestados pela Estado (educação, saúde)”.

Combinação explosiva

A crise sanitária estoura neste contexto complicado para as mulheres e atormentado de desigualdades. As medidas tomadas pelos governos, ainda quando adequadas em si mesmas, como o caso espanhol onde as aulas foram suspensas, como parte de um pacote de políticas insuficientes e tardias, podem resultar em multiplicação de desigualdades. Medidas como a suspensão das aulas não contemplam o efeito dominó que é provocado nos lares da maioria das famílias, que são trabalhadoras. Josefina Luzuriaga advertia sobre este problema no Izquierda Diario espanhol, publicado aquiem português:

“Se faltar no trabalho para cuidar das crianças ou doentes não é garantido com licenças pagas e obrigatórias, ao mesmo tempo, a crise do coronavírus golpeia a economia provocando a queda nos lucros empresários, as demissões massivas não se deixarão esperar. Isso será especialmente grave para aquelas pessoas que tem os trabalhos mais precários, que combinam temporalidade e parcialidade, um segmento onde a porcentagem de mulheres é o dobro da de homens. (Pesquisa: “Mujeres en el mercado de trabajo, mujeres pensionistas y mujeres migrantes en el siglo XXI”).”

O panorama das áreas de cuidado remuneradas, empregos precários e de baixos salários por definição, não é melhor. O fato da maioria das cuidadoras sejam mulheres e imigrantes é um denominador comum. As condições de trabalho costumam ser mais precárias que a média, frente à ausência de direitos de organização e sindicatos; ninguém garante sua saúde, nem sua segurança no emprego. Em nosso país, a situação das trabalhadoras domésticas (que inclui cuidados) é similar. Um ramo feminizado quase por completo, 97% são mulheres, e sem direitos sindicais. 75% trabalha não registrada, o que as deixa sem proteção frente a situações de emergência. Se a isso se soma o impacto da crise econômica, a situação piora, mas depois da negativa do governo em reconhecer seu direito a seguro para diminuir algo da perda de poder aquisitivo.

Como costuma acontecer nas crises econômicas, sociais ou sanitárias, a desigualdade tende a se agudizar e piorar as más condições de vida. As sociedades, como as nossas, organizadas ao redor dos lucros capitalistas e não da vida das maiorias, ficam desprotegidas frente a cada emergência.




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