Política

Crise orgânica: queda do PT não melhora os resultados eleitorais de PMDB e PSDB

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

sábado 1º de outubro| Edição do dia

Segundo o jornalista Fernando Rodrigues, do UOL, o PSDB e o PMDB contam com altas chances de disputar a maior parte de prefeitos eleitos em outubro de 2016 nas principais cidades do país, segundo as pesquisas mais recentes. Os 2 partidos teriam os maiores números de candidatos competitivos no G93, o grupo que reúne as 26 capitais e as 67 cidades com mais de 200 mil eleitores (e nas quais é possível haver 2º turno).

Uma afirmação como essa não parece corresponder às condições de um país atravessado por uma profunda polarização política e social, em que a crise de representatividade dos partidos “símbolo” do regime político marca o tabuleiro eleitoral, e gera a separação entre grande parte da população e suas agremiações políticas tradicionais. Utilizando o conceito do marxista italiano Antonio Gramsci, o Brasil passa por uma profunda “crise orgânica” – como viemos tratando no Esquerda Diário – uma crise na forma habitual da política das classes dominantes que penaliza em primeiro lugar os maiores: não há dúvida que o PSDB e o PMDB estão aqui, dois dos principais partidos deste Regime de 1988.

A capital paulista resume um exemplo. Segundo a pesquisa mais recente do Datafolha, realizada na última segunda-feira, 34% dos paulistanos que revelaram o voto admitiam a possibilidade de ainda mudar sua opção até domingo. Essa proporção cresceu em relação a 2012 - em período correspondente, alcançava 25%. Há quatro anos, mostravam-se totalmente decididos 73%, caindo agora para 64%. Um de cada três eleitores não tem simpatia por nenhum partido, e o voto nulo/branco alcança a casa dos 12% (o que indica um voto consciente de protesto), maior desde a redemocratização.

A primeiro exame, portanto, parece no mínimo uma conclusão “apressada”; e toda pressa é guiada por um interesse. O objetivo desta “interpretação” na pesquisa é cristalino: “demonstrar” como tucanos e peemedebistas estão aproveitando e ocupando os espaços deixados pelo PT, fortalecendo-se às expensas deste.

Que o PT está numa crise histórica, não há dúvida (assimilando a corrupção própria dos capitalistas e aplicando duros ajustes contra os trabalhadores); daqui, entretanto, não se depreende que as outras duas principais agremiações desta “democracia dos ricos” estão aproveitando “a plenos pulmões” o espaço aberto.

PMDB-PSDB estão ocupando com força o espaço perdido pelo PT?

O PT chega a esta fase da campanha com apenas 1 candidato isolado na 1ª posição. Trata-se do prefeito de Rio Branco (AC), Marcus Alexandre, que tenta a reeleição. Esse pode ser o pior resultado do partido desde 1996, quando elegeu 9 prefeitos dessas 93 cidades mais relevantes do país. De lá para cá, esse número cresceu. O pico foi em 2008, no auge do governo Lula, com 25 prefeitos e a hegemonia nacional.

Antes de ir aos dados, cabe uma ressalva nos critérios de grandeza usados pela análise. Rodrigues usa a categoria “candidatos competitivos” para amontoar resultados diferentes e dar a sensação de um “terremoto”: o PSDB teria 22 candidatos nessa condição; o PMDB, 18. “Candidatos competitivos” seriam aqueles que estão na 1ª colocação das pesquisas de intenção de voto, seja de maneira isolada ou dentro da margem de erro dos levantamentos.

Isso quer dizer que: por exemplo, em Belém (PA), onde Zenaldo Coutinho do PSDB está mais de 10 pontos atrás de Edmilson Rodrigues do PSOL, o tucano é contabilizado como um dos 22 tucanos “que devem ser” premiados com a prefeitura. Ou, por exemplo, em Campo Grande (MS), onde a tucana Rose Modesto está mais de 14 pontos atrás de Marquinhos Trad do PSD. No mínimo, uma precipitação fruto de uma metodologia de análise interessada. Outra importante falha metodológica: não se aponta se o espaço ocupado seria às custas da saída de um prefeito do PT.

Agora, aos dados. Das 26 capitais, PMDB e PSDB lideram em 10, menos da metade. Dentre essas 10 capitais, 4 são nas regiões norte e centro-oeste, locais tradicionalmente mais conservadores em que não disputavam com o PT, além de possuírem pouco peso político-econômico. Três capitais são realmente de peso, e outras três tem importância intermediária.

PMDB lidera em: Boa Vista (RR) 74%; Cuiabá (MT) 28%; Goiânia (GO) 37%; POA (RS) 31%; Florianópolis (SC) 35%. Para todos, usamos dados arredondados. Destas, Porto Alegre se destaca como a mais importante, que tinha como prefeito José Fortunati, que apesar de ter sido deputado constituinte pelo PT, é hoje membro do PDT. Em Boa Vista, a prefeita Teresa Surita já é do PMDB. Se vencedor em Cuiabá, o PMDB substituirá Mauro Mendes do PSB. Em Florianópolis, substituiria César Júnior do PSD. Goiânia é o único lugar que o PMDB tem a chance de substituir um petista, o prefeito Paulo Garcia.

PSDB lidera em: Belo Horizonte (MG), com 32%; São Paulo (SP), com 28%; Maceió (AL), com 37%; Manaus (AM), com 42%; Teresina (PI), com 48%. São Paulo e Belo Horizonte formam poderosos colégios eleitorais, e deixam o PSDB em posição de governar o estado e a prefeitura paulistas. Entretanto, apenas desloca o PT em São Paulo, governada por Fernando Haddad, que amarga 11% das intenções segundo DataFolha. Em Maceió, o prefeito Rui Palmeira já é do PSDB, mesma situação do prefeito Artur Neto, de Manaus. Firmino Filho, prefeito de Teresina, é também tucano. Em Belo Horizonte, o vencedor substituirá Márcio Lacerda do PSB que tinha sido apoiado tanto por petistas quanto por tucanos.

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Ou seja, na situação atual das intenções de voto, a dupla PMDB-PSDB “ocuparia” o espaço perdido pelo PT em apenas duas capitais, São Paulo e Goiânia e a depender do que a pesquisa de Porto Alegre, dentro da margem de erro, se confirmar com um segundo turno Melo-Marchezan (PMDB-PSDB) e não Melo-Pont (PT).

Como dizíamos no Esquerda Diário, o que caracteriza estas eleições pós-golpe institucional é um agravamento, e não atenuação, da crise de representatividade e sua pulverização eleitoral. Os 35 partidos com registro no Tribunal Superior Eleitoral concorrem com candidato próprio nas 26 capitais – e 16 diferentes siglas lideram no momento a corrida, segundo as pesquisas de opinião. Há quatro anos, 29 partidos lançaram candidatos e 11 elegeram prefeitos de capitais.

Basta ver que lideram capitais partidos como PCdoB, PT, Rede, PSD, PMN, PDT, PR, PSB, PTB, PRB, DEM, PP, SD, PPS e PSOL.

Adiante. Se além das capitais contamos as 55 cidades com mais de 200 mil habitantes, veremos que o PMDB não se sai tão bem. Em Volta Redonda (RJ), lidera com apenas 1% o PRB. Em Vitória da Conquista (BA), lidera com 41%. Em São José do Rio Preto (SP), lidera com 46%. Em Juiz de Fora (MG), está à frente com 30%. E em Joinville (SC), lidera com 33%.

Com os mesmos critérios, o PSDB lidera majoritariamente em cidades no estado de São Paulo, onde já goza de tradicional favoritismo, ou seja, não expressa algo notavelmente novo. Lidera em Barueri (SP) com 74%; em Jundiaí (SP) com 35%; em São José dos Campos (SP) com 35%; em Piracicaba (SP) com 58%; em Taubaté (SP) com 38%; em Blumenau (SC) com 44%; em Governador Valadares (MG) com 68%; em Pelotas (RS) com 53%.

Em Osasco, na Grande São Paulo, está 5 pontos atrás do líder PDT. Em Ribeirão Preto (SP) está 7% atrás também do PDT. Em Vila Velha (ES) está 3% atrás do PSD. Todos estes são casos em que o PSDB é qualificado como “competidor”, mesmo em situação difícil. Em Porto Alegre está em segundo lugar nas novas pesquisas, tecnicamente empatado com o PT.

Apenas em São Bernardo do Campo (SP), em que os tucanos lideram com 27% (apenas 4% acima do PPS), Governador Valadares e São José dos Campos, o PSDB ocupa categoricamente espaço perdido pelo PT. Pelotas, Blumenau, Piracicaba e Taubaté já constavam prefeituras tucanas.


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A conclusão parcial, utilizando principalmente os dados das principais cidades e capitais, é que o argumento oculto do jornalista do UOL não se sustenta. Mas ampliaremos esta visão para além da análise de Rodrigues e ver as dificuldades de PMDB e PSDB.

Novas formas de pensar à direita, mas também à esquerda

O PSDB está rachado, sem um líder claro; tucanos têm cargos no governo, mas não tem narrativa. Envolvidos nos esquemas de corrupção da Petrobrás, é notável como não encantam ninguém mesmo durante a crise histórica do petismo. Aécio, Serra e Alckmin disputam a candidatura do PSDB para 2018. Se Dória triunfa em SP, Geraldo Alckmin surge com força para cacifar-se à presidência pelo PSDB. Mas o pupilo de Aécio também colocaria o mineiro na disputa. Os dois asfixiariam José Serra.

Do PMDB nem se fala, seus inúmeros caciques regionais se dividem de acordo com interesses próprios; a divisão mais notável é entre Renan e Temer. Se o PMDB não triunfa em SP – como tudo indica – Temer sai como perdedor da contenda: sua aposta era Marta Suplicy (Serra entra na derrota, junto com a ala pró-Matarazzo).

Além disso, há alternativas não-tucanas à direita que atrapalham a situação do PMDB, que dirige o governo golpista.

Soma-se as dificuldades paulistas do PMDB a dificuldade no Rio de Janeiro. Meninas dos olhos do partido que pode conduzir a Copa e as Olimpíadas, mas tem seu candidato a sucessor de Eduardo Paes empatado tecnicamente em segundo lugar com outros quatro candidatos. Uma derrota de quem o PMDB pensava como sucessor presidencial dá outras mostras de debilidade. Uma debilidade que não é tão aguda quanto a do PT mas também está se mostrando.

Em Porto Alegre, no Rio de Janeiro e algumas outras cidades com um cenário bastante imprevisível os níveis de comparecimento às urnas no domingo conforme os bairros e idades podem definir quem serão os candidatos no segundo turno. Sinais de que as eleições não estão contribuindo para uma recomposição do regime político.

À fragmentação se combina uma percepção generalizada que todo o regime está podre, porém sem a classe trabalhadora vislumbrar uma saída estratégica anti-sistêmica. Repressão e censura à esquerda é a trama do regime político-judiciário para calar a turbulência nesse período sensível do golpe institucional, que envolve privar Lula da possibilidade de eleger-se em 2018 e abrir o cardápio dos recursos estratégicos do país ao capital estrangeiro, oferecendo a reforma trabalhista e previdenciária como tributo àqueles monopólios que procurarão novas fontes de valorização do capital.

Para a esquerda, é fundamental entender que o combate aos golpistas, seus ataques e à reforma política restritiva, exige a mais irrestrita independência política do PT e o combate à burocracia sindical. As “novas formas de pensar e sentir” à direita e à esquerda, que surgem de toda crise orgânica segundo Gramsci, preparam o terreno para o desafio da esquerda revolucionária emergir com grande política. A serviço disso que colocamos nossas forças na luta de classes, impulsionando o Esquerda Diário e as candidaturas anticapitalistas do MRT.




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