Sociedade

MEIO AMBIENTE E CAPITALISMO

Crise ambiental ou a urgência de uma revolução, segundo Walter Benjamin

Benjamin escreveu diversos textos nos quais se diferencia da concepção tradicional de natureza. Que lições podemos tirar para o presente? Há ecologia em Benjamin?

Sergio Moissen

Dirigente do MTS e professor da UNAM

quinta-feira 22 de setembro| Edição do dia

Segundo estatísticas, em menos de 10 anos, 30% dos elefantes da savana foram exterminados em decorrência do tráfico ilegal. Na China, conforme estudos, o comércio é completamente permitido e é motivo de discussão na COP 17 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) na África do Sul, que será realizada neste final de semana. O descongelamento das calotas polares, o aquecimento global, a extinção próxima de inúmeras espécies animais (agora se discute o desaparecimento da abelha e de seu impacto na vida humana) são noticias que confirmam que o capitalismo está destruindo o planeta.

Em meio a uma crise econômica de dimensões históricas, o extermínio do planeta e a privatização dos bens comuns naturais são mecanismos para saciar a infinita sede de lucro dos capitalistas.

Nenhuma legislação poderia mudar este turbilhão de destruição, somente uma mudança radical do modo de produção da vida poderia restabelecer o que Marx chamou de metabolismo universal da natureza. São muitos os documentos que podem chamar a atenção ao pensamento de Walter Benjamin e a natureza, desde um ponto de vista anticapitalista. Dedicamos-nos a análise de dois textos: Rua de Mão Única e as Teses sobre o conceito de história (em particular sua tese XI).

Marx e o metabolismo universal

Marx escreveu no século XIX o que Bellamy Foster chamou “o metabolismo universal da natureza” em que o trabalho alienado era uma mediação entre a humanidade social e a natureza objetiva. Marx considerou, em diversos textos, a lacuna aberta entre a sociedade e a natureza por meio da sociedade produtora de mercadorias.

Nos Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1844, Marx nos propõe que “o homem vive da natureza e isso quer dizer que a natureza é o corpo dele, com o qual há de se manter em processo de intercambio contínuo afim de não morrer o homem como parte da natureza” (MARX, 2009, p.112). Sob um ponto de vista comunista, a natureza não era uma “coisa” a nosso serviço e controle. Porém existia um chamado a constituição de uma relação harmoniosa e planificada com a natureza.

No entanto, as leituras reformistas do marxismo do século XX resultaram em algumas variantes de tipo positivista e foram atraídas por ideias tecnocratas e cientificistas, nas quais a natureza era uma fonte infinita de recursos. A socialdemocracia alemã foi à expressão mais acabada deste tipo de socialismo durante o século XX. Eduard Bernstein, um dos pensadores representativos desta tendência, considerou que o desenvolvimento da ciência, do conhecimento e controle da natureza aproximava o movimento operário do socialismo. Os bolcheviques, sob direção de Lênin e Trotsky, se opuseram a esta corrente. Estes dirigiram uma revolução em meio a Primeira Guerra Mundial, a “Primeira Carnificina Imperialista”, enquanto Lênin e Luxemburgo coincidiam na avaliação de que o imperialismo repartia os mercados mundiais da periferia do mundo, despojando recursos naturais e apropriando-se do território em detrimento dos países centrais.

Benjamin: aviso de incêndio

Benjamin recorre ao socialismo utópico para criticar o positivismo “marxista”, não para voltar a ele, mas sim como um complemento das ideias de Marx. Em As teses sobre o conceito de história, Benjamin analisa a concepção da natureza do utopista Charles Fourier. Diz-nos: “Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848 (...) as fantasias que tem dado tanto material para ridicularizar a Fourier revelam um sentido surpreendentemente são. Para Fourier, o trabalho social bem organizado deveria ter como consequência que quatro luas iluminassem a noite terrestre, que o gelo se retire dos polos e a água do mar não seja mais salgada.”. Os sonhos de Fourier insistiam que a natureza não era uma mercadoria, uma coisa disposta e infinita para satisfazer nossas necessidades. Pelo contrário, a natureza devia ser resgatada por meio de uma relação harmônica com o social. Benjamin considera que o regate da natureza deve ser realizado por um ato revolucionário, por uma voraz destruição do capitalismo, seu aniquilamento. A revolução, além de ser um acontecimento contra a história, é um ato em defesa da natureza.

Em Rua de Mão Única sustenta que o problema da revolução é o problema do tempo da destruição do planeta e com o ele o do homem. A burguesia se arrasta quando, dirige a civilização, devido à anárquica produção de mercadorias, a um perigo de avassalamento da natureza. A ideia de revolução, portanto, não é somente uma questão de se uma classe vence ou não, mas sim a necessidade de deter a tempo a catástrofe: se converte em uma urgência da civilização, a revolução é um ato que requer pressa e que não há tempo a se perder. Disse Benjamin: “O conceito de luta de classes pode induzir a um erro. Não se trata de uma prova de força na qual decide a questão quem ganha ou quem perde. Não se trata nem de uma luta sob a qual o vencedor irá bem e o perdedor mal. Pensar assim equivale a encobrir romanticamente os fatos. Pois a burguesia, vencendo ou perdendo a luta, se encontra condenada a sucumbir devido a suas profundas contradições internas, que no curso de seu desenvolvimento se tornariam mortais. A questão é tão somente se sucumbirá por si mesmo ou pela força do proletariado. A resposta final irá decidir se o desenvolvimento cultural de três mil anos persistirá ou chegará a seu fim. A história não conhece a infinidade ruim que cria a imagem destes dois eternos lutadores. O verdadeiro político somente calcula prazos. E se a supressão da burguesia não se consuma em um instante já quase calculável do desenvolvimento econômico e técnico, a inflação e o uso do gás como arma anunciam sua chegada. O pavio tem que ser cortado antes que a centelha chegue e ascenda a dinamite.”.

Benjamin está com Trotsky quando analisa que a resolução da crise da humanidade é a da ação revolucionária e da luta de classes, assinalando o papel chave do proletariado. Quando Trotsky se refere a que “A crise da humanidade, é a crise da direção revolucionária” se referia, também, a importância da construção de uma organização revolucionária como instrumento canalizador de respostas à crise civilizatória, na qual se encontra submersa a humanidade em consequência do capitalismo. Coincide também com Rosa Luxemburgo em sua frase de “socialismo ou barbárie” e Benjamin sustentava a “revolução como freio de emergência para deter a locomotiva da história que nos dirige à barbárie”.




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