Teoria

Marxismo/ECOLOGIA

Crise ambiental e Karl Marx

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 29 de novembro| Edição do dia

Considerando o colossal acúmulo de informações, conhecimento e reflexões sobre a atual crise ambiental, por que revisitar Marx ou Engels para pensar sobre o tema? Não basta o que sabemos hoje, o diagnóstico não está à vista?

Sim, o conhecimento concreto e mais atual é imprescindível. Mas as teorias ecológicas vigentes, ou hegemônicas, empobrecem ou parcializam o exame da crise ambiental, mesmo com tanta informação. Por exemplo, a ênfase da moderna ecologia, colocando como causa a “sociedade industrial”, ou então a ação predatória dos “homens” em geral, é uma premissa falsa. Passam por fora da divisão da sociedade em classes. E o remédio que costumam propor [cúpulas climáticas mundiais orquestradas pelos maiores poluidores do planeta ou então reformas ambientais nos marcos do capitalismo; ecotaxas etc ] não rompe com o foco vicioso de apostar em algum tipo de “capitalismo verde”. Literalmente, continuam girando em torno do mesmo círculo.

O que nos remete para a reflexão crítica, marxista, sobre a classe responsável pela máxima poluição e degradação, em função da maximização dos seus lucros e do seu controle privado sobre os meios de produção.

Ora, a partir daqui tudo tem totalmente a ver com Marx.

Quando os bolcheviques tomaram o poder em 1917, e antes de serem engolfados pela catastrófica guerra civi civil e invasão patrocinada pelas “democracias” ocidentais e o Japão, foram tomadas medidas - e ao longo dos anos foram feitas reflexões - que nem o capitalismo mais avançado da época conseguia sonhar. Os primeiros parques ou reservas naturais foram criados por Lenin [a natureza mantida intocada para fins de pesquisa], a primeira grande reflexão ecológica, no sentido mais moderno e mais atual do tema, foi levada adiante por um cientista que aderiu ao novo regime, soviético, o genial Vladimir Vernadsky.

A propósito, vale a pena evocar seu nome.

Vernadski [1863-1945] defendia que se deve abordar a biosfera como um sistema autorregulado, a partir da sua teoria que entende a matéria viva como uma força geológica capaz de mudar a face da Terra, o clima e mesmo o conteúdo da atmosfera. Alguns o classificam como um Darwin, só que na perspectiva de tomar a vida em sua escala geológica e planetária. Escreveu seu A biosfera, publicado em russo em 1926 [somente traduzido para o inglês no final dos anos 1990] com ideias avançadas para seu tempo e completamente atuais para a ecologia; como, por exemplo, a de que o ser humano é elementarmente inseparável da biosfera, na sua condição de matéria viva e energia biológica. Vernadsky também já falava da noosfera como novo fenômeno geológico no nosso planeta, onde, pela primeira vez, em suas palavras, “o homem se tornou uma força geológica em grande escala” [Foco do seu texto The biosphere and the noösphere”].

Portanto, nos marcos do impulso que a Revolução Russa promoveu em quase todas as áreas do conhecimento e da cultura, também se fez presente o debate ecológico em seu mais profundo nível teórico.

É essencial retomar esse legado.

O que passa, inevitavelmente, pelo método materialista-dialético fundado por Marx/Engels e também pela perspectiva na qual eles formularam a relação seres humanos/planeta, o que significa não tentar escamotear nem por um segundo a luta de classes quando se trate dos problemas ambientais.

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Pode lhe interessar assistir ao vídeo abaixo, com uma fala de 15 minutos, realizada nos marcos de um debate ambiental, na UnB [Loccuss/Serviço Social] em 20/10/17.
Imagem do artigo: Foto de Eric Ruder do site www.socialistworker.org 2013




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