Política

ELEIÇÕES 2016

Crescem os votos brancos, nulos e abstenções, resultados maiores que os votos de candidatos eleitos

Fernanda Montagner

São Paulo

segunda-feira 3 de outubro| Edição do dia

Somados os números de votos, brancos, nulos e abstenções obtemos um resultado maior do que os votos de candidatos ganhadores em nove capitais, esse resultado indica um rechaço massivo aos principais partidos tradicionais, e coloca maiores interrogações ao êxito eleitoral de alguns partidos, que apesar de terem vencido não conseguiram hegemonizar grande parte da sociedade, tão pouco resolvem a crise orgânica.

Em importantes capitais com maior colégio eleitoral, como Rio de Janeiro e São Paulo o resultando é gritante. Em São Paulo, João Dória (PSDB) ganhou a eleição no 1º turno com 3.085.187 votos. Número menor do que a soma de votos brancos e nulos e ausências, 3.096.304 (para maiores detalhes destes números na capital paulista ver). Já no Rio de Janeiro mesmo somando os votos dos dois candidatos que passaram para o 2º Turno, a contradição ainda se mantém, Marcelo Crivella obteve 842.201 e Marcelo Freixo 553.424, somando 1.395.625 votos, o total de brancos, nulos e abstenções foi 1.866.621.

Mas em outras capitais importantes foi possível observar o mesmo fenômeno, Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belém (PA), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS) e Aracaju (SE), também tiveram grande numero de votos brancos, nulos e abstenções. Um fenômeno nacional que expressa o rechaço aos partidos tradicionais por um lado, mas também trás contradição da negação da política por amplos setores.

Essa negação não significa uma despolitização absoluta em todos setores que anulam ou não vão votar, mas sim uma falta de alternativas e descrença com a política tradicional, resultado da crise com o regime e do afastamento que o Estado impõe a população, na qual ele é o sujeito da grande política enquanto ao povo resta cuidar do dia a dia e votar de quatro em quatro anos. Há despolitização por um lado, mas também um avanço na crise de representação, os dois fenômenos resultando neste expressivo resultado.

Isso explica a contradição entre o rechaço à política parlamentar e aos partidos tradicionais por um lado, e por outro grande politização em torno das questões sociais, como transporte, moradia, saúde e educação, assim como a politização em torno do desemprego e das reformas antipopulares do governo Temer, como da previdência e trabalhista.

Outro elemento importante, foi que estas eleições foram as primeiras após a mini reforma política de Cunha e sancionada por Dilma – mini porque o atual governo Temer e o PSDB estão pressionando para um projeto de reforma política ainda mais restritiva – marcadas assim pela falta de debate e de espaços de exposição de idéias, fora a redução do tempo da eleição em si, de três meses para 45 dias, também houve redução drásticas do tempo de TV, e uma série de leis restritivas que serviram primeiramente para atingira esquerda, mas também para fazer um processo rápido que impedisse que fosse gerada grande politização em torno do debate eleitoral.

Essa reforma privilegiou os partidos de direita e principalmente os candidatos empresários que financiaram suas próprias campanhas, como o próprio Dória em São Paulo, ou incentivou as coligações espúrias entre diversos partidos para conseguir mais tempo de TV, coligações que são marcadas por acordos de cargos e propinas.

Esses números geraram grande repercussão na mídia, com os principais jornais do país noticiando o fato, isso porque frente à crise de representatividade com o regime, esse rechaço às urnas coloca dúvidas do quanto os eleitos conseguirão governar calmamente ainda mais no ano de 2017 que está prometido uma série de ajustes antipopulares. Ou seja, da vitória à hegemonia vai um chão.

O próprio presidente do TSE, Gilmar Mendes, destacou que o índice “é relativamente baixo, se tivermos em conta as eleições de 2014, que tivemos quase 20% de abstenção", disse. Para ele o problema da baixa adesão nas eleições é resultado de uma multa branda para quem não comparece às urnas fazendo com que a obrigatoriedade do voto no Brasil “não se traduza” em uma obrigação de fato, com pena econômica relevante. Claramente não só expressa preocupação, como a resposta, não menos do que o esperado do judiciário, é aumentar o método repressivo e punitivo.

Assim são vitórias relativas se vistas por esse ângulo, por outro, apesar do fortalecimento de partidos de direita como o PSDB, o bom resultado do PSOL no Rio de Janeiro indica que além do descredito das eleições, fruto da crise orgânica, há também setores massivos que rompendo com o PT buscam alternativas à esquerda.
Comparativamente, os dados de 2008 a 2016 mostram uma ascensão dos votos brancos, nulos e abstenções, com resultado maior nas cidades que passaram por um Junho de 2013 mais profundo, como podemos ver: Rio de janeiro 2008 – 10,9%, 2016 – 24,3%, Porto Alegre 2008 - 16,3%, 2016 – 22,5% (para maiores informações sobre a eleição da capital gaúcha ver), São Paulo 2008 – 15,6%, 2016 – 21,8%.

O índice de abstenção no Rio foi o maior de todo o país (24,28%) e também o maior em eleições municipais desde 2008, não por acaso foi a cidade onde teve um processo de Junho mais longo, onde surgiram greves históricas como a dos garis, e onde terá um segundo turno mais polarizado entre Crivella, candidato conservador de direita, e Freixo, candidato do PSOL, processo que terá relevância para toda a esquerda.

Confira os dados para algumas cidades:

Aracaju (SE)

Eleitores: 397.228
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 139.723
1º lugar: Edvaldo Nogueira (PCdoB) 99.815

Belém (PA)

Eleitores: 1.043.219
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 365.731
1º lugar Zenaldo Coutinho (PSDB) 241.166

Belo Horizonte (MG)

Eleitores: 1.927.456
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 741.915
1º lugar João Leite (PSDB) 395.952

Campo Grande (MS)

Eleitores: 595.172
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 167.922
1º lugar Marquinhos Trad (PSD) 147.694

Cuiabá (MT)

Eleitores: 415.098
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 127.987
1º lugar Emanuel Pinheiro (PMDB) 98.051

Curitiba (PR)

Eleitores: 1.289.204
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 360.348
1º lugar Rafael Greca (PMN)356.539

Porto Alegre (RS)

Eleitores: 1.098.517
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 382.535
1º lugar Nelson Marchezan Júnior (PSDB) 213.646

Porto Velho (RO)

Eleitores: 319.941
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 106.844
1º lugar Nelson Marchezan Júnior (PSDB) 57.954

Rio de Janeiro (RJ)

Eleitores: 4.898.044
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 1.866.621
1º lugar Crivella 842.201

São Paulo (SP)

Eleitores: 8.886.195
Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 3.096.304
1º lugar João Dória 3.085.187




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