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Crescem as tensões nos Estados Unidos na reta final das eleições

Sobre a situação política dias antes das eleições nos Estados Unidos que ocorrem hoje

Juan Cruz Ferre

Left Voice, EUA

terça-feira 6 de novembro| Edição do dia

Serão renovadas 35 das 100 cadeiras do senado nacional, sendo 2 por cada um dos 50 estados do país, e a câmara de deputados se renovará completamente já que os mandatos só duram dois anos.

A polarização social dos últimos anos tem impactado em ambos partidos, democratas e republicanos. Enquanto na corrida de 2016 os republicanos se mostraram relutantes a apoiar Donald Trump, temerosos de que ele poderia mais trazer danos do que ajudar o Partido Republicano, neste ciclo eleitoral a maioria dos candidatos do partido se localizaram por trás de sua liderança. A vitória de Trump em 2016 redefiniu as estratégias eleitorais.

Enquanto que nas eleições anteriores se podia ver uma intenção mais clara de convencer os indecisos, ou de ganhar os votos dos que estavam no centro, a estratégia do Partido Republicano agora parece haver mudado em grande medida para tratar de consolidar a base conservadora.

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Para esse propósito, a política e a retórica de Trump tem sido mais do que úteis: os cortes massivos de impostos para os ricos ao final de 2017, sua retórica nacionalista, a confirmação de Brett Kavanaugh para a Corte Suprema e, mais recentemente, sua difamação da Caravana Migrante, os planos vazados para apagar a identidade transgênera e seu ataque planejado contra o direito à cidadania inata.

Tem sentido: a base republicana é desproporcionalmente branca, masculina e sem educação universitária. Enquanto essa estratégia tem um lado claro (em termos de chegar a novos votantes), as eleições dos Estados Unidos se decidem não somente pela porcentagem da população que elege um candidato sobre o outro, mas também pela participação dos blocos de votação em disputa. Trump vem demonstrado que pode tirar os votos, e isso é tudo o que importa ao Partido Republicano.

A catastrófica derrota do Partido Democrata nas eleições de 2016 sinalizou a maior incapacidade dos democratas da Terceira Via para levar a sua própria base para as urnas, e abriu uma crise de liderança no partido, deixando espaço para novas expressões. Muito se tem escrito sobre a nova geração de autodeclarados progressistas e socialistas que tentam arrebatar o controle do Partido Democrata dos democratas "do establishment", ou ao menos criar um espaço para eles mesmos dentro do partido.

Os nomes Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Rashida Tlaib e Julia Salazar são alguns exemplos disso. E como é evidente nestes exemplos, as mulheres estão desempenhando um papel destacado nesse esforço. Porém, o aparato do partido permanece sob rigoroso controle dos líderes do partido experimentados e moderados tais como Nancy Pelosi, Chuck Schumer, Tom Perez.

Um (leve) terror vermelho

Não está claro onde está a fronteira entre socialistas e progressistas entre os democratas, ou inclusive entre socialistas e liberais como Elizabeth Warren. No total, um número considerável de candidatos do Partido Democrata tem levantado demandas centrais promovidas pela ala progressista: Plano de saúde para todos, um salário mínimo de 15 dólares/hora e uma reforma na justiça penal (a qual inclui legalização da maconha e eliminar a fiança em dinheiro).

Sem dúvida, Hillary Clinton não defendeu nenhuma destas demandas na campanha de 2016. Os democratas descobriram que falar sobre temas da classe trabalhadora pode lhes dar os votos que necessitam. Em todo caso, a aparição desta nova camada de socialistas e progressistas competindo nas primarias democratas tem dado uma nova vida ao partido.

Ao mesmo tempo, a aparição desta ala de esquerda tem feito com que alguns democratas se sintam incomodados. A observação de Nancy Pelosi de que "o socialismo não está avançando no Partido Democrata" já é bem conhecida. Porém há expressões mais estranhas do que esta dentro do partido. Por exemplo, Joe Donnelly, candidato ao senado por Indiana, aparece em uma publicidade da campanha cortando lenha, criticando os "liberais" e fazendo alarde como "rompimento" com seu próprio partido. "Me separei do meu partido para apoiar o muro fronteiriço de Trump... Votei para estender os cortes de impostos de Bush", afirmou.

O problema que enfrentam os democratas nos distritos conservadores não é nenhum segredo para o Partido Republicano: a Casa Branca tentou jogar a carta "socialista" contra os democratas faz alguns dias. O relatório "Os custos de oportunidade do socialismo", escrito pelo Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, é uma tentativa de trapaça que busca amedrontar os votantes democratas potenciais ao compará-los com a URSS e a China comunista com os países socialdemocratas nórdicos e, em resumo, com qualquer um que se auto-intitule socialista. Baseado em dados duvidosos, selecionados e elaborados com métodos tendenciosos sem escrúpulos, o relatório não resiste a um exame detalhado. Seu objetivo é, sem dúvida, associar a ala esquerda do Partido Democrata com os soviéticos, os comunistas cubanos e outros inimigos estado-unidenses durante a Guerra Fria.

Sacudindo a reta final

Nas últimas duas semanas da campanha, alguns acontecimentos políticos tem sacudido a campanha. O apoio ao Partido Republicano por parte de César Sayoc, detido pelo envio de pacote de bombas, causou revolta por ser um fiel exponente do nacionalismo fanático, a intolerância e o racismo. O massacre na sinagoga de Pittsburgo também prejudicou Trump e o Partido Republicano por dois motivos: por um lado, o tiroteio em si foi atribuído pelo discurso incendiário de Trump e sua "política de ódio"; por outro lado, reabriu o debate sobre o controle de armas, discussão em que os republicanos só podem perder.

Porém Trump e os republicanos tem tentado chamar a atenção sobre outro acontecimento que lhes cai como uma luva: a retórica anti-imigrante contra a caravana de imigrantes lhes ajuda a consolidar a base do Partido Republicano. Ao mesmo tempo, os democratas tem se mantendo visivelmente silenciosos sobre isso, tratando de caminhar por uma linha tênue entre perder os votantes mais conservadores (caso se pronunciassem palavras de solidariedade aos refugiados) e perder o voto latino (se saem com uma clara mensagem contra a caravana). Se a isso agregamos o fato de que a caravana se originou em Honduras, o mesmo país onde um golpe militar respaldado por Barack Obama derrotou o presidente democraticamente eleito Manuel Zelaya em 2009, temos uma imagem completa do pragmatismo frio que guia as decisões no Partido Democrata. Até agora, não surgiu uma só palavra entre os democratas progressistas e os autoproclamados socialistas que falem a favor de admitir a Caravana Migrante nos Estados Unidos.

O retorno dos Democratas

Todos os prognósticos antecipam que os democratas voltarão a tomar a Câmara dos Deputados, enquanto que os republicanos manterão o controle do Senado. Os analistas acordam que há mais de 100 distritos com resultado aberto, a maioria deles de assentos ocupados por republicanos. Os democratas necessitam ganhar apenas 23 para conseguir uma maioria na Câmara, e é muito pouco provável que não conquistem. Depois de dois anos de uma presidência que vivenciou um número sem precedentes de protesto e mobilizações, uma mudança radical na Câmara não deveria surpreender a ninguém.

Embora as possibilidades no Senado sejam escassas, não se pode descartar uma reviravolta graças a alta participação dos votantes de primeira viagem e das comunidades negras enfurecidas pela política de Trump, porém é realmente uma possibilidade remota. Hoje, 6 de novembro, o Partido Democrata será catapultado para reconquistar o controle da Câmara dos Deputados, somente para esquecer os aspectos mais ousados de sua plataforma, ou culpar o fracasso em alcançá-los sobre o Partido Republicano, o "policial mau" no consenso bipartidário.

Este artigo foi publicado originalmente no Left Voice, edição estados-unidense da rede internacional do Esquerda Diário.




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