Educação

CRECHES DA USP

Creche não é de brinquedo: é feita de coragem e luta das mulheres

Aparentemente, um lugar de cuidado enquanto a mãe e o pai estão trabalhando. De fato, espaço fruto de lutas de milhares de mulheres em todo o mundo pelo direito de trabalhar e estudar. Entenda melhor porque o ataque às creches na USP é parte do pacote de ajustes que levam a uma precarização ainda maior da vida das mulheres.

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 26 de janeiro de 2017| Edição do dia

Creche não foi presente não, foi fruto de muita luta

Todos já viram as cenas das primeiras indústrias no mundo, onde as mulheres levavam seus filhos recém-nascidos para o meio da fumaça e da poeira do ambiente industrial. Junto dos bebês estavam as crianças, desde muito pequenas, trabalhando como adultos, recebendo salários ainda mais miseráveis e sofrendo terríveis acidentes de trabalho.

A alternativa das mulheres sem as creches era apenas essa: inserir seus filhos no ambiente de trabalho e torcer para que saíssem vivos. A reivindicação das creches passa a surgir nos primórdios da organização da classe operária e, dentro dela, dos enormes grupos de mulheres que se inseriam rapidamente principalmente a partir da evasão de homens dos países pelas primeira e segunda guerra mundial.

No Brasil, além da implementação de creches a partir desse mesmo modelo, muitas tiveram origem a partir de medidas também dos trabalhadores para conter os efeitos de miséria e mortalidade infantil gerados a partir da Lei do Ventre Livre (1871), que lançou centenas de crianças nascidas de escravas às ruas, e da abolição da escravidão. A situação de miséria de milhares de crianças fortaleceram a reivindicação que vinha das mulheres trabalhadoras de que o Estado se responsabilizasse pelo cuidado de maneira compartilhada, possibilitando a ida da mulher ao ambiente de trabalho e reduzindo os efeitos de miséria geradores de números recordes de abandono e mortalidade infantil.

Foi apenas a partir de grandes lutas de mulheres, entretanto, que as creches se tornaram lei nacional na Constituição de 1988, ao fim compactuado da Ditadura Militar. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, como direito da criança, se firmou apenas em 1996.

Direito da mulher e da criança: retirada de creche é um ataque contra dezenas de gerações

O direito da mulher a comparecer ao local de trabalho e estudo sem a necessidade de assistir à criança foi arrancada do Estado a muito custo, logo, antes de qualquer dano que possa ser mencionado, a retirada desse direito ataca gerações longínquas de mulheres que colocaram em luta para garantir esse mínimo direito de realizar-se como ser independente da maternidade.

Conquista das mulheres e direito também da criança, as creches representam um importante espaço educacional. As crianças que perdem o direito à creche pública, sofrem portanto um ataque brutal. Há muitos já se debate que a creche é também um direito da criança de conviver com outras, de ser exposta a profissionais da educação que a ajudem no processo de aprendizado desses preciosos primeiros anos de vida. Essa geração, além da perda de creches públicas, está sendo ameaçada de diversos outros ataques aos quais temos visto forte resistência, expressa na luta de secundaristas em São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, entre outros estados.

No caso das creches/pré-escolas da USP são creches modelo, vencedoras de diversos prêmios pela qualidade de ensino. Os projetos ali desenvolvidos garantem às crianças uma educação de qualidade, o desenvolvimento pleno de suas capacidades. Quando se ataca à essas creches, pretendendo fecha-las, se ataca todo um projeto que considera também o direito da criança a uma educação de qualidade. Ataca às mães estudantes e trabalhadoras que batalharam há mais de 35 anos por creches nos seus locais de trabalho e de estudo. Ataca uma conquista de décadas que ajudou a compreender o papel da educação nos primeiros anos. Ataca o direito à educação e ao futuro dessas crianças.

A Ocupação Creche Aberta, que luta pelo não fechamento de uma das creches da USP (a Creche Oeste) conforme noticiamos aqui, bravamente resiste, apesar das tentativaspor parte da reitoria da USP de intimidar seus trabalhadores e cerca-la com tapumes.

Não podemos deixar nossos direitos caírem nos interesses dos capitalistas da educação que cumprem um papel determinante na precarização também das universidades públicas estaduais e federais, que tentam a partir de seus políticos “reorganizar” escolas e fechar salas de aula.

Zago, Dória, Temer e a política de uma classe só

A lista de ataques, apesar de enorme, é memorável. A crise financeira que se instalava na USP e as saídas ajustadoras de Zago – demissões, fechamento de sessões inteiras, congelamento de contratações, ameaça de fechamento de cursos – cavalgaram a crise política pela qual passamos a nível nacional.

Enquanto se encrudesciam os ataques contra os trabalhadores dentro da universidade, em especial às mulheres e população negra, Temer anunciava ataques nunca antes vistos por gerações de nosso país, como aumento da idade de aposentadoria, terceirização em larguíssima escala, flexibilização de horas de trabalho, entre outros. Reafirmamos: as mulheres são e serão sempre as primeiras a sentirem cada um deles.

Isso se comprova quando ao mesmo tempo que nos atacam, essa escória de Zagos, Dórias e Temers anunciam cada vez mais regalias para os machistas. O reitor que tira creches é o mesmo que pede “hombridade” às mulheres que denunciam estupradores na Faculdade de Medicina. O prefeito que aplaude a medida privatizante de Zago é o mesmo que fecha secretarias LGBT, de mulheres e Igualdade Racial. O presidente que corta verba da educação é o mesmo que afirma que o poder deve ser comandado por homens, ricos e empresários.

Localizar a crise da USP no marco da crise política nacional é fundamental para que se possa ligar a luta pelas creches com a luta em defesa do SINTUSP. Isso porque, para todos os governantes e líderes burgueses, para poder acirrar ataques e nos fazer pagar pela crise que eles geraram, é preciso minar nossos espaços de organização e eliminar qualquer tipo de trajetória política como a que vemos no SINTUSP, um dos poucos sindicatos do país que se colocou sempre ao lado das mulheres na luta por creches, contra os assédios, contra a terceirização – inclusive pagando multas por defender trabalhadoras terceirizadas que não são “oficialmente” representadas ali – contra doenças ocupacionais que atingem a massa de mulheres trabalhadoras dos bandejões e da limpeza.

Se a política unificada dessa classe é atacar as mulheres, nossa política de classe também deve se unificar em defesa de cada direito, de cada companheiro ou companheira demitido e, acima de tudo, pelo direito de organizar-se, pois sem ele, dificilmente seria possível lutar por cada pequena coisa que tenhamos conquistado e que nos querem arrancar.




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