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Covid, demissões, EaD e breque dos apps: a Unicamp precisa se voltar aos que mais sofrem na crise

O Brasil de Bolsonaro é o país em que mais morrem profissionais da saúde por Covid-19 e onde mais de 7,8 milhões de postos de trabalho foram perdidos na pandemia. Na Unicamp, o descaso dos governos e da reitoria já custou a vida de dois trabalhadores do Hospital das Clínicas, Luci e Fábio, ambos negros e hoje as empresas terceirizadas também demitem trabalhadores. Neste momento, os negros também são maioria entre os entregadores de apps, que chamam um novo Breque dos Apps neste dia 25 de Julho. Por isso, estudantes precisam batalhar para que a Unicamp esteja a serviço dos que mais sofrem nesta crise, apoiando ativamente suas lutas.

Faísca Unicamp

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sexta-feira 24 de julho| Edição do dia

imagem de manifestação dos trabalhadores do HC Unicamp

São 2 milhões de infectados no Brasil e mais de 81 mil mortes que levam a marca de Bolsonaro, dos militares, do STF e dos governadores, como Doria. A classe trabalhadora e a juventude estão divididas entre uma parcela que tem direito à quarentena e uma maioria exposta ao vírus e obrigada a trabalhar, ameaçada pela fome, pelo desemprego, pelos cortes de salário e demissões que são fortalecidas pelas MPs de Bolsonaro apoiadas por Dória. Em Campinas, Jonas também é responsável pelas mazelas do povo pobre, e contabiliza quase 90% dos seus leitos de UTI ocupados.

Por sua vez, enquanto o governo Bolsonaro chegou a chantagear as reitorias com cortes para impor o Ensino à Distância nas universidades federais, estamos rumando já ao segundo semestre em EaD na Unicamp. Este foi decidido de maneira autoritária pela reitoria Knobel, com aval das direções e Congregações dos Institutos, sem que a maioria dos estudantes, professores e trabalhadores pudessem decidir. Além disso, Knobel, gerindo a crise que Dória está descarregando nas universidades estaduais, ainda aprovou cortes de 72 milhões e uma pós-graduação lato sensu paga na Unicamp, indo na contramão da defesa da universidade pública, que mostrou sua potência contra o negacionismo de Bolsonaro.

Manipulando o sentimento de urgência dos estudantes que precisam se formar nesta crise indeterminada, a estrutura de poder seguiu impedindo que a maioria decidisse sobre os rumos do semestre, com discurso de que quem quiser pode trancar o curso, obriga bolsistas e estagiários a fazerem matéria para receber seu sustento, cortou o café da manhã do restaurante universitário, isso em meio a um país com mais de 17 milhões de desempregados. Por isso, nós da juventude Faísca e do Quilombo Vermelho viemos defendendo, nas assembleias e nas reuniões dos estudantes, a necessidade de um Plebiscito sobre o EaD para que toda a comunidade acadêmica possa decidir suas prioridades neste momento.

Em meio à pandemia, os trabalhadores seguem sendo atacados na Unicamp
Knobel gere a crise, acusando a falta de financiamento do governo estadual, mas descarregando nos trabalhadores, enquanto mantém intocados os privilégios da burocracia acadêmica. Permitiu que a Funcamp (Fundação de desenvolvimento da Unicamp) realizasse amplamente, por meio da MP da morte de Bolsonaro, redução de salários e jornadas de 25% aos trabalhadores terceirizados.

Empresas terceirizadas da Unicamp, como a Strategic Security, estão demitindo dezenas de trabalhadores neste momento, além de se recusar a pagar o último salário e os direitos dos trabalhadores, ou seja, pais e mães de família na rua em meio a pandemia sem ter como sustentar seus filhos. Isso tudo, com conivência da Unicamp que há anos aprofunda a terceirização do trabalho na universidade, justamente para não ter que arcar com os direitos desses trabalhadores.

Além disso, na Unicamp os grupos de risco continuaram trabalhando na área da saúde, sem oferecer testes e nem medidas básicas de prevenção, como os profissionais denunciaram em ato em frente ao hospital e cartas. Luci e Fábio são vítimas de uma política que transforma os trabalhadores da linha de frente em "heróis anônimos", como diz a Superintendência do HC, impedidos de decidir as melhores condições para combater a pandemia, sem os equipamentos mais elementares. Agora, Eva, lutadora do CAISM, é mais uma trabalhadora da saúde internada com a covid. Por ela e tantos outros seguimos em luta por testes, epis e mais contratações.

Apesar de a Unicamp, assim como diversas outras universidades do país, ter voltado parte da sua estrutura ao combate à pandemia, sendo um centro de excelência, na mesma universidade que foi linha de frente de produzir testes, seus trabalhadores não tiveram acesso a eles. Com base nisso devemos nos questionar: a serviço de quem está o nosso conhecimento?

Ao deixar claro que a Unicamp não pode parar, a reitoria não esconde que seu projeto não é para que sua produção de conhecimento esteja à serviço da população e dos trabalhadores, e sim das empresas e suas patentes. Por isso Knobel se orgulha em dizer que o Ifood, um aplicativo que explora a juventude negra país afora, foi criado por ex-alunos da Unicamp.

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Nosso lado é o dos entregadores, não do iFood

Em meio à fúria que explode nos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial e se espalha pelo mundo, vemos que se são os negros os que mais se expõem e morrem, também são os que mais lutam para transformar essa realidade. No Brasil, vemos essa fúria através dos gritos dos entregadores de app.

São jovens que pedalam por mais de 12 horas todos os dias, são motociclistas que, com longas jornadas, não têm nenhum direito assegurado e nem mesmo onde usar o banheiro. Por sua vez, nós do Esquerda Diário somos parte de impulsionar o Observatório da Precarização do Trabalho e da Reestruturação Produtiva, aglutinando pesquisadores da graduação e da pós, jovens trabalhadores, em todo o país para que nosso conhecimento esteja a serviço de retratar as precárias condições de trabalho, as condições de luta dessa nova classe trabalhadora em transformação na crise.

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Não nos embanderamos do iFood como subproduto do conhecimento dos jovens formados na Unicamp para explorar a juventude mais precária. Pelo contrário, nos embanderamos da luta dos entregadores no último dia 1/7, que pode impactar nos planos da burguesia para todo o mundo do trabalho, com o destino da uberização em disputa. Também nos embanderamos da luta dos entregadores no próximo dia 25.

Cada estudante deve se ver porta-voz de cada trabalhador e trabalhadora, desde o HC até os entregadores, se colocando lado a lado daqueles que nunca tiveram direito ao isolamento. A unidade ativa, nas lutas, entre estudantes e trabalhadores dentro e fora da Unicamp está colocada na ordem do dia e certamente nos fará mais fortalecidos frente aos ataques à educação do governo Bolsonaro e seu novo ministro e também de Dória que agora quer reabrir escolas sem o mínimo de estrutura para isso, expondo professores e estudantes.

Devemos nos organizar em nossas entidades na pandemia

Por isso, nós da Faísca, além de chamar o conjunto dos CAs e o DCE a apoiar os entregadores, como parte da chapa minoritária do CACH, estivemos no último dia 1/7 nos atos dizendo "estudantes da Unicamp em apoio aos entregadores". No próximo dia 25, chamamos a que todas entidades estudantis se solidarizem ativamente, com campanha de fotos, notas de apoio e quando possível indo presencialmente mostrar que os estudantes da Unicamp estão ao lado dos entregadores e não das empresas.

Nossas entidades podem cumprir um grande papel de nos organizar, mesmo na pandemia, quando nos sentimos atomizados em nossas casas ou trabalhando nas piores condições. Esse deveria ser o papel do DCE, composto pela UJS, a juventude do PCdoB e direção majoritária da UNE. Nosso DCE deveria ser ferramenta dos estudantes, por permanência estudantil, contra o EaD a qualquer custo, defendendo que nenhum estudante seja prejudicado com as avaliações meritocráticas e que se amplie medidas de acesso, como as cotas trans que foram aprovadas na pós em antropologia do IFCH e deve ser um exemplo para toda universidade, além de apoiar ativamente os entregadores, gritando com toda força "quantos trabalhadores da Unicamp mais terão de morrer?"

Ao invés disso, na Unicamp, o DCE é porta-voz das posições da Reitoria. A UNE, no início da pandemia, fez um podcast com o reitor da Unicamp tomando como exemplo sua postura para combater o coronavírus, enquanto ele forçava grupos de risco a trabalharem no hospital e aplicava o EAD de forma autoritária. Já o PCdoB no Congresso foi relator da MP que permite corte de salários precarizando ainda mais a vida da juventude. Como unificar o conjunto da juventude, das escolas, das universidades, públicas e privadas, que muitas vezes precisam trabalhar para se manter e se endividam com as mensalidades se fazem coro aos interesses dos patrões de cortar salário?

Junto com o PT, o PCdoB está à frente dos maiores sindicatos do país, que são a CUT e a CTB, que ao invés de organizar a unidade dos trabalhadores e ser uma alternativa para aqueles que nunca tiveram direito à quarentena, freiam as nossas lutas. Esses partidos não buscaram unificar outras categorias com os entregadores, como aconteceu no metrô de São Paulo que poderia ter paralisado no dia 1 de julho, mas se deparou com a traição da direção do sindicato que é o PCdoB. Na prática, defendem uma frente ampla pela democracia, que se alia com setores de direita como FHC e Luciano Huck, porta-vozes das reformas e da precarização do trabalho.

Apenas a luta dos trabalhadores unificada com a juventude pode ser uma alternativa contra Bolsonaro e seu governo repleto de militares, sem nenhuma confiança no STF, no congresso ou nos governadores que rifam as vidas dos pobres e dos negros. Por isso, partidos de esquerda como o PSOL, que são direção majoritária do CACH, e o PCB que está a frente de algumas entidades, poderiam ser parte de construir uma alternativa independente e de oposição ao DCE. Ao contrário desse cenário, em Campinas o PSOL anunciou uma coligação eleitoral com o PT, o que vai na contramão de superar o projeto de conciliação, e o PCB, por trás de um discurso supostamente radical, também segue o “impeachment popular” junto a partidos burgueses, que na prática clama por Mourão.

Com a força de uma luta independente, partindo da solidariedade ativa aos entregadores e impulsionando a organização do outros setores, podemos impor uma saída que não seja aceitar esse regime podre, que ataca a juventude trabalhadora, negra e pobre. Por isso, nós defendemos o Fora Bolsonaro e Mourão e a necessidade de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, precisamos que o povo decida as leis, mudando as regras do jogo e não apenas os jogadores e nesse processo abrir espaço para questionar esse sistema de conjunto, rumo a um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Nos unificar com os que mais sofrem nessa pandemia, esse é o chamado que fazemos a todos que queiram colocar suas energias para defender que todo potencial da universidade, negado por Bolsonaro, esteja nas mãos dos trabalhadores do HC, dos estudantes que estão tendo que lidar com o EaD precário e da juventude negra que entrega seu suor e sangue pedalando 12h por dia. Convidamos a conhecer e construir a Faísca e o Quilombo Vermelho conosco para lutar por uma universidade à serviço dos trabalhadores e do povo pobre e negro.




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