Educação

TRIBUNA ABERTA

Cotas nas Universidades

Não é difícil criticar a massificação do ensino superior, disfarçada de democratização. O vestibular, que alimenta uma verdadeira indústria, é criticado, mas seu modelo não é abandonado. As críticas a ele se sustentam, mas as que se fazem às cotas não.

sábado 10 de dezembro de 2016| Edição do dia

É preciso entender que é desigual a disputa pelas vagas das universidades públicas. Muitos alunos de escolas particulares pertencentes à classe média têm uma vantagem muito grande, porque recebem um adestramento para o vestibular. Isso quer dizer que, no exame, não são obrigatoriamente classificados os que merecem, mas sim os que pagam pelo ritual de treinamento. Se as universidades estaduais e federais são mesmo públicas, não faz sentido que nelas sejam predominantes a classe média, tão receptiva à privatização do espaço público e à transformação de direitos em serviços, e a classe alta, que pode pagar mensalidades. Sua predominância não é fruto do mérito, mas sim da condição financeira.

Diz-se que as cotas não resolvem o problema do acesso à universidade pública por parte dos menos favorecidos. “A solução”, dizem os críticos, “é aumentar a qualidade dos ensinos fundamental e médio das escolas públicas.” Ora, as cotas não anulam a necessidade de melhorar tais ensinos (necessidade essa que, aliás, está ligada à necessidade de melhorar o ensino superior, já que os professores saem da faculdade). Pergunto: Como é possível melhorá-los, se os governos estão comprometidos com a baixa qualidade deles? É ela que permite o surgimento e o crescimento de grandes escolas particulares, que oferecem o caminho do sucesso no vestibular.

Mencionam-se os casos de universitários cotistas que não têm os conhecimentos básicos para acompanhar as aulas. Estão eles abaixo do nível. Mas e os alunos negros ou formados em escola pública que obtiveram êxito e resultados superiores aos dos não cotistas? E o fracasso dos estudantes que não entraram pelo sistema de cotas? E a falta de base destes? (Sim, falta de base. Uma coisa é ter conhecimento para o vestibular, outra é ter para entender as matérias do curso.) Alguém tem dados estatísticos para comprovar que não cotistas são mais capazes ou mais instruídos do que os cotistas? Alguém tem dados estatísticos que comprovem, com imparcialidade, a superioridade acadêmica dos não cotistas? Se compararmos os resultados, que verdade descobriremos: a de que a desistência e o fracasso é maior entre os cotistas ou o contrário?

É justo que vagas sejam reservadas para estudantes de escola pública e para negros (e o conceito de negritude, naturalmente, não depende apenas do ponto de vista do fenótipo, da característica mais aparente). É uma ação afirmativa. Se boas inteligências e bons talentos têm chegado à universidade e concluído o curso, não há motivo para condenar as cotas. Sendo verdade a premissa, quem ganha é a sociedade, que precisa de bons profissionais. É a ela que o meio acadêmico serve, e não à indústria do vestibular.




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