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Análise | Corrida eleitoral em SP: epicentro de crise da terceira via e palco da direitização histórica do PT

Aqui analisaremos a força de Bolsonaro em SP, a direitização histórica do PT e as possibilidades da máquina eleitoral do PSDB na corrida eleitoral.

Imagem: Folha de S. Paulo

Nas últimas semanas o estado de São Paulo foi o palco principal da falência da chamada terceira via nacional. Os setores da direita neoliberal que foram peças fundamentais no golpe institucional de 2016, ajudaram a eleger Bolsonaro e servem de sustentação para todas as reformas anti-operárias do governo federal, mas que hoje buscam se relocalizar falando “contra a polarização da política nacional entre Lula e a extrema-direita”, agora se veem em profunda crise eleitoral em um estado que durante décadas foi bastião do PSDB.

A crise mais recente de grande dimensão se deu com o anúncio oficial de Doria como candidato à presidência da república. Após uma tensão histórica no PSDB, com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e Aécio Neves tentando dar um golpe em Doria, que venceu as prévias internas do partido para a candidatura, o governador em um movimento desesperado se lançou candidato, oficializando finalmente Rodrigo Garcia como governador e candidato pelo PSDB à reeleição do estado.

O movimento foi desesperado pois, para impedir a manobra de Eduardo Leite e Aécio, Doria ameaçou o PSDB paulista a se manter na cadeira de governador, o que atingiria em cheio a candidatura de Rodrigo Garcia, uma vez que não teria a máquina do estado diretamente em suas mãos na corrida eleitoral. Com a crise aberta em SP, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, se viu obrigado a endossar com uma carta que Doria seria sim o candidato tucano à presidência. No entanto, não passou de um golpe de marketing. Em pouco tempo percebeu-se que a tática de Doria não foi mais que um arriscado respiro momentâneo, já que logo as tradicionais forças do PSDB seguiram em sua política de preparar sua imposição, na convenção partidária, de Eduardo Leite como o presidenciável do partido em outubro.

Doria hoje paga o preço político pelas traições internas no PSDB, quando pulou do barco de Alckmin antes mesmo das eleições de 2018 acabarem e abraçou o bolsonarismo, popularizando o famoso “BolsoDoria”. Agora a crise dentro desse partido que durante décadas foi um pilar fundamental de sustentação do regime político brasileiro, vai criando um caldeirão de insatisfação e incertezas sobre os rumos da terceira via, que já vinha muito mal com a enorme fragmentação entre diversos nomes e fraqueza eleitoral, espremida entre Lula-Alckmin e Bolsonaro.

Ainda vale mencionar que dentro da crise da terceira via, não é somente o PSDB que paga um alto preço, mas também o MBL. Essa juventude ‘bolsotucana’, que foi fundamental nas micaretas golpistas de 2015, agora sucumbe em meio a escândalos de misoginia e racismo. Semanas após Kin Kataguiri concordar com o imbecil do Monark na defesa de um partido nazista no Brasil, o Mamãe Falei teve áudios vazados onde fazia referências misóginas escandalosas em relação às mulheres ucranianas que nesse momento sofrem com a guerra. Arthur Do Val, que obteve quase 10% dos votos para a prefeitura de São Paulo em 2020, agora renunciou ao seu mandato na Alesp e precisou abrir mão de sua candidatura após os escândalos, e isso atingiu inclusive a Moro, que o apoiaria em SP, como parte de um acordo entre o MBL e o Podemos de apoio mútuo.

Frente a tudo isso, é importante remarcar que não subestimamos a máquina eleitoral de aparelhamento de SP pelo PSDB, que com a distribuição de orçamento para parlamentares, empresários e fundações em todo o estado, é capaz de ser um fator ativo nos rumos das eleições paulistas. Há décadas os tucanos estão governo de São Paulo e farão de tudo para mantê-lo, cogitando agora até mesmo a destinar menos dinheiro para a campanha de Doria e centrar fogo nas campanhas de SP e RS. Portanto, nem de longe PSDB não é um cachorro morto no nosso estado.

O oportunismo de Fernando Haddad e a face mais reacionária de Márcio França

Até aqui o principal beneficiado com a crise do PSDB em SP tem sido o PT. Haddad, após Alckmin retirar seu nome ao governo paulista e entrar de vice na chapa de Lula, tem aparecido nas pesquisas liderando a corrida eleitoral, com cerca de 30% das intenções de votos, segundo a pesquisa mais recente da Genial Quaest realizada entre 6 e 9 de maio. Rodrigo Garcia amarga o 4º, com somente 6% das intenções de votos, segundo a Genial Quaest. No entanto, a mesma pesquisa mostra que sem Márcio França na disputa, Rodrigo Garcia poderia capitalizar uma boa parte dos votos no PSB.

A candidatura de Haddad é uma das prioridades petistas no cenário nacional, na intenção de iniciar uma recomposição do partido depois das derrotas regionais nas últimas eleições. Mas isso se dá a partir dessa política nacional de aliança com a direita, que mais do que nunca estará exposta e reivindicada em palanques com Lula, Haddad e Alckmin, uma cena no mínimo grotesca para professores, estudantes e trabalhadores que tiveram direitos retirados por Geraldo Alckmin em seus governos, assim como foram brutalmente reprimidos por ordem também do ex-governador em diversas oportunidades.

Sem dúvidas Haddad se beneficia com a chapa Lula-Alckmin, uma vez que poderá subir em palanques ao lado de Lula, mas também ao lado do velho tucano que ainda conserva uma base importante nos interiores do estado, sobretudo se França retirar sua candidatura e se posicionar a vice de Haddad, reproduzindo em SP a fórmula PT-PSB. Na prática, essa aliança do PT também serve como bote salva-vidas de tucanos históricos de São Paulo que sempre tiveram o estado como bastião do PSDB. Ou seja, é nefasta duas vezes, já que o PT paulista sempre teve como objetivo tirar SP das mãos do PSDB e hoje a sua militância e eleitores que sonhavam com esse objetivo precisam engolir o tucano "mor" de São Paulo.

No entanto, outro beneficiado é Márcio França, colega de Alckmin dentro do PSB e ex-governador de SP quando foi vice do tucano. França tem aparecido em 2º lugar nas pesquisas de intenções de votos. O que se discute agora é a possibilidade de uma aliança entre Haddad e França, o que faria o primeiro saltar para 36% das intenções de votos, ficando completamente isolado na liderança da disputa e deixando a briga pelo segundo lugar para Tarcísio e Rodrigo Garcia.

Outra possibilidade é que França mantenha sua candidatura, atravancando o espaço de crescimento para o PSDB e podendo ele mesmo ir para o segundo turno, dado que disputam a mesma base saudosista de Alckmin. Esse cenário pode embaralhar mais as cartas no estado, deixando em aberto quem iria para o segundo turno contra o PT, e poderia significar não reproduzir a polarização Lula vs Bolsonaro com Haddad vs Tarcísio, o que não é interessante para os objetivos petistas.

Tarcísio de Freitas, o candidato de Bolsonaro e da Universal

Ainda que não devamos subestimar a máquina eleitoral do PSDB, especialista em comprar votos, induzir o voto de fiéis a partir das igrejas evangélicas e católicas, além de todo tipo de estelionato eleitoral típico dos golpistas tucanos, hoje é mais claro que uma parte da base tradicional desse partido migrou para a extrema direita e não está disposta a se moderar tão rapidamente. É nesse sentido que emerge a figura de Tarcísio de Freitas do partido da Igreja Universal (Republicanos), que apesar de ainda pouco conhecido pela população em geral, já aparece em 3º lugar nas pesquisas pois conta com o apoio de Bolsonaro.
Tarcísio de Freitas é general da reserva do exército e atuou na missão da ONU no Haiti em 2005 e 2006, anos de governo Lula e do massacre comandado pelo exército brasileiro na favela Cité Soleil em Porto Príncipe. Tarcísio era chefe da seção técnica da Companhia Brasileira de Engenharia de Força de Paz. De saída, sua campanha já vai mostrando que tom terá, dizendo que vai tirar as câmeras dos uniformes dos policiais militares por inibir sua atuação, ou seja, deixar o caminho ainda mais livre do que já é para o assassinato da juventude pobre e negra do estado que tem uma das polícias mais criminosas do país.
Para Bolsonaro é muitíssimo importante emplacar um nome seu em São Paulo, não só porque lhe ajudaria na corrida nacional, mas porque poderia significar uma reserva de força importante caso venha a perder as eleições presidenciais. Tarcísio, que é da Infraestrutura de Bolsonaro, tem buscado estabelecer alianças com o agronegócio paulista em seu reacionarismo mais profundo. Mas ele tem um problema. O próprio partido de Bolsonaro, o PL, está nesse momento dividido entre apoiar Tarcísio e apoiar Rodrigo Garcia.

No limite, a transferência da polarização nacional para São Paulo também é interessante aos planos do PT, uma vez que rivaliza diretamente com Bolsonaro e a candidatura de Haddad pode usar, demagogicamente, todo o rechaço dos trabalhadores ao bolsonarismo como munição de campanha para defender um projeto tão à direita ou mais que o projeto já defendido por Lula-Alckmin a nível nacional. Isso passa por seguir travando as lutas dos trabalhadores, como professores e metroviários que são duros combatentes das reformas e privatizações, e mantendo os sindicatos em completo imobilismo, pela via da CUT, a fim de capitalizar toda a indignação com o PSDB e com o Bolsonaro nas urnas em outubro.

SP como epicentro da crise da terceira via

Como dito anteriormente, o estado de São Paulo durante décadas foi bastião da direita tradicional no Brasil. Nos anos 80 os “autênticos” do MDB, sob a liderança de Montoro, se uniam contra a direita dura, traduzida na figura de Paulo Maluf, herdeiro da ditadura militar. Agora novamente os grandes partidos da ordem se dividem em dois blocos burgueses em São Paulo como trampolim para a arena nacional: de um lado estão PT e Alckmin, apoiados nas sombras por FHC, e do outro estão Tarcísio, Bolsonaro e toda a extrema direita que até hoje tem o PP de Maluf e Lira como um de seus centros de gravidade na política paulista.

A crise do PSDB em São Paulo é a expressão da profundidade da crise do regime de 1988 e da crise orgânica. Todos os deslocamentos à direita que o PSDB pensou que poderia conter e se utilizar, foram além do que os tucanos e inclusive seus sócios majoritários no Partido Democrata dos EUA previam. Nesse sentido é que parte da classe média paulista, tradicionalmente tucana, se deslocou à direita, primeiro rumo à Lava Jato e posteriormente rumo a Bolsonaro.

Desde 2013, com a crise orgânica aberta pelo desgaste do regime político brasileiro de 88, a burguesia paulista vem buscando alternativas que possam manter a hegemonia que o PSDB teve durante alguns anos. Primeiro tentou com a REDE, com empresários da Faria Lima endossando a ideia de uma startup verde de Marina Silva, que lhes garantisse uma cara mais “humana” às políticas privatistas e de desmonte dos serviços públicos no estado, mas mantendo de fundo todo o conteúdo profundamente neoliberal e de ataques aos trabalhadores. Após a derrota de Marina em 2014, mais tarde a burguesia paulista deu um giro para ensaiar a construção do Partido Novo, mas também não obteve sucesso. E apesar de profundamente desgastado, o PSDB ainda seguiu sendo a forma mais garantida de dominação social para a burguesia em SP. Agora, sem saída, mais uma vez a Faria Lima parece se dividir entre Bolsonaro por um lado, e Lula-Alckmin por outro.

Mas e a esquerda?

Junto ao RJ, São Paulo foi palco das massivas jornadas de Junho em 2013 e de inúmeras greves de batalhões da classe trabalhadora nos últimos. Por outro lado, também foi onde a extrema direita veio se fortalecendo com a situação disruptiva aberta pelo golpe institucional de 2016. As micaretas golpistas e o peso que Moro e Bolsonaro adquiriram no estado são expressão disso.

Em um estado com enorme convulsão social, faz falta uma esquerda que batalhe pela independência de classe e a emersão da classe trabalhadora como sujeito político independente capaz de alterar o cenário político nacional. O PT busca se recompor enquanto grande partido governando várias cidades e agora com a possibilidade, pela primeira vez na sua história, de concretamente levar o governo de SP. Para isso, aposta tudo no eleitoralismo desenfreado e se alia aos maiores inimigos dos trabalhadores paulistas, como Geraldo Alckmin, o espancador de professores. Uma política criminosa que nada tem a ver com a defesa dos trabalhadores e a esquerda.

Por outro lado, a direção do PSOL em seu seguidismo cego a Lula e Alckmin, já abriu todo espaço para que Haddad chegue ao governo sem críticas. Boulos retirou sua candidatura e cogita-se que o partido entre de vez na chapa de Haddad com toda a direita, talvez até com seu presidente, Juliano Medeiros, como vice. Isso significaria um giro histórico para o PSOL, uma vez que poderia entrar no governo do maior estado do país e passar a administrar os negócios da burguesia paulista contra os trabalhadores.

Esse giro na direitização do PSOL já deu um salto, agora que esse partido está federado com a REDE de Marina Silva, a ecocapitalista e fundamentalista anti-aborto. E agora independente de qual seja a política que o PT ou a chapa Lula-Alckmin adotará, o PSOL já deu sua parcela de contribuição com a retirada de Boulos para se candidatar a deputado federal, que é parte da mesma linha política do PT para maior relação de forças do congresso nacional, sustentando uma lógica parlamentarista e de governabilidade, repetida tantas vezes no discurso de conciliação de classe de Lula. O PSOL se colocou à disposição para o PT fazer qualquer negócio e contar com o apoio de Boulos mantendo coesa a sua base eleitoral, a mesma do petismo. Um giro à direita sem precedentes na história desse partido.

Frente a isso, se faz necessário que se desenvolva em São Paulo candidaturas que apresentem uma forte perspectiva de independência de classe e batalhem para dar voz às lutas dos trabalhadores, mantendo total independência da política de conciliação com a direita que fazem o PT e o PSOL neste momento. É nesse sentido que nós do MRT e do Esquerda Diário viemos batalhando por um polo de independência da esquerda e nos somamos ao Polo Socialista Revolucionário. Por isso também buscaremos apresentar candidaturas que batalhem pela independência de classe e que fortaleçam uma perspectiva de unificação das lutas em curso no país, de estudantes e operários, reafirmando que a saída só pode se dar pela luta de classes.

Só assim será possível reverter os ataques com os quais vieram descarregando a crise sobre as costas dos trabalhadores, especialmente em São Paulo onde há todo o privatismo e coerção policial histórica do PSDB, legado inclusive de Alckmin.

Nesse sentido que também estamos propondo o nome de Marcelo Pablito, trabalhador da USP e militante do MRT, para ser vice da companheira Vera do PSTU à presidência da república, em uma candidatura em unidade pelo Polo Socialista Revolucionário, e que agregue companheiros do PSOL que não aceitem a capitulação histórica do partido a Marina e Lula-Alckmin. Somado a isso, também estamos propondo a professora Maíra Machado para vice de Altino Pazeres do PSTU ao governo de São Paulo, batalhando pela conformação de uma chapa da esquerda que batalhe contra o bolsonarista Tarcísio, todo o legado de destruição dos tucanos, mas também contra a conciliação petista com sujeitos nefastos como Geraldo Alckmin e Márcio França.




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