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Coronavírus: trabalhadores dos aeroportos denunciam descaso e ataques das empresas

Muitas noticias nos jornais dizem como a vida nos aeroportos mudaram após o surgimento do Coronavírus, postando fotos de funcionários com mascaras e luvas, não mostrar as reais mudanças que as câmeras não captam: o assédio da chefia, ameaça de demissão e demissões, perseguição e descaso com a saúde dos funcionários.

sábado 14 de março| Edição do dia

O jornal Esquerda Diário recebeu relatos de funcionários aeroportuários, não divulgaremos nomes e empresa pela proteção dos mesmos, mas expomos aqui a condição de trabalho a qual estão submetidos nos aeroportos. Começando pelo básico, não são todas as empresas que estão disponibilizando álcool em gel, mascara e luvas, e quando estão é ou só um dos 3 itens elementares, ou é em pouca quantidade e muitas vezes de má qualidade. Uma vez que é sabido que aquela mascara fina e superficial não consegue barrar o vírus além de atrapalhar na respiração dos funcionários em um serviço em que muitas vezes é preciso falar constantemente com passageiros. Isso faz com que muitos funcionários estejam precisando comprar por si mesmo esses itens, e mascaras de qualidade com filtro e respiro.

Mas a “mudança” real esta ocorrendo “por baixo”. Não bastasse a sombra do risco de ser contaminado pelo vírus em um dos locais de trabalhos mais expostos, uma vez que transitam pessoas do mundo todo pelo aeroporto, existe também a sombra dos ataques da empresa. A ameaça de demissão é constante, e pela própria condição de desemprego no país, ela serve de chantagem aos trabalhadores, que se reclamam podem ouvir que “há uma fila de pessoas lá fora querendo esse emprego”. Se essa chantagem já era usada antes do Corona, agora ela se intensificou, ou o funcionário aceita tudo calado ou pode ir para rua.

Essa chantagem foi usada durante toda a alta temporada para fazer os funcionários das companhias aéreas trabalharem de forma extenuante, com filas enormes e aumento da grade de vôo sem contratação correspondente. Os funcionários trabalhavam por horas sem poder ir ao banheiro e muitas vezes sem fazer as pausas para alimentação, sendo que a cada chuva, aumento de passageiros e contingências obrigavam os funcionários a fazerem intermináveis horas extras. Em alguns casos ficavam mais de 12 horas seguidas trabalhando madrugada adentro.

As empresas aproveitaram da correlação de força desfavorável aos trabalhadores, com a eleição de Bolsonaro, a aprovação das reformas trabalhistas e depois da previdência, para criar um regime de trabalho elevando a taxa de exploração e com o clima policialesco de advertências e ameaça de demissão. Sob essa base que com a chegada do Corona vírus a correlação de forças piorou, há denuncias sobre o clima repressivo nas empresas áreas, a chefia esta em cima pontuando qualquer pequena coisa, até o caso extremo de uma funcionária que levou advertência por conta de ter discordado da chefia, ou demissões sem motivos claros. Um obvio reflexo de como a empresa vai jogar a crise nas costas dos trabalhadores, vendo inclusive a crise como uma oportunidade – na mesma linha do Paulo Guedes (sic) - as empresas podem “aproveitar” o momento para demitir os funcionários com mais tempo e maiores salários para depois contratarem com menos direitos e funcionários part time, que ganham por 4 horas, mas que pela pressão constante por horas extras trabalham sempre além do seu horário.

Outro ponto de revolta, sobre as horas extras é que estão sendo descontadas nesse mês para não serem pagas, as empresas áreas estão dando algumas folgas ao mesmo tempo que queimando horas mandando os funcionários embora de 20 a 40 minuto antes do horário. O que não muda nada na vida do trabalhador que teve que ir até o aeroporto, pagou transporte e que muitas vezes acaba tendo que esperar o mesmo ônibus para ir embora mesmo saindo mais cedo. Dessa forma a empresa queima horas que poderiam ser folgas ou serem pagas. Sabendo da impopularidade dessa medida, a chefia pede aos funcionários liberados que se apresentem a eles antes de ir embora para que anotem o horário que o cartão foi batido, uma vez que muitos funcionários revoltados acabavam não indo embora exatamente quando eram dispensados para não ter suas horas “queimadas”. Mais um caráter da perseguição patronal contra os trabalhadores.

Esse autoritarismo patronal aumenta incentivado com o aumento do autoritarismo de Estado, parte do momento político nacional com o governo Bolsonaro, mas que agora se intensifica com as medidas de quarentena e restrições a reuniões e ao livre transito como estamos vendo internacionalmente e que podem ser aplicadas também no Brasil. Medias que se por um lado são necessárias para diminuir o contágio, por outro, ocorrendo no capitalismo num momento de crise, servem para aumentar a repressão estatal.

Algumas companhias aéreas já anunciaram redução da malha e medidas resultante da crise. A Azul postergou o lançamento da rota para Nova York e reduziu sua malha de 20 a 30%, a LATAM já anunciou redução de 30% dos vôos internacionais, além de que também irá suspender novos investimentos, despesas e de contratações, fará incentivos para licenças não remuneradas e antecipação de férias.

Esse é o inicio de uma crise que deve se aprofundar e as companhias áreas devem ser as mais afetadas. Além das companhias nacionais as internacionais que atuam no Brasil usam grande maioria das vezes de mão de obra terceirizada que também deve ser atacada frente principalmente a redução dos lucros devido ao cancelamento dos vôos entre EUA e Europa pelo governo de Donald Trump.

A situação dramática que vive os trabalhadores também foi denunciado na argentinapela rede internacionais de diários. Essa situação precisa ser denunciada e os sindicatos precisam organizar os trabalhadores e debater medidas para a proteção da saúde e do emprego dos efetivos e terceirizados. Garantindo os insumos para higiene e defesa ao vírus, mas também que não haja demitidos, e que os trabalhadores possam se afastar caso precisem cuidar de familiares ou se tratar sem diminuição ou corte salarial e com garantia de volta ao emprego sem ameaça de demissão. Tomando os trabalhadores italianos como exemplo, que estão fazendo greves espontâneas dizendo que “nossa saúde vale mais que os lucros das empresas”.




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