SEMANÁRIO

Coronavírus, dívida e depressão

Michael Roberts

Tradução de Seiji Seron

Coronavírus, dívida e depressão

Michael Roberts

Traduzimos, em caráter de “tribuna aberta”, um breve artigo do economista britânico Michael Roberts, publicado, em seu blog, no último dia 05.

Leia a postagem original aqui

Enquanto escrevo, a epidemia (ainda não declarada pandemia) continua se espalhando. Agora, há mais casos fora da China do que dentro, com uma aceleração particular na Coréia do Sul, Japão e Irã. Até agora, mais de 80 mil pessoas foram infectadas só na China, país de onde se originou o surto. O número de mortes confirmadas causadas pelo vírus já superou 3.200.

Como eu disse em minha primeira postagem sobre o surto, “esta infecção é caracterizada pela transmissão humano-a-humano e, ao que parece, por um período de incubação de duas semanas antes que os sintomas se manifestem, de modo que a infecção provavelmente continuará se espalhando pelo globo.” Embora mais pessoas morram todo ano de complicações depois de contraírem influenza e, inclusive, por suicídios ou acidentes de trânsito, o que é assustador nessa infecção é que a taxa de mortalidade é muito maior que a da gripe, talvez até 30 vezes maior. Assim, se se espalhar pelo mundo, eventualmente ela matará mais pessoas.

E, como eu disse naquele primeiro post, “O surto de coronavírus talvez desapareça como outros antes, mas é muito provável que haverá mais patógenos, e ainda mais letais, mais para frente.” Isso porque a causa mais provável do surto foi a transmissão do vírus de animais, nos quais deve ter se hospedado por milhares de anos, para humanos, através do uso de técnicas agrícolas industrias intensivas e da extensão dos mercados de carne de espécies exóticas.

O Covid-19 é mais virulento e mortal que os vírus da influenza que matam muito mais gente vulnerável a cada ano. Mas, se não for contido, ele eventualmente igualará a taxa de mortalidade deste e aparecerá sob uma nova forma em cada ano. Porém, se você simplesmente tomar as devidas precauções (lavar as mãos, não viajar ou trabalhar etc.), você deve ficar bem, especialmente se é sadio, jovem e bem-nutrido. Mas se você for velho, tiver um montão de problemas de saúde e viver em condições ruins e, ainda assim, tiver de viajar e trabalhar, então, correrá um risco muito maior de adoecer gravemente ou morrer. Igualdade de oportunidades não é como o Covid-19 mata. [Covid-19 is not na equal-opportunity killer.]

Mas a doença e as mortes advindas do Covid-19 não são a preocupação dos estrategistas do capital. Eles só estão preocupados com o dano aos mercados acionários, aos lucros e à economia capitalista. Na verdade, eu ouvi, nas suítes executivas do capital financeiro, argumentarem que, se um monte de gente velha e improdutiva morrer, isso poderia aumentar a produtividade porque os mais jovens e produtivos sobreviverão em maior número!

Esta é uma clássica solução malthusiana do início do século XIX para qualquer crise do capitalismo. Infelizmente, para os seguidores do reacionário pároco Malthus, sua teoria de que as crises do capitalismo são causadas pela superpopulação foram demolidas, dada a experiência histórica dos últimos 200 anos. A natureza pode estar envolvida na epidemia viral, mas o número de mortes depende da ação humana: a estrutura social de uma economia, o nível da infraestrutura médica e os recursos e políticas dos governos.

Não é nenhum acidente que a China, tendo sido inicialmente pega de surpresa pelo surto, foi capaz de mobilizar recursos massivos e impor condições draconianas de controle sobre a população, o que eventualmente limitou a propagação do vírus. As coisas já não parecem tão sob controle em países como Coréia ou Japão, ou provavelmente os EUA, onde os recursos são menos planificados e os governos querem que as pessoas continuem trabalhando para o capital, e não que evitem ficar doentes. E regimes pobres e apodrecidos como o do Irã parecem ter perdido totalmente o controle.

Não, a verdadeira preocupação dos estrategistas do capital é se a epidemia pode ser o gatilho de uma profunda recessão ou quebra, a primeira desde a Grande Recessão de 2008-9. Isso porque a epidemia atingiu justo num momento em que as principais economias capitalistas já estavam aparentemente muito fracas. A economia capitalista mundial já desacelerou para uma “velocidade de estol” de cerca de 2,5% ao ano. [1] Os EUA estão crescendo a apenas 2% ao ano, Europa e Japão a só 1%; e as maiores entre as assim-chamadas economias emergentes do Brasil, México, Turquia, Argentina, África do Sul e Rússia estão basicamente estáticas. As enormes economias da Índia e da China também desaceleraram significativamente no ano passado. E, agora, a paralisação com o Covid-19 empurrou a economia chinesa para dentro de um penhasco.

A OCDE, que representa as 36 economias mais avançadas do planeta, já está alertando sobre a possibilidade de que o impacto do Covid-19 diminua pela metade o crescimento econômico deste ano em relação à última estimativa. A OCDE diminuiu sua previsão de crescimento central de 2,9% para 2,4%, mas disse que “um surto mais longo e mais intenso do coronavírus” poderia cortar o crescimento para 1,5% em 2020. Mesmo sob a previsão central, a OCDE alertou que o crescimento global pode afundar no primeiro trimestre. É esperado que o crescimento chinês caia, este ano, para menos de 5%, de 6,1% ano passado – o que já era a mais baixa taxa de crescimento da segunda maior economia do mundo em quase 30 anos. Só na China, os efeitos do fechamento generalizado de fábricas e empreendimentos diversos poderiam arrancar 0,5 pontos percentuais do crescimento global ao diminuir sua principal previsão para 2,4% no trimestre que termina em março.

Enquanto isso, a Itália chega, em fevereiro, ao seu 17º mês consecutivo de declínio da atividade industrial. E o governo italiano anuncia seus planos de injetar €3,6 bilhões na economia. O índice de gerência de compras [mais conhecido por sua sigla em inglês, PMI (Purchasing Managers’ Index) (N.T)] da IHS Markit para a industria italiana caiu 0.2 pontos, para 48.7, em fevereiro. Um valor inferior a 50 indica que a maioria das empresas responderam à pesquisa declarando redução de suas atividades. E a pesquisa terminou em 21 de fevereiro, antes que o surto de coronavírus se intensificasse na Itália. Houve uma contração similar da atividade industrial na França, onde o PMI industrial caiu 1.3 pontos, para 49.8. Porém, a atividade industrial cresceu para a Eurozona como um todo em fevereiro, já que o PMI para o bloco aumentou 1.3 pontos, para 49.2, mas ainda é inferior a 50.

Até agora, os EUA evitaram uma queda drástica do gasto dos consumidores, em parte porque a epidemia ainda não se espalhou muito pela América. Talvez a economia estadunidense possa evitar uma queda causada pelo Covid-19. Mesmo assim, os sinais são alarmantes. O último índice de atividade do setor de serviços, em fevereiro, mostrou uma contração pela primeira vez em seis anos, e o índice geral (gráfico abaixo) também entrou em território negativo.

Fora da área da OCDE, as más notícias continuam aumentando. O PMI sul-africano da Absa caiu para 44.3, em fevereiro de 2020, de 45.2, no mês anterior. A leitura aponta para o sétimo mês consecutivo de contração da atividade industrial e no ritmo mais rápido desde agosto de 2009. E o setor capitalista da China relatou o seu mais baixo nível de atividade desde que os registros começaram. O PMI industrial geral da Caixim China despencou para 40.3 em fevereiro de 2020, o nível mais baixo desde que as pesquisas começaram, em abril de 2004.

O FMI também reduziu a sua já baixa previsão de crescimento para 2020. “A experiência sugere que cerca de um terço das perdas econômicas causadas pela doença serão custos diretos: perdas de vidas, fechamentos de locais de trabalho e quarentenas. Os outros dois terços serão indiretos, refletindo uma queda da confiança de consumidores e investidores e um enrijecimento dos mercados financeiros.” Assim, “em qualquer cenário, o crescimento global em 2020 cairá para menos que o nível do ano passado. Quanto cairá, e por quanto tempo, é difícil prever, e dependerá da epidemia, mas também da tempestividade e da eficácia de nossas ações.”

Uma consultoria do mainstream econômico, Capital Economics, diminuiu sua previsão de crescimento em 0,4 pontos percentuais, para 2,5%, no ano de 2020, o que o FMI considera recessão. E Jennifer McKeown, chefe da pesquisa econômica na Capital Economics, advertiu que, se a epidemia se tornar uma pandemia global, o efeito “poderia ser tão ruim quanto em 2009, quando o PIB mundial caiu 0,5%.” E uma recessão global na primeira metade do ano está “subitamente parecendo uma possibilidade real”, disse Erik Nielsen, economista-chefe da UniCredit.

Num estudo de uma pandemia global de gripe, professores da Universidade de Oxford estimaram que um fechamento de escolas por quatro meses – quase exatamente o que o Japão fez – derrubaria 0,6% do produto em um ano, já que os pais teriam de faltar ao trabalho para cuidar das crianças. Num paper de 2006, Warwick McKibbin e Alexandra Sidorenko, da Universidade Nacional Australiana, estimaram que uma pandemia global de gripe de gravidade moderada a severa, com uma taxa de mortalidade de até 1,2%, derrubaria até 6% do PIB de qualquer economia avançada no ano do surto.

O Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), agência de pesquisa financiada por bancos e instituições financeiras internacionais, anunciou que: “Estamos rebaixando a taxa de crescimento da China este ano, de 5,9% para 3,7%, e a dos EUA, de 2% para 1,3%. O resto do mundo está turbulento. A Alemanha lutando para vender automóveis, o Japão prejudicado pela alta dos impostos em 2019. Os mercados emergentes já estão fracos há algum tempo. O crescimento global poderia se aproximar do 1% em 2020, o menor desde 2009.”

Quais são as reações das autoridades oficiais, em termos de política econômica, para evitar uma queda profunda? O Federal Reserve estadunidense interveio reduzindo as taxas de juros numa reunião de emergência. O Canadá rapidamente o seguiu, e outros mais seguirão. O FMI e o Banco Mundial estão disponibilizando cerca de US$ 50 bilhões em financiamento emergencial facilitado para países de baixa renda e emergentes que potencialmente buscarão auxílio. Desses, US$ 10 bilhões estão disponíveis a juros zero para os membros mais pobres através da Linha de Crédito Rápido [Rapid Credit Facility].

Isso pode ter algum efeito, mas reduções da taxa de juros e crédito barato são mais prováveis de serem usados para impulsionar as bolsas de valores com ainda mais “capital fictício” – e, de fato, as bolsas tiveram uma limitada recuperação depois de despencarem de seus picos em mais de 10%. O problema é que esta recessão não é causada por uma “falta de demanda”, como quer a teoria keynesiana, e sim por um “choque de oferta” – isto é, queda da produção, investimento e comércio. As soluções keynesianas/monetaristas não funcionarão porque as taxas de juros já estão próximas de zero e os consumidores não deixaram de gastar, pelo contrário. Jon Cunliffe, vice-governador do Banco da Inglaterra, disse que o coronavírus foi “um choque de oferta puro, não há muito que possamos fazer a respeito.”

E, como argumenta o economista marxista britânico Chris Dillow, a epidemia do coronavírus é, na verdade, só um fator a mais deixando as principais economias capitalistas disfuncionais e estagnadas. Ele atribui a causa principal da estagnação ao declínio de longo prazo da rentabilidade do capital: “a teoria básica (e o senso comum) nos dizem que deve haver relação entre os rendimentos de ativos financeiros e reais, de modo que baixos rendimentos em títulos devem ser um sinal de baixos rendimentos do capital físico. E são.” Ele identifica “três grandes fatos”: a desaceleração do crescimento da produtividade, a vulnerabilidade à crise e a precarização do trabalho. E, como diz, “É claro que todas essas tendências foram longamente discutidas pelos marxistas: uma taxa de lucro declinante, monopólios levando à estagnação, propensão à crise e condições de vida piorando para muitas pessoas. E há evidência abundante para cada uma delas.” De fato, como sabe qualquer leitor habitual deste blog.

Agora, John Plender, no Financial Times, corroborou meu argumento. Ele apontou que, segundo o IIF, a dívida global, em proporção do PIB, atingiu uma alta histórica de mais de 322% no terceiro trimestre de 2019, com a dívida total chegando perto de US$ 253 trilhões. “A implicação, se o vírus continuar se espalhando, é que qualquer nova fragilidade no sistema financeiro terá o potencial de desencadear uma nova crise da dívida.”

O enorme crescimento da dívida corporativa não-financeira estadunidense é particularmente chamativo. Isso permitiu às gigantes globais da tecnologia comprarem suas próprias ações e pagarem enormes dividendos aos acionistas e, ao mesmo tempo, juntar seu dinheiro no exterior para evadir impostos. Mas também permitiu que as companhias de pequeno e médio porte, nos EUA, na Europa e no Japão, as quais não estavam tendo nenhum ganho digno de menção há anos sobreviessem no que se chamou de um “estado zumbi”, ou seja, ganhando só o suficiente para pagar seus trabalhadores, comprar insumos e servir sua (crescente) dívida, mas sem que sobrasse nada para novos investimentos e expansão.

Plender ressalta que um relatório recente do FMI diz que, ao final de dezembro de 2019, o extraordinário estoque global de títulos de dívida corporativa não-financeira atingiu a alta histórica de US$ 13,5 trilhões, em termos reais, o dobro do nível de dezembro de 2008. “A alta é mais chamativa nos EUA, onde o FED estima que a dívida corporativa cresceu de US$ 3,3 trilhões, antes da crise financeira, para US$ 6,5 trilhões ano passado. Dado que a Alphabet, proprietária do Google, a Apple, o Facebook e a Microsoft sozinhas tinham um caixa líquido de US$ 328 bilhões ao final do ano passado, isso sugere que a maior parte da dívida está concentrada nos setores econômicos antigos, nos quais muitas companhias não geram tanto caixa quanto a Alta Tecnologia. O serviço da dívida é, consequentemente, mais oneroso.

O último relatório de estabilidade global do FMI reforça esse argumento com uma simulação mostrando que uma recessão com metade da severidade da de 2009 acarretaria as empresas com dívidas maiores que US$ 19 trilhões não terem lucros suficientes para pagar essas dívidas.

Logo, se as vendas colapsarem, as cadeias de fornecimento forem interrompidas e a lucratividade cair mais, essas empresas altamente endividadas podem desmoronar. Isso golpearia os mercados de crédito e os bancos e desencadearia um colapso financeiro. Como mostrei em diversas ocasiões, a lucratividade do capital tem tido uma tendência declinante nas principais economias (veja o gráfico abaixo, extraído da Penn World Table 9.1).

E a massa de lucros globais já estava começando a contrair antes que o Covid-19 entrasse explosivamente em cena (meu gráfico abaixo, com dados de lucro corporativo de seis economias centrais, com o 4º trimestre de 2019 parcialmente estimado). Então, mesmo que o vírus não cause uma quebra, as condições para qualquer recuperação significativa simplesmente não existem.

Eventualmente, o vírus irá minguar (embora possa continuar nos corpos humanos perpetuamente em mutação, causando pequenos surtos anuais no inverno). A questão é se o “choque de oferta” é tão grande que, mesmo que as economias comecem a se recuperar na medida em que as pessoas forem voltando à trabalhar e a viajar e o comércio seja retomado, o dano terá sido tão profundo, e o tempo necessário à recuperação, tão longo, que esse não seja um ciclo econômico trimestral, em forma de V, e sim uma queda de 6 a 12 meses, em forma de U.

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FOOTNOTES

[1Estol (do inglês, stall): perda de sustentação de uma aeronave. “Velocidade de estol” é a velocidade mínima que uma aeronave em voo deve manter para não cair (N.T).
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