Gênero e sexualidade

EMERGÊNCIA SOCIAL

Coronavírus, capitalismo e patriarcado: e agora quem cuida das crianças?

Depois do anúncio de fechamento dos centros educativos em várias cidades espanholas para prevenir o contágio do coronavírus, se aprofunda uma crise social e de atendimento que afeta especialmente as famílias trabalhadoras.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

sexta-feira 13 de março| Edição do dia

A propagação do coronavírus na Itália e Espanha desencadeou uma emergência de atendimentos que afeta especialmente a classe trabalhadora e as pessoas com trabalhos mais precários. O cruzamento de gênero e classe coloca as consequências dessa crise sobre as famílias trabalhadoras, e especialmente entre as mulheres.

Se as crianças não forem à escola, quem vai cuidar delas? Nos bairros mais ricos de Madri, como Salamanca ou Pozuelo de Alarcón, isso não cria muitos problemas. A babá vai trabalhar mais horas (com o pouco que ganha, com certeza aceitará ficar) ou será a trabalhadora doméstica que, além de limpar a casa e cozinhar, é responsável pelas crianças. Mas quem vai cuidar delas nas casas dos bairros populares? Quando ambos os pais trabalham, o recurso mais comum das famílias geralmente são os avós, mas o Vírus COVID-19 afeta mais letalmente as pessoas mais velhas, de modo que as consequências podem ser severas se alguma das crianças já estiver infectada.

As autoridades anunciaram o fechamento de colégios e intitutos nos locais mais afetados, mas não há licenças de trabalho estabelecidas que mantenham o salário para todas as pessoas que tenham menores sob seus cuidados. O governo sugeriu que se promova o "teletrabalho", mas deixa-se essa decisão a critério de cada empresa. Por outro lado, a maioria dos trabalhos não se pode transferir para casa. Quem vai cuidar dos filhos das trabalhadoras e trabalhadores da hotelaria, das grandes lojas, das empresas de logística, do transporte, das fábricas ou da limpeza? Com quem vai deixar seus filhos as caixas de supermercado ou as trabalhadores domésticas que trabalham cuidando? Como você pode encontrar mais casos de pessoas com doenças cardíacas, quais são os cuidados? E quando começar a haver mais casos de pessoas maiores doentes, quem vai cuidar deles?

Diante da possibilidade - cada vez mais próxima - de um colapso do sistema público de saúde (preparado há anos por cortes, privatizações e falta de contratos de pessoal) o Estado toma medidas que acabam descarregando a crise do coronavírus nas famílias, como se a saúde da maioria da população fosse um assunto privado que dependesse de "responsabilidade individual".

E essa crise, como sabemos, afetará particularmente as mulheres trabalhadoras. Embora a taxa de emprego feminino no estado espanhol permaneça atrás da média europeia, tem aumentado nos últimos anos, alcançando 61%. Ou seja, seis a cada dez mulheres em idade de trabalho (entre 16 e 64 anos) estão empregadas, enquanto a taxa de emprego masculina chega a 71,5%. Isso significa que, na maioria das casas formadas por progenitores, ambos trabalham, embora as mulheres sejam a maioria entre as pessoas com jornada de meio período (3 em cada 4).

Esses últimos dados são fundamentais, pois mostram a estreita relação que existe entre a precariedade do trabalho e os cuidados feminizados. Entre os empregados que não trabalham em tempo integral devido à necessidade de cuidar de outras pessoas (crianças, doentes, idosos ou dependentes), 94,74% são mulheres. E diante a decisão de quem falta do trabalho para cuidar das crianças, a escolha geralmente recai a elas, que já têm um trabalho de meio período para cuidar dessas tarefas.

Se considerarmos também que a taxa de pobreza nos domicílios com filhos onde os dois pais trabalham é de 7%, e que a taxa de emprego temporário gira em torno de 30%, podemos também prever as consequências que essa crise pode ter para a classe trabalhadora.

Se faltar trabalho para cuidar de crianças ou doentes não está garantido com licenças remuneradas e obrigatórias, e ao mesmo tempo, a crise do coronavírus atinge a economia causando a queda nos lucros empresariais, demissões em massa não vão esperar. Isso será especialmente grave para aqueles que têm os empregos mais precários, que combinam temporalidade e parcialidade, um segmento onde a porcentagem de mulheres é o dobro em relação a dos homens. (Relatório: "Mulheres no mercado de trabalho, mulheres pensionistas e mulheres migrantes no século XXI.")

Por sua vez, deve ser considerada a situação de milhares de trabalhadoras domésticas e cuidadoras, em sua maioria mulheres e imigrantes. Quem garante sua saúde e que não está exposta ao contágio, por estar cuidando de pessoas doentes? Quem garante seus direitos trabalhistas, quando são as mais precarizadas entre as precarizadas? Em seu caso, além disso, muitas vezes faltam redes de apoio familiar, porque elas foram deixadas nos países de origem, e muitas são as famílias de pais solteiros.

Nos próximos dias, os contágios se multiplicarão e os efeitos recessivos sobre a economia começarão a ser sentidos. É por isso que, juntamente com licenças sem descontos salariais para todas as pessoas com menores em seus cuidados, outra medida necessária e urgente é a proibição total de demissões durante esta crise. Todos os recursos privados de saúde também devem ser colocados a serviço da população. Se trata de uma crise de magnitude, seus lucros não podem estar acima de nossas vidas. Precisamos exigir uma série de medidas para que as consequências do coronavírus e da crise econômica não sejam pagas pela classe trabalhadora, com mulheres, migrantes e jovens como seus elos mais fracos.

Em Patriarcado e capitalismo (Akal, 2019), que escrevemos com Cynthia Burgueño, apontamos:

"A crise do chamado estado de bem-estar social na Europa levou a uma localização dos encargos sociais do Estado para casas. Os capitalistas descarregam sucessivas crises econômicas nas famílias através de cortes e privatizações; o desmantelamento dos sistemas públicos de proteção e serviços sociais primários, como educação infantil ou residências para dependentes. Essa situação, que varia entre os diferentes países, estando na Alemanha, Itália e no Estado espanhol dos mais críticos, causa maior pobreza nas casas e sofrimento para as mulheres dedicadas 24 horas aos cuidados de grande duração". A epidemia de coronavírus agravou essa crise de cuidado, expondo os setores mais vulneráveis. O vírus é o gatilho, mas o capitalismo patriarcal é o doente.




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