Gênero e sexualidade

Coronavírus: alguém pode pensar na população travesti e trans?

Em tempos de Coronavírus, os empresários e governos capitalistas querem preservar seus lucros enquanto a maioria da população tenta sobreviver. Neste contexto, a população travesti e trans é uma das mais vulneráveis. O que pensam em fazer?

quinta-feira 19 de março| Edição do dia

Artigo original escrito em espanhol: Coronavirus: ¿alguien puede pensar en la población travesti y trans?, no La Izquerda Diario.

"A romantização da quarentena é um privilégio de classe", escreveu Ruby em seu Instagram. Junto com o post, compartilhou um pedido urgente de ajuda, ela tem que se prostituir para comer, é uma travesti que veio de Tucumán aos 14 anos de idade e que hoje, aos 24, ainda não conseguiu trabalho registrado. Como ela, está a maioria da população travesti e trans. A exigência de um subsídio especial, acesso a saúde pública, a moradia e a educação, são reinvindicações que não foram atendidas por nenhum governo.

A população travesti e trans se forja em um contexto de extrema violência. Os relatos são de como a família os exclui, como são intimidados na escola , e como não conseguem trabalho por não serem homens ou mulheres. Falemos de dados mais certeiros.

Daniela Ruiz é ativista e diretora da 7 Colores Diversidad: "O mais importante é que a situação de vulnerabilidade é grave neste setor. Sempre nos colocam por último e uma das grandes preocupações é que muitas não podem ir para zonas protegidas e também não podem cumprir a quarentena. A maioria são do interior, não podem pagar aluguel, são expulsas de casa pelas suas famílias. O grande medo é chegar aos albergues onde ficam expostas a uma situação de abandono. Além disso, não tem vale refeição".

A redação do La Izquierda Diario recebeu um comunicado de O-Trans que diz que detentas na Unidade Penitenciária N 2 -Sierra Chica- denunciam que o serviço penitenciário Bonaerense (SPB) não cumprem com o protocolo de prevenção e contenção do COVID 19 (Coronavírus). "Não cumprem com as recomendações da Organização Mundial da Saúde - OMS - de garantir insumos preventivos a este vírus. Asseguram que "só nos deram um sabonete para lavarmos mãos e um galão de 5 litros de cloro para 150 pessoas. Isso somado a falta de alimentação, estamos muito assustadas pelo que pode vim a acontecer". Como pode ser esse nível de desdém?

"Manutenção, desenho, restauração, poda, limpeza, parques, jardins, sacadas e pátios", diz Felix em seu anúncio buscando trabalho (instagram). "Todas as reuniões para projetos de livros novos foram canceladas mas temos sorte de ter internet e as faremos online. Enquanto isso, aproveitamos para avançar com projetos de livros", afirma Gaita que tem uma editora chamada Puntos Suspensivos. Por outro lado, Mor hace binders (instagram): "aproveito para adiantar trabalho, eu trabalho para ajudar a saúde das pessoas trans". Male, hace remeras sublimadas (instagram) e também está fazendo malabarismo para manter seu empreendimento funcionando: "O trabalho diminuiu muito, cancelaram três feiras".

Alguns setores ficam fora das medidas que o Ministro do Trabalho, Claudio Moroni, anunciou na conferência de imprensa que deu junto a secretaria de Gestão e Emprego Público, Ana Castellani. O que acontece com aqueles e aquelas que trabalham por exemplo na Rappi? O que acontece com todos esses empredimentos citados acima que não tem demanda por conta da quarentena? O que acontece com 90% da população travesti que precisa se prostituir para comer?

Violência

Em 2019 a violência contra as pessoas LGBTI aumentou. Até junho, tinham sido registrados 68 crimes de ódio. Ou seja, um ataque a cada 68 horas segundo dados parciais - até 30 de junho - do Observatório Nacional de Crimes de Ódio LGBT criado pela Defensoria LGBT do instituto contra a Discriminação da Defensoria do Povo da Cidade de Buenos Aires, em articulação com a Federação Argentina LGBT e a Defensoria do Povo da Nação.

A violência exercida pelas forças de segurança argentina e os serviços de penitenciária afetam grande quantidade de pessoas da comunidade LGBT, particularmente as mulheres trans. Como resultado das exclusões sistemáticas e descaso aos direitos básicos e inalienáveis, as mulheres trans enfrentam frequentemente situações de pobreza que condicionam as estratégias de sobrevivência disponíveis e que explicam a saída pela economia informal, o trabalho sexual ou atividades a margem da legalidade

Na Argentina existe a Lei de Identidade desde 2012, uma imensa vitória fruto das conquistas nas ruas e que conseguiu registrar mais de 10 mil pessoas. No entanto, isso não é suficiente. Que não se cumpram as vagas de trabalho pensadas pela Diana Sacayán, e que não se cumpra com o artigo N° 12 da Lei de Identidade, deixa as travestis e trans em uma situação mais do que vulnerável. Mesmo que na Argentina a saúde seja pública, isso não garante que seja de fato um direito para todos e todas. Até o dia de hoje existe uma assembleia para exigir hormônios, denuncia o que falta e não somente dos tratamentos hormonais mas também de antiretrovirais para pessoas que tem HIV/Aids e doenças oncológicas.

A saúde integral, segundo a Organização Mundial da Saúde é "o estado de bem estar ideal, somente se conquista quando existe um equilíbrio entre os fatores físicos, biológicos, emocionais, mentais, espirituais e sociais, que permitem um crescimento adequado e desenvolto em todos os âmbitos da vida", e isso não está sendo cumprido.

Nossa saúde vale mais do que seus lucros

O pagamento da dívida pública não pode seguir sendo um eixo prioritário da política do governo, ainda mais no atual contexto. É preciso deixar de pagar a dívida ilegal, ilegítima e fraudulenta e destinar os fundos necessários, que até agora são mínimos. Sem destinar o dinheiro necessário e sem afetar os lucros de todos os que lucram com os negócios da saúde, não poderemos fazer frente a esta crise.




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